quarta-feira, 8 de outubro de 2014

[7503] - MINDELO: ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE (2)...


O crescimento da cidade
Um porto carvoeiro obriga à construção de armazéns, cais de embarque e desembarque, guindastes, lanchas, carris e vagonetas para transporte, carga e descarga do carvão. A presença permanente de militares torna-se necessária e por isso a construção em 1852 de um forte sobranceiro à baía, o Fortim d’El-Rei. Em 1855 um visitante americano diz que Mindelo não passa ainda de uma “colecção de pequenas cabanas de pedra circundada de colinas e ribeiras que são os próprios símbolos da pobreza”4, mas por Decreto Régio de 29 de Abril de 1858 foi elevada à categoria de vila. Nessa altura tinha 1400 habitantes e era constituída por 4 ruas, 4 travessas, 2 largos e 170 habitações que, de acordo com Travassos Valdez eram “na máxima parte abarracados, construídos de adobes e cobertos de telhas de pau ou de palha” sem “as condições de segurança e salubridade indispensáveis.”5
A partir de então começam a ser construídos os edifícios mais importantes ligados à administração, como a Alfândega, o novo quartel, o Palácio do Governo e os Paços do Concelho. A Igreja, cuja construção tinha começado no fim da década de quarenta com a construção da capela-mor, só termina em 1863.

