domingo, 26 de outubro de 2014

[7568] - O PASSADO MORREU...

Começou a ser distribuída, gratuitamente, a Revista "Vozes das Ilhas" (revista da Reforma do Estado), numa edição especial. Contém os pronunciamentos de personalidades cabo-verdianas dos mais diversos meridianos do pensamento político incluindo, evidentemente, um do próprio Primeiro Ministro de Cabo Verde...
Deste, respingamos um parágrafo que nos merece algumas reflexões:

"(...) você não pode analisar o passado, (...) com os dados de hoje. Houve erros e excessos, sim (...)mas desses momentos revolucionários em que todos estavam juntos, você não pode vir depois responsabilizar este ou aquele, deixando os outros de fora."

É claro, senhor Primeiro Ministro, que o passado não deve ser analisado à luz de contextos políticos e sócio-económicos diferentes dos vigentes à época, mas todos nós sabemos que, quando convém, ir buscar ao passado "bodes expiatórios" para justificar as nossas incapacidades actuais, não se hesita um momento em fazê-lo! Mas também achamos que os erros e excessos de um passado bem recente não devem ter o mesmo tratamento que o mau pagador recomenda: as contas velhas, não se pagam e, as recentes, deixam-se envelhecer!
Não sabemos se, ao tempo dos exageros (!?) que reconhece estavam, efectivamente, "todos juntos", até ao mais alto nível mas, a ser isso verdade, como também afirma, então muito mais grave a situação se apresenta, pois assume o estatuto de uma espécie de "solução final",  como alínea de uma estratégia política programática dimanada do poder partidário e estatal...
Não há por onde escapar e, se estavam "todos juntos" então, todos são culpados e, por muito que, pela via dialéctica ou pela via política, se pretenda minimizar a dimensão dos trágicos acontecimentos do verão quente de 1977, a História, decerto, não o fará!

16 comentários:

  1. "(...) você não pode analisar o passado, (...)".
    . (O culpado tenta não ser julgado)

    A nossa situação não é senão o efeito dos desatinos - cometidos com tanta naturalidade - pelo PM. E foram tantos que não passarão despercebidos nem para um vulgar "catchorre di dôs pé" que vem sofrendo das suas injustiças por ter nascido fora da ilha/capital, feudo de quem prometeu ser dirigente de todos para todos. Conversa de dirigente de uma terra onde uns são Alguns e outros que a cada dia vão perndendo um pouco da sua dignidade.
    Então, para não ser julgado JMN tenta propagar "você não pode analisar o passado".

    Anete Vital

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  2. Bom temos na pessoa do Zito uma vítima dos erros cometidos no período revolucionário (1974/77) que não concorda, e com toda razão, com o passar da esponja de JMN, pois todos sabíamos que havia alternativas aos desmando que se cometeram de forma intencional, era o sentido da história, e actos ilegais cometidos no quadro de uma 'moral revolucionária e de massas' continuam ilegais. É claro muita gente esteve envolvida nesses actos, mas é falso que foi toda a gente. Embora jovem na altura 13/14 e tenha sido adepto do Paigc, nunca violentei a mais leve mosca caboverdiana e com o eu há dezena de milhares de pessoas cuja consciência e o amor ao próximo impediriam actos radicais. Mas todos sabíamos que algo anormal se passava,estava-se a remoer algo ruim em Cabo Verde, que o regime entrava numa derrapagem radical e muita culpa poderá ser atribuída a jovens radicais impreparados psicologicamente para assumir qualquer forma de poder. O que se passou depois de 1981 com a saída dos ditos trotskistas e a deriva leninista do poder terá mais a ver cm o próprio Paigc/cv onde lideravam os ex-combatentes da Guiné, já com uma base forte de locais que não estavam associados aos grupos dissidentes.

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  3. Concordo com a réplica (editorial) às afirmações do PM de Cabo Verde. O passado a que ele se refere tem de ser analisado convenientemente porque pode até conter ingredientes de um verdadeiro case study. E o que mais interesse suscita é saber como foi possível um desvario colectivo quando pouco ou nada o fazia esperar num povo calmo, manso e cordato por natureza. Depois, há necessidade de saber se a inoculação de verdades únicas em mentes virgens e em momento tumultuoso não liquidou outras e legítimas opções. Esta dúvida é tanto mais legítima quanto se sabe que as “verdades únicas” não foram arrumadas na gaveta por livre vontade dos seus mentores mas sim pelos ventos da História.
    Portanto, analisar o passado não exige sequer o recurso a referenciais da actualidade, porque mais importante do que julgar pessoas é tentar perceber se à factualidade conjuntural não subjaz uma realidade que precisa ser estudada profundamente e não com o escopo da ligeireza com que muitos o fazem.

