quarta-feira, 21 de setembro de 2016

[9699] - O PALACETE DO SENADOR...


O edifício onde se encontra instalado actualmente o Centro Nacional de Artesanato e Design, possui uma história grandiosa. Foi mandado construir, por volta de 1890, pelo senador Augusto Vera-Cruz, um homem abastado, proveniente da ilha do Sal, mas que vivia em São Vicente. Como era um benfeitor e altruísta, preocupava-se muito com o povo, nomeadamente as gentes de São Vicente.

Senador Vera CruzAntes da sua morte, cedeu o palacete para que aqui se instalasse o primeiro liceu da ilha. Depois, com o aumento da população, o espaço revelou-se insuficiente e o liceu teve se ser transferido para outro local da cidade.

Nos finais da década de 30, dá lugar ao Clube Recreativo da alta sociedade mindelense, e passou a ser denominado de Grémio do Mindelo.

Durante a 2ª Guerra Mundial, a casa foi cedida, a título temporário, ao exército, transformando-se num quartel militar. Quando terminou a guerra, volta a acolher o Grémio do Mindelo, onde só se abria para sócios e para as pessoas de elite da ilha, as chamadas gentes de morada. Reuniam aqui, e aqui instalaram, nos anos 50, a Rádio Barlavento, que foi um importante veículo de comunicação para o povo são-vicentino. Muitos artistas, entre os quais a Cesária Évora, gravaram os seus primeiros discos na Rádio Barlavento.

Posteriormente, com a independência, o povo mostrou-se insatisfeito pelo facto de o espaço estar a ser utilizado apenas por um grupo de pessoas e, numa revolução popular, restituíram a Rádio Barlavento e a casa, ao povo da ilha. A Rádio Barlavento deu então lugar à Rádio Voz de São Vicente.

O primeiro ministro de então, o comandante Pedro Pires, ofereceu o espaço ao Centro Nacional das Artes onde foi ampliado por forma a realizarem-se outras atividades culturais. Criaram-se salas de desenho, de tecelagem, uma loja que vendia os produtos produzidos e onde se dava formação a novos alunos. Funcionou também como entreposto dos artesãos da ilha, onde todas as quartas e sextas-feiras, chegavam produtos do artesanato local produzidos noutros pontos de São Vicente.

Foi uma época de grande atividade, com formação profissional, simpósios onde participavam artistas de renome internacional, exposições e um espaço permanente de produção, nomeadamente de tapeçarias e tecelagem tradicional. Havia igualmente um conforto económico, pois como o Centro produzia e comercializava os seus trabalhos, as receitas eram aplicadas na expansão e no fomento da atividade. Contudo, e apesar de ser uma instituição autossustentada, com a mudança dos sucessivos governos, foi decretado o seu encerramento e o Centro Nacional das Artes viu-se privado dos seus funcionários, e acabou por definhar e se extinguir.

Após quatro anos sem qualquer actividade, o Centro reabre como Museu de Arte Tradicional, no entanto sem a pujança de outros tempos, com menos funcionários e sem produção própria.

Mais uma mudança nos membros governativos e mais uma alteração ao nome do museu, que desta feita passa a ser chamado de Casa do Senador, que embora estivesse vocacionado para as artes, perdeu o estatuto de museu.

Com a actual estrutura governativa, a casa do senador Vera-Cruz, vê ressurgir o projecto inicial e actualiza-se para acolher o Centro Nacional de Artesanato e Design, onde a par de uma mostra permanente, pretende estimular a componente de formação às novas gerações e fazer renascer o artesanato tradicional como forma de contributo para a economia nacional. (NósGenti-16.06.2012)

N.E. - Dando de barato a informação de que "uma revolução popular" terá devolvido a Rádio Barlavento e a casa ao povo,  gostaria de fazer ressaltar a afirmação de que  "o Primeiro Ministro de então, o comandante Pedro Pires, ofereceu o espaço ao Centro Nacional de Artes"...
Pergunto em nome de quem e com que fundamento legal, se ofecereu o palacete do Senador Vera Cruz a quem quer que fosse? Não estamos aqui a discutir os merecimentos das actividades de Centro Nacional de Artes mas sim a facilidade com que um qualquer governante dispõe da propriedade alheia para finalidades cujo valimento se não discute pois o que espante são os meios e não a finalidade da atitude...Que diria - ou dirá - a matriz predial do imóvel quanto aos seus verdadeiros e legais proprietários? Gostaria que alguém se dedicasse a desvendar este mistério que permitiu a alguém, ainda que Primeiro Ministro, fazer doação de coisa alheia! E já não estamos a falar em móveis e utensílios do Grémio Recreativo Mindelo e dos emissores, equipamento de estúdio e discoteca da Rádio Barlavento!

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