quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

[7754] - O LUGAR DA HISTÓRIA - 2...



2- Cabo Verde 40 anos após a Independência: Do fim do contencioso Unidade Guiné-Cabo Verde ao longo e sinuoso caminho da Normalização 

In ‘Cabo Verde 40 anos após a Independência; Da  Independência à 1ª Via’ 

Como vimos no artigo anterior (1), o deficit de explicação e as contradições (“riolas,” como o amigo Arsénio de Pina o classifica) criadas pela questão da Unidade Guiné-Cabo Verde terão levado a uma completa ausência de diálogo, a um extremar de posições entre as facções que se digladiavam pelo poder em 1974, sobretudo quando uns tinham a certeza absoluta de que estavam do lado da razão e outros do lado do povo e da História. Mas a questão da unidade era, na realidade, o bode expiatória perfeito que escondia divergências de fundo, o que ampliava ainda mais o estado de crispação ambiente. A oposição, encarnada pela UDC e UPICV, discordava dos objectivos e da metodologia do PAIGC, e defendia uma outra via, em vez da Independência Total e Imediata, uma via que consistiria num processo de Autodeterminação, conduzindo a uma Autonomia alargada e progressiva de Portugal, e, até eventualmente, à Independência, mas sempre ligada à ex-potência colonial. Esta via era acusada de neocolonial!. Por outro lado, para uma oposição que queria existir e ter uma palavra a dizer nos destinos de Cabo verde, a defesa do multipartidarismo e da democracia parlamentar fazia parte do seu instinto de sobrevivência, para além de ser um sistema que teria poupado ao país o desgaste político do regime de partido único. Mas a forte oposição das alas mais radicais do PAIGC, que classificavam esta possibilidade de aberração ou luxo de pequeno-burgueses, matou no ovo esta via: o já todo-poderosos partido estava em vias de receber o poder total das mãos do povo, tencionava governar sem oposição, através de um regime de partido único, e executar integralmente o seu programa económico e socio-político. Onde terá estado o mediador, o moderador, nesta contenda? 
Por outro lado, se acreditarmos na versão oficial dos factos, a questão da Unidade Guiné-Cabo Verde terá sido a razão do Golpe de Estado de 1981 na Guiné-Bissau, que provocou uma cisão no PAIGC, criando dois ramos independentes e nacionais deste partido, pondo termo definitivamente a um processo que se iniciou com a sua fundação. Não sendo de excluir que a versão da realidade que nos é oferecida possa ser verdadeira, não obstante a possível omissão de factos relevantes contribuidores de uma melhor clarificação, fecho o introito sobre a síntese do processo revolucionário ocorrido em S. Vicente de 25 de Abril a Dezembro de 1974 e retomo o cerne da questão que ora me proponho: Cabo Verde 40 anos após a independência.
A partir da independência, em 5 de Julho de 1975, os dois países, a Guiné e Cabo Verde, divergir-se-iam inexorável e irreversivelmente da linha traçada por Amílcar Cabral. Tal desfecho era já previsível e só poderá ter surpreendido ingénuos ou incrédulos, pois os dois estados vinham denunciando indícios claros da inviabilidade do projecto utópico e contranatura, concebido por quem fez descaso, numa altura de utopias e idealismos, da distinta natureza idiossincrática entre os dois povos. De resto, consta que rivalidades no seio do partido entre cabo-verdianos e guineenses eram uma constante desde os tempos da luta armada, mas nunca seriam reveladas, insistindo mesmo o PAIGC, em pleno debate sobre a questão em 1974, em vender aos cabo-verdianos uma falsa fachada de unidade, porque ela configurava a heráldica da bandeira do partido. 
Para além do rotundo fracasso deste projecto de união orgânica dos dois países, o que mais sobra hoje do núcleo duro do pensamento de Cabral em Cabo Verde? Como conciliar o ideal de sociedade justa, sem classes e livre da exploração do homem pelo homem, com a realidade pragmática da sociedade cabo-verdiana contemporânea, quando o próprio partido que o propugnava teve que renunciar aos seus princípios para se submeter à realidade nua e crua? Nenhuma réstia desse ideário sobreviveu à estrondosa queda da utopia, e isso aconteceu em Cabo Verde e um pouco por todo o mundo. Se é certo que todos partilhamos o sonho de um mundo onde impere aquele primado de valores humanitários, a verdade é que a realidade é bem mais complexa e emaranhada do que sugere a simplicidade básica dos princípios. Basta ver como ruiu o socialismo científico na ex-URRS e na China, levando os seus líderes a converterem-se a certas formas de capitalismo ou a adoptar soluções de conciliação com as regras do mercado, muitas vezes caindo nas mais incompreensíveis incongruências.