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  4. Este senhor desconhece a história 'revolucionária' de Cabo Verde pelo não pode falar do que não sabe, pois nesta altura tudo se passava em S. Vicente, a ilha que reflectia o pulsar de Cabo Verde, e onde os destinos, pelo bem e pelo mal, se decidiam. Santiago era algumas ruas do plateau da Praia, o resto da ilha, do ponto de vista social cultural e político, toda a gente sabe o que era.Mesmo assim os desacatos que se iniciaram em S. Vicente em 1974 espalharam por todo Cabo Verde. A verdadeira oposição ao regime nascente formou-se em S. Vicente, daí que as principais vítimas do regime se concentraram nesta ilha. Para a paz do regime nascente a ilha devia ser castigada pelo seu passado e pacificada a todo custo. É por esta e outras razões que S. Vicente se encontra neste estado comático para a felicidade dos seus rancorosos detractores.

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  5. Será que se trata de descupas de "mau pagador"? Não terá sido uma boa ocasião em que mais valia ter ficado calado? Afinal com essa má explicação ou testemunho e mais, acrescido de alguma pretensão histórica, o entrevistado com o seu pronunuciamento, piorou a questão. Ao invés de a esclarecer. Afinal? a História, ainda por cima para nós recente, não deve ser registada e julgada? Eles então que até com o "colonialismo," note-se: acontecido antes disso - antes daquilo de que o nosso Zito foi vítima - aproveitam-na sempre (quando lhes convém recordar). Esses senhores são uns espantos! E tornam-se deveras engraçados! Se calhar, a nossa História tem de ser narrada e contada, obrigatoriamente, à moda e à maneira deles. Era o que nos faltava! Não queriam mais nada?
    Felizmente que alguns escritores já se anteciparam e estão a fazê-la (a narrá-la) em lugar dos historiadores. Embora sob capa de ficção, há verdadeiros romances históricos sobre essa época de algum terror dito revolucionário e de Partido único.

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  6. Se JMN fosse o "politico" que ele pretender ser, não teria manifestado o desejo de "matar o passado". Pelo menos tem satisfações a dar à maior parte das ilhas que deixou ao abandono enquanto ia investindo desabridamente na sua ilha/capital que está a arrebentar-se pelas costuras. Não preconizo a selvajaria vista na Líbia, na Tunísia ou no Egipto; muitos querem fazer perguntas aos sucessivos Governos desses 40 anos, nomeadamente a ele.

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  7. O José Lopes era na altura um adolescente mas viu-se, como outros, na crista de uma onda criada pela própria irreverência mindelense que, à distância, recebia os ecos do que se passava nas ruas de Lisboa. A meu ver, essa onda foi como um flash que se disparou na consciência dos mindelenses, que se julgaram, e com razão, na senda de gente mais velha e ajuizada como o Baltasar Lopes e os seus correlegionários claridosos. Só que a limpidez das exaltações momentâneas nada tinha a ver com as frias congeminações que outros faziam à distância. E assim a ingenuidade dos nossos jovens liceais e da gente adulta pouco esclarecida não percebeu a distância que ia do eflúvio emocional das pessoas comuns aos planos dos que se julgavam donos do destino dos cabo-verdianos. E foi desta maneira que, enquanto os portugueses na Metrópole acabaram por escolher o que queriam e recusar o que não queriam, os cabo-verdianos se viram repentinamente sob a canga de um partido único. Sem apelo nem agravo e sem ninguém de fora que lhes desse uma mãozinha.
    No fundo, a gente do Mindelo pensava, na sua ingenuidade, que se manifestava pelo direito a uma livre escolha do seu destino, mas tanto bastou para lançar a ponte e abrir caminho para compromissos que lhe eram estranhos. E agora S. Vicente está pagar o amargo preço da sua ingenuidade de ter sido cabeça de ponte para outros.
    É todo este passado que tem de ser analisado até às entranhas, e urge fazer uma mea culpa de que poucos se poderão livrar. A História vai ter ser contada com letra de verdade.

