sexta-feira, 25 de julho de 2014

[7223] - CABO VERDE - RECORDANDO GENTE GRANDE...

Luís Romano de Madeira Melo – Luís Romano -- 1922 – 2010.
…“ Com a idade de 88 anos faleceu em Natal – Brasil, o escritor cabo-verdiano Luís Romano, colaborador da revista LATITUDES, figura incontornável da história da emigração e da literatura cabo-verdianas. Nasceu a 6 de Outubro de 1922, numa família judaico-cristã, na Ponta do Sol, ilha de Santo Antão, em Cabo Verde onde, desde a infância, recebeu do seio familiar a influência dos grandes escritores portugueses e franceses. Viveu o período das secas e das fomes, nos anos quarenta, entre as ilhas de Santo Antão e São Nicolau, donde extrai a essência do seu romance FAMINTOS. Trabalhou ainda na ilha do Sal como técnico salineiro, profissão que viria abraçar nas suas viagens no litoral africano.
DAS ORIGENS
…” A Vila de Ponta do Sol em Santo Antão, com o seu mar bravo na Boca de Pistola e seus marinheiros valentes, foi um centro económico e cultural importante na ilha nos fins do século XIX até meados do século XX. Com a sua pequena burguesia de origem judaico-cristã oriunda de Gibraltar (Espanha) e Tânger (Marrocos), conservou a sua tradição religiosa, testemunhando os dois cemitérios judaicos essa presença cultural e religiosa. O seu pai, Rafael Nobre de Melo, foi funcionário municipal na Ponta do Sol e, durante um certo período foi emigrante nos Estados Unidos, mas sempre ligado à Imprensa caboverdiana, tendo sido representante do jornal Voz de Cabo Verde em Massachusetts. Luís Romano era também primo de Martinho Nobre de Melo, jurista, poeta e escritor. Embaixador de Portugal no Brasil, mas com pouca intervenção na vida política caboverdiana e que fora aluno do poeta José Lopes, na Ponta do Sol. Tanto Luís Romano como o irmão Teobaldo Virgínio, filhos da pequena burguesia letrada e possuidora de algumas terras agrícolas, são antes de tudo verdadeiros autodidactas, cujos pais, devido às crises agrícolas não possuíam meios para se fixarem em São Vicente ou em Portugal onde os filhos pudessem prosseguir os seus estudos. Tem também uma irmã, escritora, a Rosa Nery Sttau Monteiro, que vive em Portugal.
A crise económica e a crise das secas que se vivia em Cabo Verde nos anos quarenta somente poderiam encontrar uma solução provisória na emigração. Mas a emigração para a América estava encerrada desde 1924. As travessias oceânicas clandestinas para atingir a América nos nossos pequenos veleiros, que insistiam em conquistar esse continente à procura de novos espaços económicos e culturais, tornaram-se raros e muitas vezes só aceitavam passageiros que lá tivessem familiares que pudessem pagar os custos da viagem. Como dizia o poeta Jorge Barbosa, a América tinha fechado as portas à nossa expansão, estabelecendo quotas de emigrantes por cada país.
O CAMINHO DE DAKAR
Face à impossibilidade de emigrar para a América, Luís Romano, como um antigo lançado, volta-se para a costa africana a mais próxima de Dakar no Senegal, onde começou uma existência no mundo francófono, seguindo depois para o norte de África e mais tarde para a Europa. Um verdadeiro emigrante, no verdadeiro sentido do termo, homem que não escolhe profissão para  assumir as suas próprias responsabilidades materiais e culturais, sempre pensando na sua participação nas transformações políticas e económicas necessárias para um outro Cabo Verde, Livre e Independente.
…” Com o romance Famintos debaixo do braço, numa verdadeira peregrinação, Luís Romano viaja pelo interior do Senegal e vai à Mauritânia, Marrocos, onde trabalha como técnico salineiro e, mais tarde, emigra para França, onde faz estudos de engenharia mecânica e obtém a nacionalidade francesa.
…” Refugia-se no Brasil até à data do seu falecimento “
Dois poemas de sua autoria:
VIDA
A crioula que meus olhos beijaram a medo
perdeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma canção extraordinária.
Não foi um romance de amornem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia um agradável devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a vida separando Nós – Dois
a confusão, os ruídos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioulo que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
SIMBOLO
O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.
Navio berço menino crioulo
navio – guia que ficou sem ir
“ navio idêntico ao navio da nossa derrota parada”.
In: Instituto José Maciel / Olímpio Maciel / Brasil
Pesquisa de A.Mendes

4 comentários:

  1. É mais uma figura das letras cabo-verdianas merecedora de grande apreço mas creio que não ainda objecto de suficiente respaldo crítico. A verdade é que a sua obra é de particular veemência na denúncia do abandono a que foi votado o povo das nossas ilhas pelas administrações coloniais.

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  2. Estou de acordo.
    Só que mal parece ser endémico... hoje, por exemplo, S. Vicente, é vitima das mesmas consequências** trágicas do ostracismo do "colonialismo" da "metrópole" S. Tiago!

    *** Abandono, desemprego crónico e dizem : -- bolsas de fome!

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  3. Tem razão o amendes. Aliás, este é um tema que, se profundamente abordado, levar-nos-ia a conclusões bem severas e talvez incómodas para os que da História preferem uma visão mais plácida do que científica. Ao evocarmos a pobreza "endémica" das ilhas cabo-verdianas e quisermos apontar culpados, não podemos deixar de lembrar que muitas populações do interior de Portugal viveram no passado em situação pouco melhor. Se Portugal não soube colonizar também não foi um administrador capaz da sua própria casa de nascença.
    Um irmão meu, numa visão bastante drástica, diz que a atitude mais acertada seria despovoar as nossas ilhas e transferir as populações para territórios onde mão falta pelo menos a chuva. Claro que não partilho semelhante opinião. A História é um compêndio da aventura humana pelas paragens da terra. A humanização dos territórios não pode aferir-se apenas pela bitola dos meios de vida encontrados ou criados. O homem pode afeiçoar-se a uma terra mesmo que nela a natureza não seja pródiga. É o que se passou e passa com as nossas ilhas. À sua maneira, Portugal e os cabo-verdianos fizeram História nas ilhas. E a História não se pode apagar nem pode ser vista em parcelas selectivas.

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  4. Em Israel, por exemplo, nascem no deserto das melhores laranjas do mundo: as Jafa!!!

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