No caso particular de Cabo Verde, depois do fracasso da ideologia prosseguida até à abertura democrática em 1990, o PAICV não teve outro remédio senão perfilhar os princípios de uma economia de mercado. Porém, o que assistimos hoje é a uma economia de mercado pervertida pelo compadrio e vícios que a transformam num capitalismo controlado pelo Estado e onde impera o clube de amigos, familiares e camaradas, com regras liberais aplicadas quando lhes convém e quase sempre em detrimento do interesse do cidadão comum, o dito povo. Nada melhor que o empresário Jorge Spencer Lima para demonstrar este paradoxo e definir a dura realidade do estado da economia cabo-verdiana: um capitalismo de Estado em vias de liberalização, sem capital e com empresas falidas (2): “O Estado diz que os privados o devem substituir. Que privados? Está tudo morto, tudo falido”.
 Com efeito, para se perpetuar no poder e adaptar-se aos novos ventos da História, o PAICV mudou, rejuvenesceu, vestiu a camisola ideológica do MPD, liberalizou-se, surfando a vaga dos novos tempos da democracia e da mundialização, e tirou assim muitos dos argumentos à oposição, que ficou sem bússola e aparentemente sem programa credível depois de perder o poder em 2000.
Quando tudo indicava que o período histórico de 1974- associado à implementação da independência e tudo o que restava da memória colonial (que bem ou mal faz parte de uma história de 500 anos, para um país com 40 anos de idade) estavam a esmorecer no arquivo da história, ou, como se diz, atirados para o lixo da história, não é que esta entra pela janela dentro? Qual não foi o espanto, o Parlamento cabo-verdiano terá votado a “Lei da Reconciliação Nacional”, no quadro do qual ‘amnistia’ ou “indulta” os protagonistas do período revolucionário, nomeadamente as vítimas, incluindo avultadas indemnizações devido às expropriações, abrindo espaço para a possibilidade de litigações. Esta Lei que muitos desconheciam apanha assim todos de surpresa. Curiosamente, a notícia, que apareceu num único jornal (A Semana), apesar da sua importância histórica, não é manchete de nenhum dos restantes principais jornais nacionais. Ela foi algo furtivo, que passou sob o silêncio da opinião pública e dos diversos fazedores de opinião, o que dá uma ideia do grau de autocensura, e de desinformação em que vive hoje a sociedade cabo-verdiana, quando se trata de assuntos quentes. Este período eufórico, libertário, mas também de excessos, é tabu sob muitos aspectos, e daí o cuidado de o cobrir com um manto de silêncio. Mas é minha opinião que os cidadãos têm o direito a serem plenamente informados, a terem acesso aos arquivos, às fontes (Cadê os jornais e os panfletos da época? Os registos dos comícios inflamados? Os arquivos da Rádio Barlavento e da Rádio Clube?), de modo a melhor estudar os factos e apurar a verdade sobre uma fase das mais críticas da história contemporânea de Cabo Verde. Não deixa de ser paradoxal e curioso que a oposição durante quase 20 anos enfatize somente os problemas ocorridos bem depois do 5 de Julho 1975, focalizando exclusivamente e precisamente a questão da Reforma Agrária, omitindo calculadamente todo o processo anterior ao 5 de Julho, assim como os que são relativos à primeira fase da Primeira República, onde a actual oposição e o partido único se davam as mãos numa suposta ‘unidade nacional’. Coincidência ou não, esta notícia da Lei da Reconciliação Nacional saiu a público no mesmo dia em que se comemorava o Dia dos Heróis Nacionais (20 de Janeiro) e em que se antevia romarias e diversos actos comemorativos dos 40 anos dos eventos protagonizados pelos simpatizantes do PAIGC em S. Vicente e liderados por alguns dos actuais combatentes (alguns pelas sua participação na Guerra da Guiné do lado do PAIGC, outros pela sua actividade clandestina a favor deste partido, e muitos nem por isso) que levariam o arquipélago à independência. É assim que o Estado se vê hoje, por ironia do destino, obrigado a responder perante advogados que representam alguns dos expropriados da independência (ou mesmo do período colonial) e talvez a pagar “avultadas indemnizações” (3). Embora este facto não devesse surpreender ninguém, pois