terça-feira, 13 de junho de 2017

[10027] - FINALMENTE A LUZ II

De Angola a Cabo Verde

Esta espécie de Golpe de Estado em Angola assustou os dirigentes cabo-verdianos [a maioria dos historiadores contemporâneos concluiu que o que aconteceu em Angola não passou de um levantamento popular que procurava uma alteração da política, sem a intenção de derrubar o governo]. Ora, em Cabo Verde, o Decreto-Lei nº 95/76, de 30 de Outubro, ajustava-se ao tipo de acções projectados para os órgãos de repressão policiais (treinados pela Stasi da RDA, Securitate da Roménia e a polícia de Cuba e URSS) e assegurava a completa liberdade das mesmas.
Com esta lei, a DSOP ficava com as mãos completamente livres para levar a cabo toda a espécie de atropelos e intimidação dos cidadãos, sem preocupação de controlo do poder judicial.
É ao abrigo dessa lei que, 7 meses depois, se iria proceder à prisão de várias pessoas muito conhecidas no meio mindelense. Mas o cenário começara a ser montado antes. Silvino da Luz, Ministro da Defesa e Segurança, no comício do 1º de Maio em São Vicente, denuncia que “...o imperialismo quando traça um plano para a Africa, é para todo o continente africano”, e que encontrava a sua expressão exacta nos “actos terroristas”, planeados para São Vicente e Sto. Antão. Era a noção conspirativa de elementos no estrangeiro e elementos internos unidos num complô de desestabilização.
Agnelo Alves é preso e passa os primeiros dias sem qualquer alimento nem água. A família não sabe o que lhe aconteceu. Sem poder tomar banho e com uma lata de azeite como retrete, só tem acesso aos primeiros cuidados de higiene no dia em que é levado para interrogatório (um banho de três minutos, sem sabão). No antigo quartel de João Ribeiro começa o questionário e as torturas com choques eléctricos, durante horas, até ser retirado em braços da cela. Depois de assinar uma confissão que não lera, passam-se semanas até que a família seja autorizada a levar-lhe comida, mas tinham de chegar até uma certa hora em ponto, ao mínimo atraso e os alimentos eram deitados aos cães. Lembra-se dos outros presos, Lulu Marques, metido numa cela isolado, a gritar durante três dias consecutivos, próximo da loucura. Toi de Forro, igualmente isolado, com um braço e costelas partidas, acabando por morrer porque ninguém o deixou ser visto por um médico.
Manuel Chantre é levado igualmente para João Ribeiro. É questionado sobre a “organização”, o nome do chefe e dos integrantes. Perante o silêncio, é espancado até quase ao desmaio. São-lhe mostrados os panfletos que circularam pelo Mindelo: “Homens do PAIGC regressem para o mato onde a barba é simples resguardo da pele do rosto e não o símbolo da divindade humana. O povo já não vos quer, o povo já não vos tolera mais”. Perante a ameaça de mais sevícias, Manuel Chantre confessa que tinha sido ele a estampar os panfletos e que não havia organização alguma. Isso não satisfaz as autoridades. Os interrogatórios continuam, sempre sem a presença de advogados de defesa ou de escrivães para anotarem as palavras dos presos, mas a máquina de choques eléctricos nunca faltava. Como disse anos mais tarde: “Eu fazia parte de um grupo anti-PAIGC, mas não se tratava de qualquer conjuração ou conspiração para a perpetração de qualquer crime contra a segurança interior ou exterior do Estado, nem de qualquer conspiração que tivesse tomado a forma de associação ilícita ou organização secreta com vista ao incitamento ou execução de qualquer crime”. Manuel Chantre fica preso na Ribeirinha até Janeiro de 1979.
Adelino Leite é preso e deixado incomunicável e sem alimento por dias. Segue depois para interrogatório onde leva choques eléctricos durante horas. A cena repete-se dias depois. Os interrogadores faziam as perguntas e davam as respostas, os interrogados tinham de responder “sim” a tudo. Se negassem, levavam um choque. Fica preso durante oito meses, sem culpa formada e sem julgamento. Quando é libertado, ameaçam-no com o regresso à cadeia se contasse o que lhe tinha acontecido.
Mário Leite é preso e passa os primeiros dias sem direito a água nem comida. Quando se queixa da sede, trazem-lhe água numa lata com fezes (o mesmo procedimento é descrito por outros prisioneiros). Fica preso durante 41 dias, “dias de sofrimento e de maus tratos, que eu não desejo nem ao pior dos inimigos”, como dirá mais tarde.
João da Cruz Lima é preso e fica incomunicável por 45 dias. É interrogado numa sala onde a máquina de choques eléctricos está presente, como um aviso (João da Cruz Lima nunca refere que foi torturado, provavelmente porque estava doente quando foi preso). Feitas as perguntas e dadas as respostas, o inquisidor escrevia-as à sua maneira. “Terminado o interrogatório, feito à maneira deles, sem a presença de um defensor jurídico, foi-me dado um documento para assinar”.
Augusto de Melo conhece as prisões logo a seguir ao 25 de Abril. Como se recusa a aderir a uma greve anunciada pelo PAIGC é preso, levado para o Tarrafal, em Santiago, e mais tarde para Caxias, em Portugal. Libertado nove meses depois, regressa a Cabo Verde só em Janeiro de 1976, e continua a ser vigiado pelo PAIGC. Em 1977 participa, de forma pouco activa, na distribuição de panfletos onde se mostravam contra a unidade Guiné/Cabo Verde (ironicamente, a história dar-lhes-ia razão três anos depois), se opunham à presença de russos e cubanos no arquipélago e aconselhavam o Partido Único a voltar para o mato. É preso e torturado com choques eléctricos durante horas, “nunca na minha vida imaginei sequer que houvesse um desespero igual feito por cabo-verdianos e para cabo-verdianos”. Quando adoece e pede um médico, as autoridades dizem-lhe que só havia médicos cubanos e russos, como tinham escrito nos panfletos que não os queriam, fica sem consulta. Augusto de Melo é libertado em Janeiro de 1979.

