domingo, 18 de setembro de 2016

[9689] - CABO VERDE ARRASADO HÁ 73.000 ANOS...


Quem observa a ilha do Fogo a partir de uma fotografia de satélite, pode ver uma enorme dentada em toda a zona Leste da grande caldeira da ilha de Cabo Verde. A estranha forma é o resultado do colapso de parte do cone, há cerca de 73.000 anos. De uma só vez, 160 quilómetros cúbicos de material terão caído para o mar. O resultado foi a criação de uma onda com 170 metros que se abateu 7,5 minutos depois na ilha de Santiago, a 55 quilómetros de distância. A energia da onda era tanta, que empurrou blocos de rocha com centenas de toneladas durante centenas de metros, ilha acima.

Hoje, no planalto de Santiago, ainda se encontram aqueles blocos ciclópicos, que saltam à vista pela sua dimensão. Foram estes objectos que permitiram a uma equipa internacional de investigadores, com vários portugueses, relacionar os aspectos geológicos das duas ilhas e traçar o cenário catastrófico do megamaremoto, mostra o artigo publicado ontem na revista Science Advances. Nada impede que, no futuro, fenómenos como este voltem a acontecer.

José Madeira, geólogo da Faculdade da Ciência da Universidade de Lisboa (FCUL) e um dos autores do artigo, relata-nos o que se terá passado. “A massa rochosa [que desaba da ilha para o mar] ocupa espaço que estava ocupado pela água e desloca a massa de água produzindo a onda que depois se propaga”, explica o cientista. “A onda é gerada na costa Leste da ilha do Fogo e vai avançar em direcção a Leste, atinge toda a costa Oeste de Santiago e depois é refractada em torno da ilha.”

As ondas terão chegado às restantes ilhas do arquipélago de Cabo Verde, mas o efeito não foi igual em todas elas. “Nas ilhas baixas como na de Maio, na da Boavista e na do Sal, terá havido uma inundação bastante extensa do litoral. Nas ilhas mais altas, a onda poderá ter subido até cotas bastante elevadas, mas não entrou tão profundamente”, defende José Madeira.

É muito possível que o maremoto tenha chegado à costa africana, mais enfraquecido. Mas já não se sabe se atingiu também a Madeira, os Açores, ou Portugal continental, por estarem mais longe. Para se saber isso, é necessário continuar a fazer os mesmos estudos que estiveram na origem desta descoberta.

Tudo começou há uns anos, em Maio, uma ilha mais pequena e mais baixa que fica logo a leste de Santiago. “A certa altura encontrei depósitos sedimentares com características estranhas que associei a um grande tsunami”, relata José Madeira. “Na altura, pensei que a origem mais provável para esse evento poderia ter sido o colapso da ilha do Fogo.”

Segundo uma datação anterior a este estudo, o colapso do cone da ilha do Fogo (que foi notícia em 2014, devido a uma erupção vulcânica em Novembro que durou até Fevereiro de 2015) ocorreu algures entre há 124.000 e 65.000 anos. No entanto, havia uma grande discussão sobre o fenómeno. Não se sabia se tinha ocorrido de uma forma progressiva, com vários deslizamentos de material ao longo do tempo, ou se foi um evento único.

Estes dois cenários têm consequências diferentes na formação de um maremoto. O deslizamento sucessivo de rochas leva a que menos material entre no mar de cada vez, criando ondas mais pequenas. Enquanto um colapso único origina uma onda muito maior. Esta discussão não termina no caso da ilha do Fogo, em Cabo Verde, e a sua importância ultrapassa a curiosidade científica. Em várias ilhas em todo o mundo, há marcas de derrocadas semelhantes, e investigar o que sucedeu ajuda a avaliar os riscos de futuras derrocadas e os seus impactos.

Para tentar compreender o que se passou no caso de Cabo Verde, José Madeira dirigiu-se à ilha a leste do Fogo. “Fui à ilha de Santiago à procura de depósitos equivalentes e encontrei-os”, revela. Isto foi há cerca de cinco anos. É aqui que a sua história se encontra com as observações feitas por outro geólogo formado na FCUL, Ricardo Ramalho, que terminou o doutoramento em 2010, na Universidade de Bristol, Reino Unido, sobre a geologia de Cabo Verde.

“O Ricardo passou por Lisboa e mostrei-lhe os depósitos que tinha encontrado. Na altura, ele disse-me que tinha encontrado uma situação estranha [em Santiago] que não compreendia e que era um conjunto de grandes blocos dispersos pela superfície planáltica, cuja origem não era evidente. Então relacionámos os dois aspectos e percebemos que eles correspondiam ao mesmo evento”, diz José Madeira.

Os depósitos encontrados por José Madeira e os blocos que chamaram a atenção de Ricardo Ramalho estão em locais diferentes, na costa do extremo Norte de Santiago. A vertente litoral daquela zona sobe progressivamente com uma inclinação cada vez maior e termina num escarpado vertical chamado cornija. A partir daí inicia-se o planalto. Os depósitos estão mais perto do mar, antes da cornija, e resultam de areias marinhas e conchas trazidas pelo maremoto, que se misturaram com o material emerso. Os blocos, a 600 metros ou mais do litoral, estão no planalto, a 200 metros de altitude.

Pesquisa de A. Mendes


1 comentário:

  1. Há tempos li uma reportagem num jornal acerca deste assunto. A vida das ilhas deve ter sido geologicamente violenta nos tempos mais remotos. Há dias, vi também um programa na televisão sobre as ilhas da Macaronésia, explicando a sua origem comum (a mesma plataforma) e mostrando que entre a Madeira e a costa africana havia um arquipélago que se submergiu numa era qualquer. Se formos ao Google Earth, verificamos muito mais ilhas submersas no conjunto da Macaronésia, certamente devido a episódios ocorridos em tempos geológicos diferentes da era cenozoica.

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