segunda-feira, 7 de julho de 2014

[7134] - S.VICENTE - EVOLUÇÃO SOCIA (6)...

                                    A Extinção dos Falcões

Podemos levantar alguns motivos para tentar entender a extinção dos Falcões. Pode ser que a metrópole se estivesse  precavendo em função da força do movimento; conhecendo a sua matriz nacionalista, pode ter temido alguma iniciativa separatista, medo em grande medida infundado, mas compreensível dada a característica autoritária do regime português. Tais temores cresceriam no pós – Segunda Guerra Mundial, quando eclodiram contestações à sua existência, tanto internas (ainda que, a princípio tímidas) quanto externas, advindas das novas instituições internacionais e das colónias, que entrariam em conflito assumido na década de 1960, quando têm início as guerras coloniais na Guiné, em Angola e em Moçambique.
Nesse momento, aliás, com a descoberta de que alguns clubes eram focos de organização de actividades de contestação (na Guiné, em Angola e Moçambique), a metrópole percebeu que o desporto não era assim tão alheio à política e ampliou as iniciativas de controlo sobre as agremiações desportivas das suas colónias (Bittencourt, 1999)
Vale assinalar que muitos dos Falcões demonstraram, em diferentes oportunidades, senso de liderança, Júlio Bento de Oliveira desempenhou um relevante papel politico na Câmara de S. Vicente. Manuel Rodrigues, um dos líderes do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) na clandestinidade, também declarou que o seu envolvimento com a política teve relação com seu aprendizado com os Falcões (citado em Lopes, 2002). Luís Rendall , que mais tarde tornou-se administrador da ilha, foi um dos envolvidos. Baltazar Lopes e outros importantes intelectuais cabo-verdianos demonstraram simpatia pelos Falcões. Mas isso seria suficiente para criar algum temor na metrópole?
Dois acontecimentos permitem perceber melhor a postura dos Falcões. Em 1934, por ocasião de uma crise de abastecimento, um grande número de mindelenses, liderados por Nhô Ambrósio (personagem celebrizado pela literatura local), saqueou os armazéns da alfândega. Segundo Stendall (citado em Lopes,2002), o movimento foi convocado pelo governo para ajudar a conter a turba. Sua direção, contudo, negou apoio, argumentando que o grupo não se envolveria em questões políticas. Todavia, quando houve uma crise desencadeada pela extinção do Liceu Infante D. Henrique (1937), os Falcões estiveram entre aqueles que se mobilizaram para reivindicar a sua abertura (obtida com a criação do Liceu Gil Eanes).
O governo metropolitano, de cariz autoritário, pode ter interpretado tais acções como negativas de alinhamento incondicional (o que era, de facto, verdadeiro). Isso os tornaria suspeitos perigosos.
No mínimo, havia, disposição de acabar com um concorrente da Mocidade Portuguesa. Foram igualmente extintos os grupos escoteiros das colónias, e por pouco não foram também os da metrópole, que ainda assim encontraram dificuldades para se manter. Chegava ao fim a trajetória dos Falcões, embora  jamais se tenham apagado da memória de muitos cabo-verdianos.
Continua
In: U. Rio de Janeiro – Estudos Sociais
Pesquisa de A.Mendes




1 comentário:

  1. Vale a pena ler o que Teixeira de Sousa recria sobre os Sokols no seu romance "Capitães de Mar e Terra". É interessante o diálogo entre o comandante dos Sokols e o capitão do exército que o abordou e lhe sugeriu a substituição da associação pela Mocidade Portuguesa.

    ResponderEliminar