quinta-feira, 13 de outubro de 2016

[9783] - OS SONS DO PASSADO...


UMA CASA...UMA VOZ...MELODIAS DE SEMPRE!
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Mesmo em frente à Praça Nova, na cidade do Mindelo, fica a antiga residência de Pedro Bonucci, onde também funcionava o consulado de Itália.
Nessa casa, naqueles tempos de canequinha, nas tardes soalheiras de então, costumava o meu avô sentar-se ao piano e, de janelas abertas perante uma plateia que se reunia na praça para o ouvir, soltava a voz e cantava arias famosas de ópera ou “coisas de outros tempos”.
Há dias em que fecho os olhos, imagino-me sentada nos mesmos bancos do jardim da Praça Nova, e julgo escutar o som dessas melodias, sentir aquela voz poderosa que os mindelenses desse tempo puderam desfrutar. Então como que trazidas pelo vento, atravessando as barreiras do tempo, chegam até mim, e deixo-me ficar embalada por todas aquelas sensações, melodias, experiências não vividas , mas que podem ser sentidas.
Saudades de um tempo e de coisas que nunca vivi, mas que ganharam espantosa nitidez na minha memória, por via das recordações que me foram transmitidas, duma época, de um Mindelo romântico, onde o tempo por vezes parava, e as pessoas tinham tempo para o tempo. 
Construí a imagem do meu avô como homem empreendedor, dado à família, aos amigos e à sociedade mindelense, amante das artes, um homem simples e bom.
A eletrificação do Mindelo foi apenas um dos contributos que deu, como na indústria, no comércio, nos serviços ou nas relações externas, para o desenvolvimento de Cabo Verde.
Mas porque essa memória foi construída sobre o meu imaginário de criança, a faceta mais marcante que guardo é a do “cantor” Pedro Bonucci, que continuo a ver sentado ao piano, agora acompanhado pelo filho Caetano Bonucci e pelo sobrinho Sérgio Frusoni, a cantar as suas belas arias para quem os costumava escutar na Praça, ou nas tardes dominicais no coro da igreja paroquial.
Podem crer, os sons de “Nessun dorme” de Puccini, “La donna è mobile” de Verdi, “O sole mio” de Eduardo di Capua e tantas outras, ecoam ainda pelos bancos do jardim da Praça Nova, no Mindelo, e ganhando intemporalidade, trazidos pelo vento chegam até mim. Então como que por encanto, um filme se projeta, os sons ganham nitidez, e eu junto-me à plateia para os ver, para os escutar.
Em memória de Pedro Bonucci....

Lucy Bonucci

9 comentários:

  1. Associemo-nos todos a esta saudosa e rica evocação.

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  2. A Lucy reporta verdades que ouviu e momentos que viveu. De muita coisa tenho ideia pois conheci o seu avô Pidrim e o associado Leça. Lembro-me muito bem da sua mãe, a bela Yolanda, e do tio Gaetano com quem estive algum (pouco) tempo e grato lhe fiquei quando deu o seu acordo a que eu fosse estudar teatro (e radio) no Brasil, ideia dos srs. Mendo Barbosa e Julim Oliveira, este meu chefe na Western Telegraph. Como todos sabem, recusei o honroso convite pois compreendi que de volta passaria a estar atado em dois postos: a Câmara Municipal e o Grémio Mindelo. Mas isto é outra estória já falada no livro "O teatro é uma Paixão - a vida é uma emoção" e se aqui estou agora é para corroborar o que diz a Lucy que não cheguei a conhecer.

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    1. Ah, eu não sabia que ela era filha da minha antiga professora Yolanda. Já agora, que é feito da Yolanda?

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  3. Conheço um tipo que escreve há anos para jornais de Cabo Verde que já falou das cantorias destes saudosos italianos. Aqui vai um pouco dessa prosa, alinhavada por volta de 2006, no antigo "Liberal":

