sexta-feira, 16 de junho de 2017

[10028] - FINALMENTE A LUZ III

Os pseudo-burgueses e os pseudo-intelectuais

Os acontecimentos de 1977, desencadeados com a inverosímil justificação de prevenção de actos terroristas, tiveram como objectivo principal a intimidação de uma comunidade, que teve um papel decisivo no processo de independência e que é conhecida pela sua autonomia de opiniões e capacidade de influenciação do país.
No dia 8 de Junho, quatro dias depois das prisões, chega a Cabo Verde, Constantino Teixeira, Comissário de Estado de Segurança da Guiné Bissau. Em declarações à imprensa, diz que “filhos renegados da nossa terra têm urdido campanhas contra os nossos países através de panfletos subversivos”. Acrescenta que “no Mindelo e na cidade de Bissau foram detectados panfletos lançados por ex-informadores da PIDE ligados a traidores no estrangeiro” e que “essas tentativas de anti-africanos não parecem estar desligadas da estratégia geral do imperialismo para a desestabilização dos Estados progressistas africanos...”.
Uma nota de imprensa da Direcção Nacional de Segurança justifica as prisões da seguinte forma:
“Depois de confirmar a existência nas áreas de São Vicente e Porto Novo de contra-revolucionários, incluindo antigos informadores da PIDE-DGS, que mantêm estreitas relações com elementos anti-nacionais radicados no estrangeiro, a Direcção Nacional de Segurança e Ordem Pública, ordenou ao Agrupamento daquela  área a proceder ao desmantelamento do referido grupo. Das primeiras averiguações apurou-se que:
1 - Efectivamente todas as pessoas até ao momento detidas estão ligadas àquele grupo;
2 - O objectivo principal a que se propunham era a criação de um clima de insegurança interna e desprestígio do Governo no plano externo a fim de criar as condições propícias a uma intervenção do exterior, que tentaria destruir o actual regime político e travar o processo de transformação social em curso;
3 - Para levarem a cabo seu intento, tencionavam:
4 - Mobilizar a população através de panfletos de conteúdo calunioso e demagógico, que já  tinham começado a espalhar nas  áreas atrás mencionadas, e particularmente, nas frentes de trabalho em S.Vicente;
5 - instaurar um clima de instabilidade, para o que já tinham plano e material para a sabotagem de alguns pontos sensíveis, tais como a JAIDA, a Central Eléctrica, as Instalações de Telecomunicações, os quartéis, a Rádio Voz de S.Vicente, vias de comunicação em S.Antão, ao mesmo tempo que procederiam à liquidação física de alguns responsáveis do Partido e do Governo.
Neste momento prosseguem as averiguações com vista ao apuramento das responsabilidades. Mais se informa que, um dos detidos, furtando-se à vigilância dos guardas, evadiu-se e, ao ser localizado, saltou do terraço onde se encontrava tendo ficado gravemente ferido.”
Em 1977, o regime está  seguro, mas a presença de pessoas, ainda influentes no meio social, que em 74, não aceitaram o PAIGC e não se exilaram, deu-lhe o perfeito pretexto para aterrorizar toda uma camada social que ele via, por razões meramente ideológicas, com desconfiança. A consolidação do poder, pela neutralização do que considerava uma oposição embrionária, tinha em vista, também, não deixar flanco, quando o conflito latente com os jovens dirigentes se deflagrasse, o que viria a acontecer em 1979.
O Primeiro-ministro, Pedro Pires, por coincidência em visita oficial à ilha de São Vicente, aquando das prisões, referindo-se às pretensas acções dos “terroristas mindelenses”: ”Não chego a mesmo a perceber o que é que eles queriam, como é que eles pretendiam agir, mesmo que contassem com uma intervenção do exterior. Noutro aspecto penso que é preciso que se note que nós não queremos nem estamos a trabalhar para instaurar um regime burguês nem uma justiça burguesa. Vão ser tomadas todas as medidas para que os culpados sejam exemplarmente castigados; com certeza terão direito a defesa, com certeza, como cidadãos terão direito a se defenderem, a se explicarem... Mas ainda não se pode dizer que eles estejam presos, não se trata ainda de uma prisão. Eles estão detidos para averiguações...”.
Revelando a camada social visada com as prisões, o Primeiro-Ministro diz “...nessa fase da reforma, o colonialismo quis criar os seus agentes e a tendência é, de facto, criar uma certa burguesia nacional ou uma certa pseudo-intelectualidade nacional. Portanto é, entre esses pseudos, esses agentes, esses frutos do colonialismo, principalmente na fase podre do colonialismo, que vai procurar agentes, o bom africano que compreende e que não está  ligado aos terroristas...”. Os pseudo-burgueses eram os pequenos comerciantes de São Vicente, a certa pseudo-intelectualidade nacional também estava bem identificada: Baltasar Lopes da Silva, que chegou a ser interrogado, mas nunca detido. Sabemos hoje que foi a intervenção do então Presidente da República que evitou a prisão do claridoso. Aristides Pereira confessa que houve uma altura em que esteve tudo preparado para prender Baltasar Lopes da Silva e que foi ele quem pôs um travão a essa intenção, chamando Silvino da Luz para lhe dizer que “isso não podia ser”, anulando assim, por decisão própria, uma resolução que estava para ser tomada para esse dia ou para o dia seguinte. Ainda segundo as memórias do antigo Presidente, havia outros membros da direcção do partido, que não são identificados, que concordavam com o acto, porque acreditavam que Baltasar Lopes poderia estar envolvido com a UCID.

in "Expresso das Ilhas"

4 comentários:

  1. 1 -Texto muito importante para se perceber o maquiavelismo e a tentativa de diabolização, levados a cabo pelos senhores anti-democráticos - (oh! Como Mário Soares tinha razão, quando deles dizia, "...São nacionalistas sim, mas democratas não!") referia-se ele, aos então lideres das ex-colónias portuguesas) já instalados no poder. Só quem os não conheça, ou os não conhecesse para se deixar enganar por qualquer pseuda bondade da boca de algum deles.