tarde ou cedo acabaria por acontecer, não deixa de ser uma grande oportunidade para levantar o manto diáfano que cobre todo este período e esclarecer muitas dúvidas. E não podia ser de outra maneira, pois sendo hoje Cabo Verde um Estado de Direito, obrigado a respeitar as diversas leis nacionais e convenções internacionais que subscreveu, a priori, deverá assumir as suas responsabilidades e indemnizar os lesados por actos delituosos cometidos em seu nome numa época de transição ou de domínio absoluto do partido/estado no exercício da sua acção revolucionária. Ou seja, alegadas invasões de propriedade, confiscações, expropriações de bens e vandalismos. Embora, não se pode esquecer que vivíamos um quadro revolucionário, decorrente do 25 de Abril e da subsequente contestação da legalidade colonial, situação que se pode denominar de Interregno, onde impera a legalidade revolucionária!
Todavia, pela leitura da notícia (3), o que estará em causa é uma ínfima parte do universo dos potenciais queixosos, sabendo que não é qualquer cidadão que tem a capacidade de processar um Estado por eventuais delitos políticos cometidos, anteriores ao próprio Estado, e que agora lhe possam ser imputados. O assunto não deixa de ter grande interesse, pois estaremos face à reabertura de um capítulo embaraçoso da história de Cabo Verde que engloba todo o processo revolucionário iniciado em 1974, com uma longa lista de incidentes passíveis de contencioso e que inclui: saneamentos políticos na administração pública, insultos, difamações, perseguições e assédios político-psicológicos, pichagem de casas, prisões, expulsões do país, assaltos, vandalismos etc. Não poderá deixar de incluir também processos posteriores, tais como o caso de pessoas perseguidas e presas por alegadas intentonas contra-revolucionárias em 1977, em S. Vicente e por causa da Reforma Agrária em 1980. 
Numa avaliação por alto, poderão estar incluídas centenas de cidadãos, residentes ou não em Cabo Verde, um número que poderá flutuar, dependendo dos critérios utilizados, na medida em que a maior parte das alegadas vítimas desapareceu. Por outro lado, acredita-se que os descendentes, mesmo tendo a possibilidade de recorrer, poderão querer passar uma esponja sobre o passado, não desejando evidenciar-se na sociedade cabo-verdiana com um contencioso com o Estado, que pode ser mal visto pela opinião pública, para além de outros preferirem atirar para o sótão da memória os percalços sofridos pelos seus antepassados, olhando-os como uma vicissitude normal de um processo revolucionário conducente à independência. E não podemos deixar de incluir neste processo, o caso dos descendentes dos ‘condenados a trabalho forçado’ em S Tomé, as verdadeiras vítimas colaterais de uma descolonização feita à pressa, sem acautelar todas as situações, e que ficaram abandonados nessa ilha tropical aquando da Independência, após terem sido usados na propaganda política do PAIGC, com promessas falaciosas. Existem ainda outros contenciosos que envolveram situações de uma dimensão mais política, tais como o caso da expropriação da Rádio Barlavento e do Grémio, a pilhagem da Biblioteca Municipal de S. Vicente, assim como outros actos de vandalismo que alegadamente ocorreram na cidade e que poderão ficar sob a alçada desta Lei. 
Não se deve esquecer que nas tragédias ou desgraças humanas, as vítimas são de carne e osso, nunca devem ser olhadas como números. Neste caso, trata-se essencialmente de pessoas que viviam pacificamente e despreocupadamente na sua pacata terra (mas sob ocupação colonial, alegarão os nacionalistas), e que, se saiba, não cometeram nenhum crime (senão o de serem reaccionárias e ‘catchor de dos pé’), para além de terem opinião contrária à tendência dominante. 
A pergunta que se coloca na mesma linha do pensamento de Armindo Ferreira num artigo publicado há anos (4) é se no quadro da Lei da Reconciliação Nacional é lícito falar de “amnistia” e “indulto” para crimes políticos entendidos apenas na estrita perspectiva de quem exercia um poder autocrático, e, neste caso, importando saber qual a bitola e o critério para as ressarcir devidamente e na totalidade, a elas e/ou seus descendentes, da ofensa à sua dignidade e dos prejuízos materiais e morais sofridos. Isto tudo leva-nos a reflectir sobre a necessidade de uma Reconciliação plena (incluindo os partidos actuais) no quadro dos mecanismos legais actualmente disponíveis?