in "O Expresso das Ilhas"

7 comentários:

  1. Esta é sem dúvida, e continua a ser, uma página negra da nossa história recente de país independente. A odiosa e criminosa perseguição (1974-1975) feita a cabo-verdianos, seus irmãos, apenas por discordarem (foi a maior parte dos casos) do projecto da unidade Guiné Cabo Verde que afinal não teve pernas para andar. Outros casos foram de puro sadismo de ajustes de contas com a classe social que os homens do paigc, consideravam bem situada, altos funcionários, comerciantes, proprietarios, medicos, engenheiros, professores, intelectuais, entre outros, os quais, provavelmente, julgavam os novos senhores do mando, lhes faria frente no saber e no saber estar em
    em sociedade à época. Havia muita raiva do lado dos opressores, e muito medo dos que aqui viviam pacificamente, Alguns queriam ver sangue. Muita gente inocente foi vitima dos "maus figados" dos ditos, "melhores filhos".Foi uma altura de grande fuga para Portugal e para os Estados Unidos de cabo-verdianos que nunca antes haviam pensado emigrar. Foram tempos bem duros, de perseguições gratuitas e de pura ruindade da parte daqueles que se armaram em carrascos. Agora, uma coisa é certa, não tentem passar uma esponja por cima. À História o que é da História.
    E agora o caso do nosso Zito? Afinal de que foi ele acusado? Para ter sido tão ultajantemente tratado? Um cidadão correcto, trabalhador e amante da sua ilha e da família que aí constituiu? ... foi e permanecerá uma grande injustiça! Claro que haviam de inventar em comunicados, "inventonas" tais como pseudos anti-caboverdianismos e outras falsidades de igual quilate,desde que se discordasse do Partido único. Tudo isso justificativo do sistema ditatorial, que havia de ser então implantado nas ilhas recém independentes.

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    1. É isso mesmo Ondina, o meu pai foi brutalmente coagido a assinar uma nota de culpa, sem sequer saber o seu conteúdo e a igualmente assinar a ordem de expulsão, sem direito a uma cópia!!! Mas conforme compromisso, ainda hei-de adiantar mais alguns pormenores que ele me confessou...

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    1. Assino tudo o que escreve a ilustre filha de Cabo Verde Ondina Ferreira e lamento que seja uma das poucas pessoas com coragem para dizer as verdades.
      Espero ver ainda um Tribunal Popular para julgar os algozes.

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  3. Também assino por baixo o que a Ondina Ferreira escreveu

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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