terça-feira, 11 de outubro de 2016

[9775] - VERTENTES DO OLHAR...


As Mães

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê. Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição. - in "Vertentes do Olhar"

Eugénio de Andrade


(Sugerido por Adriano M. Lima)





5 comentários:


  1. Sim, sugeri este soberbo texto poético do Eugénio de Andrade porque, tal como Goethe, penso que “as Mães estão fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno”. E porque, tal como diz Eugénio de Andrade, credito que elas "estão aí desde as primeiras estrelas". Ou melhor, não penso nem acredito, sinto. Ah, também acho, como escreve Eugénio de Andrade, que só elas têm o condão de ver uma estrelinha cintilando nas nossas testas, as testas dos seus filhos.
    Sim, Zito, só nos sentimos como seres se conseguirmos que a alma deslize em certas "vertentes do olhar", um olhar procurando um ponto no infinito.

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  2. Escusado emendares porque salta aos olhos que, na embalagem da escrita o "a" ficou sonhendo pelo caminho e não foi sacrificado por nenhum predador.
    Meu Deus, como gostaria de poder escrever um décimo do que escreve este fenômeno da lingua portuguesa, agora mais valorosa do que nunca !
    Eu sei que o Zito agradece (e eu também) pela escolha deste jaez. Vamos aguardar como se o texto fosse o primeiro episôdio de uma série.
    Bem hajam a todos !

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  3. Pois é, amigos: beleza é isto mas, mais do que beleza, sentimento... Por isso eu sou seguidor de Damásio e não de Décartes: SINTO, LOGO, EXISTO! Eu próprio, já vão anos, escrevia aqui, quando chorei a morte da minha, sobre a sensação de que as mães não morrem: são eternas! Ora, isso não é conhecimento nem crença, como refere o Adriano, sente-se, como sentimos essa estrelinha que, no entanto, só elas têm o poder de vislumbrar!
    Braça com calor de mãe,
    Zito

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