Páginas

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ERA UMA VEZ, ANGOLA - XIII...


A minha primeira noite em Cazombo foi o que se podia esperar pelo facto de, na realidade, nós estarmos, ali, numa espécie de oásis no meio da savana-floresta imensa que nos rodeava a perder da vista: uivos, guinchos, miados, latidos, batimento de asas de aves noctívagas tudo, amplificado não sei se pela falta de hábito se pela proximidade da bicharada que se passeava lá fora,  certamente posta em respeito pelos cães que guardavam as instalações e a fogueira, no centro do pátio, que ardeu toda a noite, projectando figuras fantasmagóricas nas paredes dos quartos...Dormi aos poucos, acordado vezes sem conta, por um ruído mais penetrante ou menos usual e foi com alívio que às seis da manhã corri para debaixo do duche frio mais para despertar do que para me lavar...Fresco que nem um alface (por pouco tempo, embora...), dirigi-me à sala, onde só estava o Heitor e lá cumpri o ritual que haveria de seguir todas as manhãs: em cima de uma mesa, havia umas três jarras térmicas com café e chá, várias chávenas e os expressivos cubos de açúcar. Era o chamado café-do-cigarro, mesmo para os que não fumavam o que, infelizmente, não era, na altura, o meu caso.
A hora do pequeno almoço, que em Angola se chamava (ou ainda chama) mata-bicho, seria servido lá para as 10 da manhã e, como é hábito nos climas exigentes consistiria de uma um prato de faca-e-garfo, vinho ou cerveja, café-com-leite (de cabra) pão com doce (nada de manteiga). O prato de substancia haveria de variar, como acabei por constatar, entre as salsichas de lata, os ovos (cozidos, estrelados, mexidos ou em omeletes), com batata doce frita, arroz de chouriço - que depois repetiríamos ao almoço com uma salada - pequenos bifes de caça ou até, imaginem, uma canja de pato, bem espessa à custa de muito arroz e cega de tão pouco azeite...Era sabido que, ao almoço, íamos comer pato corado (depois de cozido...) num forno de tijolo-burro meio artesanal.  Para acompanhar, um bom funge de farinha de mandioca, base da alimentação dos Luenas e outros povos da região...Levei algum tempo a habituar-me ao sabor...
Depois do mata-bicho apareceu o Padre Dâmaso que, pelos vistos, tinha simpatizado comigo - como eu tinha, de resto, simpatizado com ele. Vinha na sua mota com side-car buscar-me para me levar a visitar a Missão Católica de Cazombo e Ponte Carmona, sobre o Rio Zambeze, de onde ele costumava atirar aos "cavalos marinhos", nome que por ali davam aos hipopótamos mas, isso, será uma outra história...
Continua...

Sem comentários:

Enviar um comentário