sábado, 29 de novembro de 2014

[7674] - HISTÓRIA DO SEXO DAS MULHERES ATRAVÉS DA HISTÓRIA...

Em conversa com o colega e amigo João Manuel Varela (João Vário), há alguns anos, sobre as mutilações sexuais e preconceitos relativamente à mulher, pediu-me que escrevesse para a revista ANAIS, da AECCOM (Academia de Estudo de Ciências Comparadas), algo sobre o assunto – Academia que desapareceu após a morte do seu criador, Prof. Varela, e poderia ter tido continuidade não fora a vaidade de se ser o criador de outra -, face à minha experiência nos países africanos onde trabalhei, por ter reparado o apoio que sempre dei à luta feminina pela emancipação, em escritos e na minha missão para a introdução do planeamento familiar em Cabo Verde, através do Projecto de Saúde Materno-Infantil e Planeamento Familial; seguira a polémica que isso levantou com a Igreja por causa dos métodos modernos de controlo da natalidade, que fui enfrentando com habilidade e respeito pelas ideias contrárias, rebatidas com argumentos dificilmente refutáveis.
Num dos números de ANAIS debruço-me um pouco sobre as mutilações sexuais, e, posteriormente, em artigos publicados nos jornais nacionais, sobre vários aspectos ligados aos direitos das mulheres. Por ser assunto que continua a preencher o meu interesse, não negligencio publicações respeitantes à matéria, e, recentemente, encontrei um livro interessante da historiadora, filósofa e escritora, Diane Ducret, intitulado Chair Interdite, da Editora Albin Michel, e uma entrevista na revista La Revue (do Grupo Jeune Afrique), que me vão servir para fornecer aos leitores algumas constatações deveras interessantes e surpreendentes.
Não me vou deter na descrição das mutilações sexuais praticadas em África e noutras paragens por motivos supostamente religiosos e animistas, em boa verdade por estupidez e egoísmo masculinos, por já o ter feito noutros escritos – excisão do cliptoris, dos pequenos e grandes lábios, circuncisão (em rapazes), infibulação (em que se cose a fenda vaginal deixando um pequeno orifício para a saída das regras), etc., a sangue frio com instrumentos contaminados, geralmente em rapariguitas, mas também em mulheres adultas para preservar a fidelidade destas na ausência do marido. Como acontece com os teólogos muçulmanos (imãs, molas, muftis, iatolas, etc) que muito excepcionalmente se pronunciam nas mesquitas ou em público contra as barbaridades e crimes cometidos pelos extremistas islâmicos considerando-os crimes e pecados mortais, o que poderia levar à diminuição de tais práticas e dos seus defensores, a maioria dos presidentes e ministros africanos nunca se manifesta publicamente contra as referidas mutilações sexuais, não obstante haver leis que as interditam e condenam, o que nos convence de que, no fundo, concordam com tais crimes como práticas ancestrais respeitáveis que “os brancos não entendem”, como costumam dizer.
Diane Ducret descobriu nas suas investigações históricas, que, no século XIX e até 1910, se excisavam mulheres na Europa e EUA, altura em que desaparecia o Antigo Regime e se executava o Código Napoleónico, que considerava “a mulher” como parceira obediente do homem, que devia cumprir “missão” e “vocação” fundamentais: esposa e mãe ou prostituta. Inconcebível que a mulher pudesse usufruir de algum prazer no acto sexual que escapasse ao controlo do homem. Os médicos excisavam, ao termocautério (portanto, ao fogo) as mulheres histéricas, as que experimentavam, como se presumia, muito prazer no acto sexual. Um cirurgião Vienense, Gustavo Braun, especializou-se, em pleno século XIX, na excisão do cliptoris para prevenir as regras femininas e orgasmos muito expressivos! Os homens conseguiram convencer as mulheres de que o prazer sexual feminino era típico de prostitutas, não de mulheres-bem, honradas, o que as forçou a consultarem médicos quando tal acontecia. Mesmo para Freud, a mulher com prazer cliptoriano era uma menina que ficou bloqueada nesse estádio; aí entrava a Psicanálise. A excisão terminou, por fim, na Europa mas continuou por alguns anos nos EUA. Em 1872, Robert Battey, médico cirurgião, demonstrou que a castração feminina eliminava de facto toda a histeria sexual!
Recuando mais no tempo, descobrimos que no Cristianismo – ter presente que as religiões foram criadas e monopolizadas por homens -, a mulher perfeita não tem sexo. É a Virgem Maria intacta, pura, sem regras, nem sexo. Na Bíblia, a mulher é impura durante sete dias e deve ser banida. Tudo que ela toca, ou alguém que mexa nalgum objecto que ela tenha tocado fica impuro. Na corte de Luis XIV, o seu cirurgião preconizava a amputação do clíptoris para retirar à mulher a “lascívia contínua”.
Com a Renascença e a Revolução Francesa, o Cristianismo separou o poder temporal do espiritual e, a pouco-e-pouco, foi aceitando a não interpretação à letra de muitas afirmações das Sagradas Escrituras, abandonando alguns preconceitos sexuais, o que não aconteceu com o Islão, por os árabes não terem tido Renascença nem nada semelhante à Revolução francesa; pelo contrário, inicialmente mais tolerante do que o Cristianismo – nos reinos medievais da Espanha moura, os governantes islâmicos deram abrigo a cristãos e judeus perseguidos, enquanto a Europa cristã se atolava em conflitos religiosos -, o Islão foi dominado, a partir de certa altura, pelo clérigo reacionário e fundamentalista que não lhe permitiu evoluir, preferindo privilegiar atitudes extremistas e até criminosas como acontece na actualidade, sendo a mulher propriedade do homem e destituída de quaisquer direitos. Por exemplo, o criador da seita Irmandade Muçulmana, Sayyed Qutb, intelectual egípcio executado no tempo de Nasser, que viveu alguns anos no Ocidente e EUA, escreveu que “as americanas sabem que a sedução reside em seios hirtos e transbordantes, pernas bem torneadas e ao leu, cabelos soltos e ancas roliças”. Concluia: “É tudo quanto não queremos no Egipto”.