1-Da Independência à 1ª Via: 1974, a tomada do Poder pelo PAIGC e a fuga da Elite Cabo-verdiana.
2-http://www.expressodasilhas.sapo.cv/economia/item/43876-jorge-spencer-lima-o-estado-diz-que-os-privados-o-devem-substituir-que-privados?-esta-tudo-morto-tudo-falido
3- http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article106666&ak=1 
4-http://www.coral-vermelho.blogspot.pt/2015/01/reconciliacao-sim-indulto-ou-amnistia.html

Janeiro de 2015
José Fortes Lopes 

21 comentários:

  1. A descolonisaçao é uma questão violenta, dizia Frantz Fanon, um dos teoricos da descolonizaçao e da negritude e que mais influenciou o Amilcar Cabral e muitos patricios da minha geraçao. Estranho é que o seu livro "Os condenados da terra" tenha estado à venda na Casa do Leão nos principios dos anos sessenta. Sobre o pan-africanismo que corresponde a um sionismo negro precisa duma outra explicaçao porque é diferente da unidade africana e principalmente no que diz a unidade Cabo Verde-Guiné. O assassanito do Amilcar Cabral assim como o golpeAlvaro Dantas, que na altura se encontrava em Conakry. Publiquei na altura dois artigos no jornal senegalês Le Continent à responder às declaraçoes de José Turpin, ministro da Guiné Bissau, que atribuia a responsabilidade dos caboverdianos na existência das valas comuns onde foram enterrados os militares que colaboraram com o exercito colonial. Aliàs ando a procura destes dois artigos. Embora a formaçao teorica marxista de Amilcar Cabral ninguém pode afirmar qual seria o modelo economico e social que seria aplicado nos dois paises. O que estou certo é que ele nunca iria excluir do debate sobre o destino da Naçao qualquer cabo-verdiano, como aconteceu aqui em França com De Gaulle, que aliàs foi buscar o André Malraux, antigo companheiro de Trotsky na guerra da Espanha. para o Ministério da Cultura.

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  2. Luiz Esta reflexão é necessária se queremos ser honestos para connosco e Cabo Verde. É uma prova de maturidade democrática discutir o que correu mal em vez das 'basofarias' que desafiam todos os dias a nossa inteligência e a verdade dos factos. Não te esqueças que estamos a procura de soluções para nossa ilha e CV. Só percebendo o passado podemos conceber o futuro. Temos que assumir esse passado e aceitar que em vários aspectos erramos podíamos ter feito de outra maneira, pois errar é humano e ninguém nasce aprendido. Por exemplo podia-se fazer revolução moral cívica e social usando outros caminhos. Este é o meu ponto de vista

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  3. Em todos os paises colonizados os partidos polikticos foram emanaçoes do movimento sindical e associativo. Houve paises como a Inglaterra em que Independencia se fez num dialogo. A França que concedeu direitos sindicais, aboliu o indigenato desde 1946 e procurou integrar os representantes das colonias no parlamento tentou pelas armas dominar os movimentos independistas. A maioria dos presidentes das republicas dos paises francofonos passaram pelo parlamento francês onde tiveram o treino da democracia e alguns como Senghor e Houphouet Boigny chegaram a ser ministros na rterceira republica. No nosso caso desde 1933 era estabelecida a censura, a criaçao da Pide, a proibliçao do movimento associativo e entre as quais a maçonaira que teve um papel importante em Cabo Verde. O Amilcar Cabral que conhecia os movimentos pacifistas, tanto mais que deu o nome de Indira a uma das suas filhas, procurou sempre dialogar com o Governo Colonial e foi quase forçado a entrar luta de libertaçao apoiado na cultura com a bela frase: a luta de libertaçao é um acto cultura. O Governo colonial procurou forjar simplesmente com o apoio da igreja catolica quadros doceis, sem personalidade, capazes de servir simplesmente. E essa gente como servis passou ao Paigc apos a Independencia. Nao havendo sindicatos e nem associativos, donde se podia emanar os partidos politicos, o PAIGC ao chegar com um treino politico importante encontrou a adesao imediata das massas populares sedentas de justiça social, de salarios justos e de liberdade que o regime colonial os tinha excluidos. E por mais razoes que tivessem a UDC ou a UPIC, também victimas do regime colonial, mas que viviam afastados das massas populares e das suas preocupaçoes nao representavam o combate libertador que o povo esperava para a sua libertaçao. O 25 de Abril surpreendeu a todos e os erros cometidos foi devido a um percurso diferente dos outros regimes coloniais. Mas quem nao erra é aquele que nunca fez nada...

