domingo, 30 de outubro de 2016

[9858] - CARTA DE SANTO ANTÃO...



Hoje iremos até Fajã dos Cumes, na ilha de Santo Antão, com uma sua filha, a Natalina Andrade.

INQUIETUDES DE UMA MENINA DE
FAJÃ DOS CUMES

Se está agora intrigado a pensar onde será que fica este lugar de nome estranho, adianto-lhe que não vale a pena procurar no mapa pois não consta.

Uma pequena aldeia algures no interior de Santo Antão. O nome é Fajã dos Cumes, mas por ficar tão longe e acima das outras zonas habitadas, alguns chamam-lhe, ironicamente, de Pé d' Neva...

Umas poucas famílias ainda habitam parte das casas. Outras, estão fechadas. Escuras. E ninguém mais lhes bate a porta. Os donos morreram, ou foram “resgatados” pelos filhos que se aventuram em outras paragens. São Vicente e Santiago são as mais procuradas a nível nacional.

Pois, a idade não perdoa; a saúde e a força nos músculos que outrora permitiam percorrer todas aquelas montanhas já não estão para tal.

A sua pouca gente não justifica a construção de uma estrada e os políticos só vão lá dar beijinhos e abraços às pessoas nas vésperas das eleições.

Na minha imaginação já ouvia os motores dos carros a passar pela nossa porta, quando a minha avó me dizia: “Os teus netos hão de encontrar uma estrada pelo menos até metade do caminho”. E eu, na minha doce ignorância, respondia: “Eu mesma hei-de ver esta estrada Vó, um dia há-de chegar a nossa porta”. E ela sorria. No fundo, sabia que não.

Na época eramos muitos os que desciamos todos os dias para Coculi onde fizemos o ensino secundário. Tínhamos duas opções. Na verdade duas possibilidades financeiras: fazer a pé a trajetória até Manuel Ribeiro onde termina e estrada de João Afonso para apanhar o transporte até Coculi, ou então fazer toda a trajetória a pé.

O relógio despertava-me todos os dias às 5:30 de manhã, porque em Fajã o TGV ainda é um burro e a caminhada para a escola é feita num avião a velocidade da luz chamado pé. Pontualmente a saída de casa era às 6:30.

Nos tempos em que o dia amanhece mais tarde eramos obrigados a usar lâmpadas para ver por onde andar. E lá íamos nós. Não era fácil, mas estudávamos. Era raro um aluno de Fajã dos Cumes repetir um ano. Doía a espinha só de imaginar andar tudo aquilo dois anos repetidos. O destino foi quase o mesmo para todos nós.

Terminar o 12º ano e sair de Fajã. Estudar ou trabalhar. Não por desapego ou repúdio ao nosso berço. Jamais. Mas porque ali não víamos a esperança de um futuro diferente do dos nossos pais. E na verdade, porque ainda sonhavamos dar um futuro melhor para eles. Em 2012 fiz-me ao mar rumo á São Vicente. Uma partida necessária.

Na mala trazia a tristeza de deixar para trás parte da família e amigos. Mas também a alegria de estar a traçar novos caminhos. Na esperança de que tudo só iria mudar para melhor a partir daquele dia. Hoje, inquieta-me saber que os problemas que deixei com o meu povo continuam estagnados. Ou se mudam, é para pior. Sem iluminação pública, caminhos instáveis para serem trilhadas à noite para socorrer um doente. Emfim, mas o meu povo continua lá. E eu aqui, ainda espero que alguém possa olhar por eles.

Por enquanto, apetece-me tirar um fim de semana no meu berço que não é de ouro mas amor não falta, o meu Fajã dos Cumes. Ouvir os concelhos do tio Domingos (o mais velho da zona e tio de toda gente) e respirar um pouco de ar puro.

Mesmo que para isso eu tenha que subir, a pé, toda aquela montanha que me ajudou a ser gente.

Espero que tenha gostado . Até para a semana.

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2 comentários:

  1. O lugar onde nascemos é para nós o centro do mundo. Seja ele o que for. Parabéns à autora por esta crónica rica de conteúdo.

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  2. Linda imagem. É a vida de quem vive nos montes em Santo Antão. E para os que vivem no Sul é pior.
    Mas, estradas para andar a pé ou de mula há, de carro é que não. O meu pai ia todos os dias do Campo de Cão até as Pombas, para a primária. Eu vivi noutra época com estradas e carros, mas a escola era logo na vila e ía a pé. Mas para aquela pouca gente nas montanhas, o mais certo é nunca virem a estrada chegar a porta. E pouco a pouco emigram e os montes desertificam-se.
    João (de Campo de Cão)

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