Durante muito tempo se pensou que o uso do cinto da castidade apareceu na Idade Média para prevenir o adultério das mulheres cujos maridos partiam nas Cruzadas ou em negócios à distância. Afinal o seu uso foi muito mais recente, século XVIII. Os cintos de castidade que vemos nos museus não eram da Idade Média, mas posteriores. Foram também utilizados para suavizar o ardor sexual feminino.
Esse médico famoso que conhecemos do liceu, Ambroise Paré, considerava o aparelho sexual feminino ignomínia da natureza. O que mais o intrigava era o cliptoris entrar em erecção por várias motivações, sem nunca se preocupar em saber a razão. Somente com o médico e anatomista Falópio, século XVI, é que se teve uma descrição anatómica dos órgãos sexuais femininos, mas sem aprofundar o seu estudo e fisiologia. 
Afirma Diane Ducret que quando o homem deixa de ter condições materiais ou de estabilidade social, quando começa a fraquejar a sua líbido ou se abeira da impotência, ataca a sexualidade feminina para controlar a sua capacidade reprodutora e erótica. Por exemplo, na actual crise económica e social mundial, põe em causa o direito ao abortamento, a legitimidade da contracepção. Tem havido todo um trabalho teoricamente estético visando a mulher levando-a a eliminar os pelos (depilação), primeiramente das axilas, e, a seguir, da púbis, por o pelo ser sinal de maturidade sexual, de animalidade. Os árabes (muçulmanos) chegam ao extremo de abominar tudo que seja pelo e pele femininos, obrigando a mulher a esconder o cabelo e a pele. Realmente, o egoísmo masculino não tem limites… e a mulher tem ido na conversa, quando não é forçada a isso, como acontece entre as muçulmanas e certas judias ortodoxas que usam variantes da burka, num excesso de pudor, para abreviar a chegada do Messias.
Diane Ducret valoriza também homens que se preocuparam e amaram verdadeiramente a mulher preconizando medidas e fazendo invenções que favoreceram a sua libertação, independência e domínio do seu corpo e fecundidade: à cabeça cita o médico Gregório Pincus, o inventor da pílula contraceptiva.
A falta de consideração que se tem pelo sexo da mulher modificou-se radicalmente entre os anos 1920 e 1940, com o desenvolvimento da sociedade de consumo. A firma americana Johnson & Johnson tinha fabricado pensos higiénicos em 1896, mas somente em 1920 é que a Kotex tirou proveito disso, surpreendendo todo o mundo com anúncios publicitários deles para mulheres, quebrando o tabu sobre assuntos sexuais. Os homens serviram-se desses pensos para enriquecer, o que fez melhorar a ideia que se tinha da sexualidade feminina.
Um outro benfeitor foi Ernest Grafenberg, judeu, o descobridor do chamado ponto G (equivalente vaginal erótico do cliptoris), médico que tratava a boa sociedade feminina nazi, em Berlim (emigrou depois para os EUA). Nos seus estudos conseguiu distinguir a ausência de orgasmo da frigidez feminina. Em 80% das mulheres que não conseguiam obter orgasmo, isso devia-se, segundo ele, precisamente por existirem zonas sexualmente excitáveis tanto no cliptoris como na vagina (Ponto G) com graus diferentes de excitação. Daí nasceu toda uma série de estimuladores vaginais para as mulheres com fraca excitabilidade cliptoriana, técnica reservada, no início, às mulheres histéricas, quando, antes, se acusava a equitação, a máquina de costura com pedal, a dança e a bicicleta de todas as vilanias excitantes.
Intrigante a posição do Papa PioXII que, já com 80 anos de idade e criticado por não ter feito muito para evitar o morticínio nazi de judeus – quando, em boa verdade, salvou muitos facilitando a sua fuga para a América Latina –, defendeu aberta e corajosamente, contrariando as Sagradas Escrituras (por a dor ser uma punição divina por Eva ter tentado Adão), a eliminação da dor no parto, técnica que, na altura, se praticava na ex-URSS, antes de se estender a todo o mundo.
Finalizo repetindo o que escrevi em Mulheres: Fieis de Segunda Fila. A luta das mulheres pelo reconhecimento dos seus direitos – o feminismo, como habitualmente se lhe chama – é o combate em favor da igualdade, é o meio para as mulheres acederem ao poder da palavra e da acção. […] Obviamente, são as mulheres que têm de continuar na primeira fila de luta pela sua emancipação visto que “nenhum agressor se demitiu voluntariamente do seu poder a favor do seu vassalo insubmisso”. Aos homens lúcidos e justos exige-se solidariedade.

Lisboa, Outubro de 2014                                                            Arsénio Fermino de Pina
                                                                                                   ( Pediatra e sócio honorário da Adeco)
  

2 comentários:

  1. Muito obrigada, Sr. Dr. Arsénio por este trabalho profundo onde se pode ver desde quanto sofremos. Felizmente que, com as exigências da vida moderna, as coisas mudaram bastante e hoje se pode reclamar em alguns lugares deste planeta conturbada. No entanto ha que ir mais longe, nos paises onde não é bom ser-se mulher e onde as desgraçadas continuam a sem martirizadas por crenças inadmissiveies que ninguém combate por superstição ou por meda da propria vida.

    http://youtu.be/PoBYR6FEAZA

    Ana Maria Azevedo

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  2. Um texto de grande interesse informativo.

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