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  4. O que nunca concordei com o PAIGC foi a instalaçao do partido unico, seja a ideologia que fosse, depois de termos suportados mais de quarenta anos de partido unico. O numero 7 da revista Unidade e Luta do PAIGC revela contornos de controlo da sociedade ainda piores do que no tempo colonial. Hoje, embora estarmos num regime democratico, as injustiças socias continuam e o slogam Nôs Terra pa Nôs Pove" tornou-se Nôs Terra pa nôs poc, onde o salario minimo é de onze contos enquanto temos gente no Governo que ganha mais de quinhentos contos mensais e outros com reformas de duizentos e trezentos contos, engendrando uma corrida envergonhada para se obter o estatuto de antigo combatente para obter uma reforma de setenta e cinco contos. Essa nova sociedade e o proprio PACV nada teem a ver com a filosofia humanista de Amilcar Cabral.

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  5. Luiz a conclusão
    que tiro do processo que a verdadeira revolução social que SV e CV precisava foi desviada dos seus propósitos e a sociedade actual é o reflexo disto tudo. O desaire que se vive numa ilha como S. Vicente abandona a ela mesma sem soluções à vista aliados aos clima de decomposição social em Cabo Verde que salta à vista de todos. Os frutos de uma revolução da espernaça e do progresso deviam estar a ser colhidos agora e o que existe é a desesperança...

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  6. Concordo contigo a elite social é vítima do sistema salazarista ao não permitir atempadamente a eclosão da sociedade polítca em SV o lugar que estava na ponta do progresso social e económico em CV. A estagnação do salazarismo não deixou que a sociedade se amadurecesse e encontrasse a sua elite política. A elite acabou-se por estagnar e fechou-se no Grémio e nos clubes. Se tal acontecesse teríamos de certeza em 1975 multipartidarismo democracia etc. Este é o meu propósito deste ensaio provocar um debate e ir ao fundo das questões. na nossa investigação nosso caminho levra-nos-á a questionar hoje sobre o sentido e o significado do regime salazarista sem poupar é claro os erros do PAIGC/CV

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  7. Para concluir Luiz há duas máximas julgo francesa que dizem: 'les révolution dévore ses enfants' e 'vera qui vivra'

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  8. .
    O José nos apresenta mais um capitulo de valor. que me traz lebranças de momentos pouco agradàveis mas que passaram

    ***
    Quando se criava os movimentos para a independência em Dakar havia grande evervescência nas comunidades onde começou uma guerra larvada entre guineenses e cabo-verdianos. Sempre que se falava na Unidade Guiné/Cabo Verde os meus compatriotas se empolgavam com as directivas cabralinas e os guinéus deixavam transparecer o que lhes queimava as tripas ("Tuga bai si tera na avião; nhos na bai a nado"). Os insultos na rua, ou até nos postos de trabalho, eram frequentes e éramos tratados de tudo, nomeadamente de cavalos porque comemos milho e o arroz era deles. As diatribes foram crescendo e, no mês de Julho de 1963, apôs ruptura de relações consulares entre Portugal e o Senegal, fomos convidados a deixar o território em quinze dias.
    Tive imensos dissabores, sobretudo danos materiais e escapei por um triz de uma cilada graças ao meu cão lobo de Alsácia. O meu carro foi danificado por duas vezes com ácido (obra de patricios). Embora tivesse bom contacto com dois guarda-livros guineenses, com quem discutia francamente e me falavam sem quaisquer rodeios por saberem que nunca me passou pela cabeça que, depois da independência (mais cedo que tarde), a gente das ilhas chegasse aos postos de chefia em terra deles.