    (...) Mas uma outra faceta curiosa apresenta a biografia de Frusoni: a de cantor – ao que rezam as crónicas, de primeiríssima água – pelo menos, nos anos da infância e juventude. Vejamos: por alturas de Agosto de 1913, realizou-se uma récita de caridade no teatro de S. Vicente, em benefício de laureado aluno do curso de instrução primária superior. No programa, extenso e nalguns casos mal preparado por falta de tempo (apenas oito dias úteis), brilharam os actores Silva Torres e Pestana Lopes e o ‘Grupo 15 de Fevereiro’. Na terceira das quatro partes de que constou o espectáculo, houve uma “canção italiana, cantada pelo menino Frusoni”. Nada mais diz «O Futuro de Cabo Verde» sobre a actuação do pequeno cabo-verdiano de origem italiana. Mas o cronista, na edição de 4 de Setembro, há-de penitenciar-se pela sua falha, dando a Frusoni um realce que nenhum dos outros participantes na récita teve: “Foi de 36$720 o produto líquido da récita de caridade, realizada em 12 do corrente, em benefício de um estudante pobre. A pressa com que fizemos a reportagem desta récita fez-nos esquecer referências ao menino Frusoni, filho do sr. Giuseppe Frusoni que cantou com muito mimo uma canção italiana. Foi um dos números que mais agradou, sendo bisado. Realmente encanta aquela voz de criança e nós que já o ouvimos por duas vezes, não nos cansaremos de lhe pedir bis quando ele nos voltar a deliciar com o seu canto.”

    Ainda no mesmo ano, em 7 de Novembro, houve no Mindelo uma récita a favor dos escuteiros (boy-scouts), organizados por Simão Barbosa, que reverteu para o cofre dos mesmos. Cantou-se «A Portuguesa» – acompanhada ao piano por uma miss Eveleigh, à rabeca por Chaluio e Correia e ao violão por Mariano e Martinho –, representaram-se comédias, cantou-se a «Sementeira», fez-se ginástica sueca, e “o filhinho do sr. Frusoni, com uma divina voz, demonstrando a sua veia artística italiana, prendeu a assistência, cantando duas canções napolitanas. Foi justamente mimoseado com um lindo bouquet de flores.” Dois italianos participaram também nesta récita: Temistocle Neri, que cantou uma romanza da ópera «Fédora», e P. Bonuci (sic) [Pedro Bonucci, tio paterno de Sérgio Frusoni, longo dono da Loja Central e proprietário da Central Eléctrica, como nos conta o professor Mesquitela Lima] que “numa canção napolitana, teve uma entrada primorosa e a execução saiu superiormente cativante”.

    Giuseppe Frusoni e Pietro Bonucci eram gente de Livorno; de Temistocle Neri não conheço a origem. Na Praia, pontuava por essa altura o comerciante Pietrino Mastrodomenico di Giuseppe, natural de Castelnuovo di Conza, província de Salerno, que exportava e importava produtos entre a Europa e África. Homem de generosidade, ofereceria $500 para um peditório destinado aos pobres da cidade, organizado pelo «Futuro de Cabo Verde», no terceiro aniversário da implantação da República. Para quando, portanto, a história destes (parece que muitos) italianos que arribavam há um século às ilhas e nelas prosperavam? Tanto mais que esse ítalo interesse, ao invés de ter terminado, tem registado intensificação crescente nos últimos anos... António Leão Correia e Silva, no seu delicioso e crucial livro «Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo», do qual recentemente saiu a 2.ª edição, levanta um pouco do véu. Na página 129 fala da comunidade italiana que se instalou no em S. Vicente “abrindo bazares, lojas de ‘souvenirs’, bares e restaurantes. Pietro Polese, Cavassa Giuseppe, Massoca Mattili, Bonucci Gaetarez, Frusoni são alguns dos importantes comerciantes italianos da praça do Mindelo. Os seus principais clientes são os passageiros em trânsito das companhias italianas ou francesas e alemãs partindo de Génova como La Veloce, Compagnia Generale de Rubaltino Florio, Rocco Piaggio, Societá Lavarelo (...)”.

    Braça frusónica e bonucciana,
    Djack

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    1. Muito boa contribuição deste para complementar este post, Djack.

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  4. Sim, era uma vida diferente "naquel tempe d'caniquinha".O meu pai continuou sempre a cantar em casa. Lembro-me, de uma vez, o ouvir cantar no Café Portugal.Em casa cantava muitas vezes operas de Verdi, Puccini e outros. Muitas operas que conheço ouvi-as pela primeira vez cantadas pelo meu pai. Quando conheci o tio Pietro Bonucci tinha eu sete anos, altura em que fomos viver em S.Vicente.Recordo-me dele como uma pessoa alegre e muito gentil.

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  5. É verdade, Fernando...Lembro-me, perfeitamente, de ouvir teu pai cantando áreas de ópera e até canções napolitanas no Café Portugal...Só não consigo lembrar-me de quem o acompanhava ao piano...
    Braça antigo
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