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  8. Assim se pode concluir Adriano que o passado não poder ser escondido com toda a ligeireza debaixo do tapete. Em boa hora veio o Zito lembrar que se o passado morrer, da maneira como pretendem, para criar um outro que só conta o que é politicamente correcto, e o que interessa (para provar que eles mesmos sempre estiveram na crista da História e que são os seus fieis portadores , e os outros perdedores que nem poeira do passado somos hoje), somos nós mesmo que perdemos o elo do passado, não podendo mais perspectivar o futuro. É o que eles querem!

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  9. Caro José F. Lopes

    Estou totalmente de acordo com este seu último comentário. Parabéns .
    Mantenha

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  10. Registo que, poucas horas após a sua publicação, este editorial já mereceu 12 comentários e mais de 40 visualizações o que dá conta do interesse que este assunto merece, em contradição com a vontade de "esquecer" do senhor PM...Já ouvimos, mais do que uma vez apelidar este assunto como um "case study" mas creio que ainda ninguém pegou o touro pelos cornos, como sói dizer-se! Seria conveniente que um estudioso honesto e responsável, dos muitos que a gente conhece, pegasse nesta matéria com verdadeiro sentido histórico, ENQUANTO EXISTEM SOBREVIVENTES VIVOS...Ñão que eu, pessoalmente, esteja à espera de uma qualquer indemnização - nem do custo do bilhete de avião S.Vicente/Lisboa, que paguei do meu bolso - mas porque os mortos, os vivos e os seus descendentes, merecem o veredicto da História, que os inocenteie de crimes alheios pelos quais foram condenados à revelia da lei e debaixo de tortura e ameaças retaliatórias sobre pais, filhos e esposas, ao melhor estilo de qualquer Mafia....O carrasco Pina, ex-oficial do exército português, empunhando uma Luger de 9 mm, com bala na câmara, costumava dizer: "Nós aprendemos muito com a Pide e refinámos alguns dos seus métodos..." Anos mais tarde, ouvi contar que havia perdido a visão num acidente de automóvel a caminho da Baia-das-Gatas...Não foi Deus, decerto, que o castigou! Nunca assisti, nem ante nem depois, a tanto desprezo pela dignidade do ser humano!

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  11. Acrescento:

    Escondem evocam o passado quando lhes dá jeito e convêm, como por exemplo, ocultarem que a Colonia Penal do Tarrafal, teve mais "hospedes" no pós independência do que no período da dependência colonial...Só isto devia-os fazer corar de vergonha!

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  12. Creio ser chegado o momento de trazer para a luz do dia este trecho negro da História de Cabo-Verde.
    É chegado o tempo de colocar de uma vez por todas a verdade nos livros, responsabilizando quem é de responsabilizar e ilibando quem é de ilibar.
    Vergonha para uma verdadeira Nação, é fazer calar a verdade e não ter a coragem de em sede própria admitir os seus erros e tudo fazer para os reparar.
    Lideres que se escondem no nevoeiro, serão líderes fracos e que contribuirão para construir uma fraca nação. Nunca terão o respeito e a admiração dos seus concidadãos.
    Dito isto:
    - Ofereço-me para coordenar uma task-force que em conjunto com todos os potenciais interessados contribua para construir um documento para ser encaminhado ás instâncias próprias para uma matéria desta gravidade.

    DESENGANE-SE QUEM PENSAR QUE A HISTÓRIA SE ENCARREGARÁ DE COLOCAR A VERDADE NAS PÁGINAS DOS LIVROS... CADA UM DE NÓS É QUE TEM A MAGNA RESPONSABILIDADE DE CONTRIBUIR PARA QUE OS REGISTOS DO TEMPO FALEM VERDADE, ESCRUTINANDO CADA PÁGINA ... DOA A QUEM DOER!

    Paulo Azevedo

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    Respostas
    1. Quiçá pela primeira vez na vida me encontro na situação de não saber o que dizer...No momento, a única coisa que sinto é orgulho,,,O resto, não sei quanto tempo levará a emergir!
      Obrigado, filho!
      Pai

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