    Recomendo aos que se interessam pela História dessa época a leitura do livro "Quadros de Viagem de um Diplomata - Senegal, Guiné, Cabo Verde" - Luiz Gonzaga Ferreira - Editora Vega (depois Nova Vega)

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  9. Penso que o mérito deste e outros textos recentes do José Lopes é retirar da penumbra factos e acontecimentos que precipitaram o destino político dos cabo-verdianos, sem que toda a gente pudesse ter tido possibilidade de se pronunciar em liberdade. O José tem a vantagem de ter presenciado os acontecimentos e sido protagonista nos movimentos juvenis que se desencadearam instantaneamente com o 25 de Abril. À exaltação de outrora, em que ele se incorporou com a inocência própria da adolescência, hoje contrapõe um olhar sereno e lúcido, porque o tempo já lá vai e o espírito amadureceu e se cultivou. Claro que isso não será bastante para se dizer que o José está a escrever história, dado que o seu ponto de vista é sempre subjectivo e influenciado por factos posteriores, internos e externos. Contudo, ele está em condições de prestar testemunhos e de os analisar sob uma perspectiva que sempre contribuirá para a clarificação da história.
    Ora bem, tanto os cabo-verdianos como os portugueses estiveram 40 anos sob um regime autocrático que ficou conhecido como “salazarismo”, por alguns, e fascismo, por outros. Em rigor, esta última classificação será exagerada, pois o autoritarismo de Salazar tinha a marca própria do seu país e do seu povo, com intrínsecas moderações, contenções e adaptações circunstanciais. Mas é um facto que privou os portugueses das liberdades cívicas durante 40 anos e votou as colónias e as suas populações a um estatuto de coisa distante e menor, com isso perdendo fatalmente o comboio da história.
    Com o 25 de Abril, é indiscutível que os cabo-verdianos estavam em pé de igualdade dos portugueses da Metrópole e das ilhas adjacentes para poderem decidir por si próprios sobre o seu destino. Em matéria de escolaridade e esclarecimento cívico, não haveria diferenças sensíveis entre os cabo-verdianos e, por exemplo, os açorianos e madeirenses. Só que a uns foi dada a possibilidade de escolher livremente e a outros foi passado um estatuto de menoridade, simplesmente porque havia um movimento libertário que invocava a legitimidade de ser única voz dos cabo-verdianos. Alguns dirão que a diferença era uma única: Cabo Verde era uma colónia. Aqui é que a porca torce o rabo e a discussão encontrará pano para muita manga.
    Continuaremos a discussão, espero bem.

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  10. Bem, continuemos.
    A percepção que eu tinha da opinião dos portugueses é que Cabo Verde era um caso diferente no contexto das colónias. Depois do golpe do 25 de Abril e dos primeiros desenvolvimentos, e estando eu em Moçambique, o tenente-coronel, meu comandante de batalhão, ao ouvir na rádio a notícia em que o PAIGC reclamava também a independência das nossas ilhas, perguntou-me: “Lima, isto é mesmo a sério, Cabo Verde independente também? Mas, que diabo, vocês são um caso à parte, pois servi lá como subalterno e sei como é.”
    Caso à parte ou não, a história aconteceu nos moldes que a propiciaram, nos carris que se montaram propositadamente para meter o seu comboio. Infelizmente, muitos ilustres cabo-verdianos foram apeados desse comboio e, além da natural mágoa que isso deixa, perguntar-se-á sempre como seria um Cabo Verde beneficiado com o concurso de todos os seus filhos sem excepção. Caberá principalmente endereçar a questão ao caso particularíssimo da nossa ilha natal, S. Vicente.
    É evidente que estamos a colocar o problema no plano dos princípios e dos direitos, sem entrar em questões práticas de ideologia política. E digo que a este respeito eu teria dificuldade em criticar certos aspectos fundamentais da política governativa cabo-verdiana nos primeiros anos. Dificilmente se poderia ter feito mais e melhor naquelas circunstâncias concretas. O que é assunto de outro jaez é a liberdade que foi coarctada ao nosso povo e a repressão violenta que foi exercida sobre quem tinha opinião diferente.
    Em Portugal, tive a sorte de estar onde me foi permitida a possibilidade de escolha política, para o bem ou para o mal, ao passo que os meus conterrâneos em Cabo Verde tiveram de se submeter ao que lhes foi imposto. Tive familiares que foram obrigados a sair e entretanto faleceram com a tristeza de não terem podido revisitar a terra natal.
    É disto tudo que nos fala o José no seu texto. Indulto, amnistia, reconciliação nacional? Certamente que sim à reconciliação nacional e um pedido de desculpas aos que foram lesados na sua dignidade e nos seus direitos. Ressarcir materialmente todos é mesmo abrir uma caixa de Pandora. Não faltarão oportunistas. E o país não tem dinheiro.