    2 - Sobre Baltazar Lopes da Silve, bem quiseram "destruí-lo". aliás, tentativas não faltaram e isso, desde início da tomada de poder nas ilhas. Não faltaram comentários denegridores sobre essa incontornável personalidade da cultura cabo-verdiana, pela boca de dirigentes do paigc, então na ribalta da turbamulta. Agora, não foram tolos, não senhor, perceberam também, o carinho, a admiração e o respeito de que gozava Dr. Baltazar entre as gentes de Mindelo e não só, também nas restantes ilhas onde ele possuía admiradores, o que na linguagem hodierna e dos mais novos, se traduzia em autênticos "fãs" e que isso poder-lhes-ia ser embaraçoso, no seu projecto hegemónico, até a nível internacional e então, arrepiaram caminho. Vindo posteriormente a patrocinar as comemorações dos cinquenta anos da "Claridade." Menos mau. Sabiam que com Baltazar Lopes da Silva, era-lhes muito difícil ter algum "reconhecimento" (pela prática demonstrada que contrariou a aura heróica que traziam) ou "admiração" ou mesmo, alguma "submissão". Aliás, o diálogo de Baltazar era demasiado culto e profundo para o entendimento de muito deles. Talvez agora,(a idade e a sabedoria, tudo transforma) muitos já o tenham percebido como eminência cultural de relevo inquestionável, para se perceber e abordar a nossa cabo-verdianidade.
    Interessante, manda a verdade que seja dita, Amílcar Cabral tinha para os homens de Claridade, um verdadeiro e declarado culto admirativo. Aliás, em poesia A. C. foi em tudo, temas e conteúdos, imitador (no sentido renascentista do termo) discípulo e seguidor do enorme poeta, Jorge Barbosa.
    (Continua)

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  2. 3 - Ora bem, retomando o que o texto aqui nos narra, isso era a tal prática maquiavélica do dito paigc, um exemplo: na Guiné, sob unidade, (lembrar que o Secretário-Geral do paigc estava em e era de Cabo Verde) prendia-se por qualquer razão, um alto quadro, depois soltavam-no e, por vezes, convidavam-no para um alto cargo. Por um lado, castigavam e atemorizavam para futuras submissões e por outro lado, estendiam ao mesmo punido, quando dele precisavam um "envenenado rebuçado". E assim mostravam quem detinha o poder absoluto. Efeito dissuasor, pela violência.

    4 - Com que então "terroristas de Mindelo"? Sim senhor! a fama vem de longe! Agora, na hora actual, essa até faz rir, se na altura não tivesse sido verdadeiramente aterrorizador para quem disso fosse apodado. Infelizmente, como todos os de mais, também tive familiares e outros conhecidos, atormentados por isso.
    Bom, essa de "burguês" foi arma de arremesso que durante os primeiros anos da independência e, volta que não volta, lá estava a "amaldiçoada" categoria social, na definição deles)e inimiga (própria de marxistas tardios) frequentava o léxico revolucionário do PAIGC.

    Todos nós com memória ainda dos nefastos acontecimentos, em que as prisões e a culminar com a reforma agrária a que o meu pai, por graça, embora vítima disso, chamava de "afronta agrária." Afinal, mais não foi de que um ajuste de contas com a tal classe social da qual, depois em tudo, os novos senhores do mando, imitaram, ainda com mais conforto que o sinal dos tempos lhes prodigalizou.
    Mas, reitero, nada de passar qualquer esponja rósea sobre o período aqui tão bem descrito no texto ora lido. Tratou-se de um grupo que funcionou fechado sobre se próprio, e do qual qualquer ressalva ou excepção, de algum sujeito de topo do comando, é falsa, pois fazia parte da estratégia "salvar a honra do convento" quando [o grupo] queria recuar, deixar passar a dita pseuda-bondade, para um dos responsáveis. Muitas vezes ouvi ao longo do processo dizer, de boca de crédulos: "...se não fosse tal pessoa... tinha sido..." Nada mais falso, pois que urdiam em grupo e bem fechado, em uníssono. Nada, absolutamente nada, saía sem o carimbo do topo. De rumores a prisões arbritárias.
    Caro Paulo, faço votos de que o seu arquivo não esmoreça. A memória do nosso Zito merece essa continuidade.
    Abraços

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  3. Um grande comentário da Ondina Ferreira que com elegância faz uma caracterização da época e destes actores que muito de nós acarinhamos para depois desencantarmos amargamente, sobretudo os que sofreram na pele os desmandos do regime.
    Perante esta análise profunda e acertiva da Ondina tudo o que acrescentaria seria redundante.

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  4. Mano, o papá ficaria muito orgulhoso com estas publicações, que fazem parte da história de Cabo-Verde e infelizmente da nossa família também. Pois,foram todos estes tristes acontecimentos que nos obrigaram a deixar a nossa terra.
    Beijinhos e braças a todos os comentadores.

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