quinta-feira, 3 de julho de 2014

[7113] - S.VICENTE - EVOLUÇÃO SOCIAL - (4)

                          Escotismo -2 Os Falcões
No ano de 1930, surgiu em Cabo Verde um movimento que ocupou um espaço impar na memória da população do Mindelo: os Falcões, segundo M.G. Reis (5 Ag. 1933, p.2), o objectivo de tal iniciativa era contribuir para o “levantamento da raça cabo-verdiana…É uma obra que deve ser coadjuvada pelos bons cabo-verdianos e pelo Estado …” os resultados far-se-ão sentir: uma nação de espírito levantado, com moral e forte disciplina admirável”. De acordo com o informativo oficial do grupo, seu intuito central mesmo – por meio da articulação entre educação moral, educação cívica e educação física – contribuir para que os jovens se envolvessem com a resolução dos problemas com a construção de uma colonia forte. (Noticiário, Jan. 1936, p.1).
Em seu livro de memórias, Ramos (2003) relembra com entusiasmo da instituição que, para ele, “ deu grande contributo na formação sociocultural da juventude de Cabo Verde” (p.16). De acordo com o autor, os Falcões teriam conseguido:
Formar uma grande e unida família cabo-verdiana, afastando do seu seio a maldade, a corrupção, enfim, todos factores primordiais da decadência física, moral e intelectual de um povo e constituindo um bloco consistente e indissolúvel, com uma mentalidade livre das misérias horripilantes do século presente (p.53).
Os falcões de cabo Verde seguiam as diretrizes dos Sokols, uma sociedade fundada por Jindrich Fuegner e Moroslav Tyrs, em 1882, em Praga. O movimento surgiu como estratégia de afirmação da cultura checa em um momento em que o país vivia sob influência do Império austríaco. Com denotado carácter nacionalista e paramilitar, propugnava a ginástica como principal ferramenta de preparação de uma juventude sadia, apta para a condução do país em direcção a um futuro mais permissor.
…” Núcleos dos Sockois foram instalados em diversos países, notadamente naqueles que encaravam o desafio de consolidar identidades nacionais e a ideia da nação, como a Iugoslávia, a Polónia e os EUA, onde o movimento se difundiu rapidamente e sobrevive até os dias de hoje. Cabe destacar que alguns grupos também se estabeleceram em localidades nas quais havia movimentos nativistas, como na Eslovénia na Galícia e na Catalunha, onde com a história e a cultura local, adotaram, em menor ou maior grau, a causa da independência.
O movimento também teve repercussões em Portugal, Gomes santos (director do Núcleo de Propaganda Educativa do Governo de Salazar), Armando Aguiar (jornalista do Diário de Notícias) e o general Ferreira Martins (herói português da Primeira Guerra Mundial e membro do Conselho Superior do Exército) chegaram a ir a Praga, em 1932, para acompanhar as actividades de um congresso da sociedade e fazer informes sobre seus congéneres no país da península Ibérica (Hanákova, 2006)
Para Jan Klima (2006, p.59), no arquipélago, o movimento implantou-se de forma independente e ainda mais forte do que na metrópole: “ Durante sete anos, a colónia portuguesa Cabo Verde foi provavelmente o segundo mais importante local (depois da Checoslováquia) ligado ao movimento Sokol.
Contudo, no modo de entender, Klima comete alguns equívocos em sua análise que precisam ser examinados. Para ele, uma das razões do sucesso dos Falcões no arquipélago teria sido a “monótona e pouco inspirada vida dos cabo-verdianos” (2006.p.61). Ao contrário, argumento que sua popularidade, especialmente em Mindelo, teve a ver com o facto de a cidade já possuir tanto uma considerável vida festiva quanto uma antiga tradição de valorização da prática de actividades físicas.
Klima (2006,p.61) afirma ainda que o movimento significou “um esforço preliminar para a emancipação política de Cabo Verde – sentido igual ao que esses elementos tiveram na Bohemia depois da Primeira Guerra”. Havia, sim, na colónia reivindicações de maior respeito e cuidado por parte da metrópole, o que significava, em certa medida, a solicitação de maior autonomia para as decisões locais. Não creio, todavia, que seja possível considerar tais esforços busca de emancipação política, algo que somente se tornou mais explícito às vésperas da independência, como afirma Anjos (2006.p.72): “A independência de Cabo Verde em 5 de Julho de 1975, realizou um objectivo que alguns anos antes só residia na imaginação de relativamente poucos cabo-verdianos”.
Assim, parece-me que Klima realizou uma análise apressada da acção dos Falcões. Seus membros investiam, sim, na glorificação de Cabo Verde, mas não com intuitos autonomistas. Parecem antes mais ligados á linha majoritária de construção identitária cabo-verdiana naquele momento: convencer Portugal e a própria população local de que o arquipélago, dado o seu grau de civilização, fazia efectivamente parte e contribuía para a glória do Império português.
Os Falcões cabo-verdianos, jamais se alinharam a iniciativas independentistas. Sua linha de posicionamento fica clara no primeiro número do boletim da entendida:
-- Somos indiferentes a politiquices de cada um e só nos interessa tratar de assuntos que redundem benefícios de Cabo Verde, de uma maneira geral. Não maçaremos nossos sensatos, substanciosos, de proveito fastidiosas, prosas inúteis ou conversa fiada, mas sim assuntos sensatos, substanciosos, de proveito geral para os Falcões (Noticiário), Jan. 1939, p.2.
Se no decorrer de sua existência houve alguma indisposição com o governo metropolitano, isso se deveu ao enfoque da contribuição para a resolução dos problemas dos problemas locais. O discurso do movimento tinha sim algo de reformador, de enfrentamento de certos costumes julgados atrasados, mas o diálogo se dava antes localmente do que de facto com a metrópole:
-- Na Checoslováquia, são os velhos doutores em lei e medicina, cientistas, fisiologistas, que superiormente dirigem os destinos do Sokol. Em Cabo Verde, são os nossos, os pequenos, os sem curso, debaixo do repugnante e vergonhoso indiferentismo dos velhos? Responda o leitor. (Noticiário), Jan. 1936,p.3).
Continua
In: U. Rio de janeiro / Estudos Sociais
Pesquisa de A.Mendes

1 comentário:

  1. Bom trabalho de pesquisa e síntese conclusiva. É importante relembrar sempre o que foram os Sokols em Cabo Verde, sobretudo numa altura em que se faz tábua rasa de valores essenciais e a nossa juventude corre mais atrás de excitações epidérmicas do que daquilo que forma e fortalece o corpo e o espírito.
    O fundador deste organização merecia uma estátua em S. Vicente. É por demais grandioso e extraordinário o que ele conseguiu realizar. Pena é o salazarismo ter determinado a sua extinção com a criação da Mociadde Portuguesa. E no entanto os Sokols não tinham qualquer motivação política. Fez bem o autor ao esclarecer que eles não tiveram absolutamente nada a ver com a futura emancipação política do território, porque de facto os seus objectivos eram puramente de ordem cívica e formativa.

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