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  11. Fico satisfeito que este artigo tenha provocado uma troca de ideias/debates. Este foi o meu propósito, não escrever história mas sim contribuir para que debata este tema e vários outros que dizem respeito `a nossa terra. Como podem ver bastei-me/limitei -me em descrever a questão como observador objectivo sem tomar partido nem paixões de modo a que todos encontrem neste debate o seus argumentos, pois a História é nossa e não podemos considerar haver vencedores nem vencidos, mas sim protagonistas com as suas certezas e razões. Como disse e bem o Adriano tenho a vantagem de ter presenciado os acontecimentos e sido protagonista nos movimentos juvenis que se desencadearam instantaneamente com o 25 de Abril. À exaltação de outrora resultante inocência própria da adolescência, hoje contraponho um olhar sereno e lúcido, porque o tempo já lá vai e o espírito amadureceu.
    Muitas outras pessoas podem contribuir a este debate com os seus depoimentos e análises. São bem vindas, pois acho que somos lidos

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  12. Parabenizo o José Lopes por estas evocações e análise muito correcta do que se passou naquele tempo conturbado. Eu também sou um arrependido do meu desvario de então. Incendiamos o povo sem medir as consequências.

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  13. Pois bem, meus irmãos, Incendiar sem prévenir bombeiros é acto de piromaniacos. Foram os instrumentos dos malandros que se apoderaram vergonhsamente do vosso trabalho que foi sabotado com a adulteração dos ideias. Pretendem continuar com o programa de Cabral mas é pura mentira, grande ofensa à sua memôria, argumento que so os incautos engolam sem mastigar porque é indigesto.
    Embora tivesse recoltado um manacial de problemas que ainda subsistem, a vocês não guardo rancor algum porque participaram para o adiamento de um acto que devia ter lugar. Agora tendes que fazer como faz o José que é denunciar os "melhores filhos" auto proclamados. Os verdadeiros foram preteridos e seus filhos tratados como renegados.
    Mas nunca é tarde

    Jom de Nha Maninha

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    1. Desculpem os erros. Muitas vezes, a raiva contribui para os pequenos erros de màquina
      Jom de Nha Maninha

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  14. Julgo que os sucessores da força política que tomou poder por conjugação favorável de circunstâncias históricas (via revolucionária),não terá nada a perder se pedir desculpas públicas por excessos cometidos contra cidadãos cabo-verdianos cujo único delito foi não aderir ao partido único e ousar ter opinião diferente. Não lhes fica mal, pelo contrário, será um acto que só os favorece aos olhos da nação.
    Aliás, o actual PAICV, se quiser fazer jus à sua condição de membro da família do socialismo democrático, tem de lavar as nódoas que ensombram a sua imagem e se reportam àquele passado tumultuoso do período de tomada do poder. Algo me diz que a nova presidente do partido não vai descurar essa medida, tão depressa assume o seu cargo no pleno das responsabilidades.
    O José Lopes trouxe-nos matéria para reflexão e troca de opiniões, e bom seria que mais comentadores viessem à liça.

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  15. Não tem que se preocupar com as gralhas, senhor João de Maninha. O importante é dizer o que se pensa sem medo e com o coração limpo.

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  16. Vamos esperar a continuação desta narrativa ou está ela encerrada? Felicito o autor e este blogue por este assunto de muito interesse e oportunidade. No coração do povo cabo-verdiano, que sabe sofrer mas também sabe amar, a porta se abrirá para todos os reencontros. Queiram os políticos e os homens proceder para que isso seja uma realidade.

