quinta-feira, 13 de novembro de 2014

[7618] - CABO VERDE E A QUEDA DO "MURO"...



Na sua edição do dia 9, o jornal A Nação publicou, a propósito do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, um série de comentários subscritos por pessoas mais ou menos conhecidas e/ou mais ou menos mediáticas, que deram conta dos profundos efeitos do acontecimento, quer a nível pessoal, quer a nível nacional (Cabo Verde) e internacional... O nosso amigo e colaborador, Adriano Miranda Lima parece, no entanto, afinar por um diapasão distinto...Eu, concordo com ele, e vocês?!
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"Se calhar tudo continuaria na mesma inércia "chez nous" se o muro não tivesse caído, com aquele jeito muito nosso de deixar andar.
Quanto ao acontecimento, devo confessar que não fui perpassado pela mesma emoção aqui confessada pelas pessoas que se pronunciaram, algumas talvez com certo cinismo. Fui antes possuído pela dúvida sobre o que de verdadeiramente vantajoso viria para o que não estava para lá da cortina de ferro. Para a Alemanha foi bom, claro, porque se unificou e recuperou a condição histórica que lhe faltava para a afirmação da sua hegemonia na Europa, que é o que vemos na actualidade e com todas as letras. A expansão da UE para o Leste é fundamentalmente do interesse da Alemanha, dado que é o único país capaz de aproveitar bem os novos mercados que se abriram. A expansão desmesurada da UE foi o início dos problemas no seio da comunidade, porque ela não tinha ainda atingido o ponto de maturação suficiente que aconselhasse semelhante alargamento. Temos tido evidências disso, sendo uma delas a dificuldade de a UE resolver a crise no seu seio, o que provavelmente  não aconteceria se tivesse mantido uma dimensão controlada e a contento das suas reais capacidades. 
Por outro lado, a perda dos países satélites (URSS) vai de certeza ser cobrada pela Rússia, tanto mais quando ela está perfeitamente ciente da confrangedora fragilidade militar dos países da UE, que caíram na idiotice de reduzir à expressão mínima o seus aparelhos militares, por idealismos bacocos que não são partilhados por grandes potências como os EUA, a Rússia e a China. 
A Alemanha da senhora Merckel é que provocou o imbróglio na Ucrânia ao acenar com uma cenoura aos promitentes aderentes à UE. E seguiu-se o que vimos e continuamos a ver. Não passou pela cabeça desses obtusos ignorantes da História que a Rússia reage necessariamente quando vê o seu espaço vital ameaçado. Como poderia a Rússia ficar indiferente quando vê a NATO instalar um cordão no seu limite ocidental?
Isto veio a propósito desse muro de Berlim, que, não nos iludamos como foi iludido o Francis Fukuyama ao apregoar o "Fim da História" com a sua queda, acreditando ele que a democracia ia propagar-se como solução salvífica para o planeta. Meus amigos, o que temos visto desde a queda desse muro é um mundo mais enredado, mais confuso e mais perigoso. Muito pior do que no tempo da Guerra Fria, porque nesse tempo os dois blocos se continham nos seus limites e se respeitavam mutuamente, controlando dentro dos seus espaços vitais o que tinham de controlar.
Recentemente, vimos a Rússia a fazer nas nossas fuças o que em linguagem militar e estratégica se chama "demonstração de força". Há dias, o Mikhail Gorbachev disse que estamos à beira de uma nova guerra fria, mas que, acrescento, poderá vir a ficar bem quentinha. Reparem também que é com a queda desse muro que o capitalismo se revelou em toda a sua selvajaria e fealdade. É que a economia socialista funcionava como um contraponto, um travão, embora com engrenagens falidas, como sabemos.  O que vemos agora não nos dá qualquer tranquilidade. O mundo ficou pior e não se vislumbra ponta de solução."

6 comentários:

  1. Bom seria que a democracia fosse apenas um alforge de virtudes, via segura para a realização dos melhores anseios humanos! Mas, infelizmente, produto da natureza humana, ela espelha de forma inconfundível as limitações e as complexidades do seu criador e usufrutuário. Disse o Saramago que o "que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde". Mas o problema é que não se perfilam nos tempos actuais novas ideias capazes de inspirarem os líderes mundiais. O Papa Francisco é a única luz que brilha nesta bruma.

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  2. Eu permitir-me-ia comparar a democracia a uma sinfonia, perfeita na essência mas francamente desagradável ao ouvido por culpa dos executantes que, ao invés de interpretarem a partitura atacam a melodia como se dela fossem os únicos usufrutarios, moldando-a à medida da sua falta de qualidade interpretativa e duvidosa formação melódica...

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  3. A queda do Muro de Berlim e as transformações no Mundo. Uma análise de Adriano Miranda Lima no Arrozcatum. Nem tudo correu bem, ou melhor muita coisa correu mal. Houve a transformação do capitalismo social e democrático, de que sou defensor, num capitalismo desabrido, sem lei, o capitalismo de casino, com a desregulação total da economia Mundial e com o Wall Street e os mercados mundiais a virarem o verdadeiros governos mundiais. Os Chicago Boys e os traders tomaram conta de tudo e fazem a chuva e o bom tempo das nações, hoje entregues à lei dos Mercados. A democracia em quase todo o Mundo é a de fachada e a miséria cresce vertiginosamente, mesmo nas nações mais ricas do globo. O primeiro mundo tenta exportar modelos políticos que só se aplicam no ocidente, resultando convulsões no mundo islâmico e desajustes em África que ainda não se descolou por culpa em grande parte de regimes corruptos e de uma estagnação social. Uma reflexão mundial sobre o futuro da Humanidade é urgente pois todos cabemos em harmonia aqui nesta terra, pois há recursos naturais para saciar a fome da Humanidade em relação aos bens essenciais, ao conhecimento e à cultura.

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  4. O Zito e o José complementam bem este amargo desabafo sobre a triste sina deste homo sapiens nos tempos que correm. Estamos a entrar numa situação de entropia e uma das suas trágicas evidências é a tendência para a afirmação de nacionalismos que estavam adormecidos por aglutinados em ordenamentos políticos gizados por convenientes e momentosos critérios geopolíticos. Veja-se a Escócia, a Catalunha, a Bélgica, para não falar nos Balcãs onde reina neste momento uma paz vigiada, para não dizer podre, e ainda nas comunidades russas integradas em ex-países satélites da antiga URSS. Mas uma ameaça de não menor preocupação é o insano radicalismo islâmico, por ser de natureza inorgânica uma vez refractária às regras institucionais da diplomacia internacional.
    É evidente que esta democracia que o Ocidente julga ser remédio para os problemas da humanidade não serve para todas as latitudes. E mesmo entre nós precisa ser revista com urgência.

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