Instalações carvoeiras inglesas . c. 1864


Em 1879 já com uma praça, 5 largos, 27 ruas, 11 travessas, 1 beco e dois pátios, iluminados por 100 candeeiros de petróleo, Mindelo com 3717 habitantes é elevada à categoria de cidade. O Decreto Régio de 14 de Abril refere como motivos para tal, os melhoramentos realizados, o desenvolvimento do comércio, o aumento da população e a importante posição geográfica que provoca grande movimento de navios no porto. O comércio tinha-se de facto desenvolvido. Havia três importantes lojas de fazendas, mercearias e bebidas e cerca de 30 lojas de venda a retalho, para além de um número significativo de tabernas e botequins. Em termos sanitários a situação também melhorara devido à construção de uma ponte-cais de madeira para fazer despejos, despejos esses, até então, feitos de qualquer maneira, na praia frente ao centro da cidade.
Contudo as habitações dos trabalhadores braçais, eram insalubres e a população mais pobre tinha pouco acesso a água potável, além de que havia zonas da cidade, como a zona de Salina, favorável ao desenvolvimento do paludismo. Até final do séc. XIX, para além da tuberculose e da sífilis as gastero-enterites, diarreias, epidemias (principalmente varíola) e febres palustres ou de mau carácter como se dizia na época, eram uma constante. No início do século XX foram introduzidas medidas relativamente à construção de edifícios, criação e venda de animais, construção de aterros e desvio de águas em zonas húmidas ou pantanosas, construção de lazareto e novo hospital e captação de águas.
O abastecimento de água à população e aos navios, foi sempre um dos maiores problemas de Mindelo, pois os poços próximos da cidade tinham pouca água ou água salobra. A população abastecia-se também de água vinda de Stº Antão ou comprada às companhias inglesas que a filtravam e destilavam. De acordo com o Relatório de Joaquim Vieira Botelho da Costa “Os habitantes mais abastados, e destes nem todos, usam para beber da água do Lameirão e da Areia Branca, ou da destilada dos depósitos das casas Millers & Nephew e Cory Brothers & Company. A água para os navios é fornecida por esses mesmos depósitos, e por uma cisterna e um poço que a primeira casa possui”6. A situação só melhorou em 1886 com a canalização da água de duas nascentes próximas da cidade, mas continuou a ser necessário trazer água de Stº Antão. Só muito mais tarde, em 1969, com a construção de uma central de dessalinização da água e de uma rede de distribuição, foi possível atenuar este velho problema.
Apesar do enorme movimento de navios, construção de edifícios públicos e outros melhoramentos, em 1905, o Governador Barjona de Freitas afirma que Mindelo não é uma cidade atraente para os passageiros em trânsito, que aqui passam algumas horas, pois “nem botes limpos, bem pintados e com toldos que abriguem do sol, nem um bom restaurante na cidade, nem passeios organizados: nada”7. Alguns anos depois, em conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa, Alfredo da Costa e Andrade reforça esta impressão dizendo que, se os visitantes que por aqui passam em trânsito não desembarcam, é por absoluta falta de comodidades.
Mas a cidade cresce, deixa de ser contabilizada pelo número de ruas e moderniza-se. Na década de 20 dá-se início à instalação de telefones em edifícios e casas particulares e começa a circular um número significativo de automóveis que obriga à regulação do seu movimento e à proibição de circulação a velocidade superior a 12 km/hora. No final da década é inaugurada a luz eléctrica. É o progresso que chega em alta velocidade.
Do início dos anos vinte a finais da década de trinta é construída a Capitania, o quartel é modificado para albergar o Liceu, e o Palácio do Governo e Mercado da Rua de Lisboa são remodelados e ganham um 1º piso. É construída a nova ponte-cais da Alfândega e começam as obras da estrada marginal. O centro da cidade terá então adquirido o aspecto que tem actualmente.
Apesar de todo este crescimento, em Boletim Sanitário de 1926, afirma-se que Mindelo “está sendo uma cidade com população a mais, vivendo miseravelmente Dia a dia para ali converge gente ida das outras ilhas, sem recursos, à procura de trabalho que não encontra e que só serve para complicar ainda mais a péssima situação geral sanitária e higiénica”8.
Dois anos depois, um artigo escrito pelo antigo cônsul dos EUA, num jornal de New Bedford, provoca fortes reacções em Mindelo, tendo até a Câmara deliberado enviar uma carta de reclamação, pois nesse artigo, as referências negativas à beleza e condições sanitárias da cidade de Mindelo, foram consideradas exageradas e pouco verdadeiras. Contudo os viajantes não levam uma boa imagem da cidade. O francês J. Boisse de Black que por aqui passou neste período, mostra-se impressionado com a paisagem estéril e desolada da ilha e depois de um desembarque feito no meio de enorme barafunda, com os passageiros atormentados por uma chusma de mulatos, pedindo dinheiro ou oferecendo-se como guias, faz uma descrição pouco entusiasta da cidade: “Un soleil pesant accable la ville, tous volets des banques et magasins fermés de douze à catorze heures. Des docks de charbon bordent le rivage… À quelques centaines de mètres du rivage cette ville de 12 000 habitants arrête ses dernières maisons et tout de suite est le roc nu, le sable qu’arrache le vent pour le jeter cinglant sur les murailles, tandis que les passants tombent le corps pour ne pas être renversés.”9.

Continua...

2 comentários:

  1. Só quem prefere iludir-se é que não reconhece inteira verdade nos relatos do cônsul americano e do francês. Pois, Mindelo seria então pouquíssimo atraente, se não mesmo detestável ao primeiro olhar, para o viajante que chegava de outros quadrantes civilizacionais. O que mais deveria espantar seria a desproporção entre a dinâmica industrial de um grande porto carvoeiro e a pequenez sórdida da urbe que o encaixava como uma concha. Um paradoxo incompreensível para quem cai de repente na ilha e pouco tempo tem para descobrir o que poderá jazer por baixo da superfície áspera das coisas. A secura da paisagem, o pó esvoaçante do carvão, as moscas, os pedintes irrequietos, tudo isso certamente que não abonaria como cartaz de visita, mormente se o viajante não tinha o ensejo de ficar para depois do sol poente, em que a noite depositava o seu manto aveludado e convidava a descobrir a sedução natural de uma comunidade que entrava na vertigem do mundo.

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  2. Porque, afinal, Historia é isso mesmo - a verdade sem hipocrisias e sem as tintas do interesse ideológico...Porfque é abissal, o fosso que separa o Historiador Cientista do contador de histórias ao gosto do poder instalado...

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