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  17. Caro António Mendes
    Está em preparação a 3ª Parte e Fim desta trabalho. Gostei de ler as palavras do Adriano Lima e as suas. É preciso lavar as nódoas que ensombram CV o seu passado tumultuoso do período de tomada do poder em que jovens foram mais do que manipulado para cometerem actos condenáveis face aos valores que sempre ordenaram os cabo-verdianos que se resume em: morabeza. Como diz bem António Mateus, o coração do povo cabo-verdiano, que sabe sofrer mas também sabe amar, a porta se abrirá para todos os reencontros. Mas antes disso toda a luz tem que ser feita sobre estes 40 anos da nossa História. Este é o meu propósito

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  18. DE ARSÉNIO DE PINA, POR E,MAIL...
    Artigo importante e corajoso na sequência do anterior do amigo José Fortes da Silva que desmistifica muita valentia nacionalista do período pré-independente chamando-a pelo seu verdadeiro nome. Viveu a mudança com o entusiasmo da juventude, mas bem cedo se deu conta da sua enormidade e das injustiças cometidas, que nos relata agora na sua crueza. Eu só posso presumir o que se passou – presunção que é verdade inteira enquanto não se provar o contrário, que nunca se provou – por ter estado fora do país a especializar-me em Pediatria e regressado, com a família, em 1976, transbordante de entusiasmo e de vontade de contribuir para a realização dos ideais liberais, de liberdade de expressão do pensamento e de associação para todos os cidadãos ligados à ideia da independência. Sentia-me militante sem cartão do Partido e acreditava que os amigos que viraram políticos e tomaram o leme da governação comungavam dos mesmos ideais, o que me impedia de ver a realidade e impedia outros amigos do peito que ficaram em Cabo Verde de me contarem as arbitrariedades praticadas, receosos que eu pudesse ser militante fundamentalista delator. Outrossim, a minha tarefa na criação da PMI/PF era de tal forma exclusiva que não me sobrava tempo para outras actividades. Só muito mais tarde é que me fui apercebendo da realidade, mas sem acreditar que os governantes principais estivessem ao corrente das anomalias. Foi a partir daí que botei a mão na pena, embora mansamente e sem meter a boca no trombone para não ferir eventuais inocentes. O artigo mais revulsivo foi produzido em 1988 e levou seis meses a ser publicado no Voz Di Povo, e só o foi por ter ameaçado publicá-lo no Terra Nova, onde falava da nossa socialização da Medicina e da necessidade de se entrar no multipartidarismo. Constou-me que esse número do jornal se esgotou na Praia e houve gente a fazer fotocópias do mesmo.
    Actualmente subscreveria o artigo do José Fortes da Silva, com a ressalva de discordar da sua opinião quanto às intenções da UDC por os seus dirigentes terem estado conluiados com o governo colonial e haver risco neo-colonial pelas posições defendidas por Spínola, e a UPIC não dispor de força para levar avante a sua política. Somente o PAIGC, no contexto revolucionário que se vivia no mundo lusófono, poderia, como fez, levar à independência, e teria tido melhores resultados, causando menos sofrimento a muito boa gente (que classifiquei num artigo às direitas que foi considerada da direita) que foi ofendida, caluniada, forçada a abandonar o país, ou presa por simplesmente discordar da sua política, se os seus dirigentes não se tivessem empolado de arrogância e tornado intractáveis, impedindo-os de ouvir a opinião de pessoas competentes, experientes e idóneas que não militavam no Partido. A infalibilidade, somente papal, e mesmo esta, embora limitada a assuntos de fé, contestável.

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  19. O que questiono é o facto do PAIGC(CV) ter impedido a existência de qualquer partido político que porventura viesse a ser constituído, reclamando para si próprio o direito de ser o único a governar Cabo Verde excluindo quaisquer outras forças que pudessem participar nessa governação, facto que levou a uma ausência de equilíbrio culminando em despotismo, com todas as suas implicações. Este partido que se constituiu num hábil manipulador de massas, não fez mais do que trair os ideais de liberdade e a confiança que o povo nele tenha “talvez” depositado.

    Matrixx

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