domingo, 8 de fevereiro de 2015

[7761] - PERCURSOS DA MEMÓRIA...

Tchalé Figueira
Sentado neste banco aqui na Praça Nova, vendo carros e pessoas passando, de repente sinto o chilrear de pardais nas acácias rubras da índia, me vem a mente, aquele dia remoto na Ribeira de Julião. A cidade do Mindelo da minha infância, nada mais era, do que uma pequena coisa com algumas ruas e becos sem luz eléctrica, com ferros espetado no alto das esquinas, onde um empregado da Câmara Municipal, após o por do sol, as seis da tarde, subia umas lanternas acesas, e acrianças hipnotizadas pela luz, gritavam a medida que o senhor içava os candeeiros – Té logo… té logo… té logo!... O porto Grande com a sua baía em semicírculo, estava sempre repleto de barcos, que vinham de todas os portos distantes, também o Mindelo com os seus grandes depósitos de carvão dos ingleses da Miller and Corys, uma faina de homens mulatos e negros cardidos de carvão, labutando nas grandes lanchas, que abasteciam vapores fundeados para abastecimento, também água e víveres, abastecidos por Shipchandlers que, com seus botes de seis remos, informados pelos telegrafistas subornados das companhias Telegraf e Italcabo, informava-lhes a chegada de barcos no Porto Grande e, toca puxar na voga, seja dia, seja noite e, o mais destro e veloz dos botes, ao chegar no costado dos barcos ainda em marcha, o fornecedor ou representante da casa dos Shipchandler, num megafone de lata, grita em vários idiomas o nome da sua firma, e lembro do meu pai contar-me que uma vez, o nosso bote e o bote de um concorrente, na disputa de um barco carvoeiro inglês, ambos levantaram o megafone em simultâneo, e, pelo júbilo de papai, o seu antagónico engasgando numa tosse que não parava, pode assim a casa Figueira anunciar os seus préstimos ao comandante do barco inglês, com os marinheiros do nosso bote morrendo de riso, do outro, que tossia e tossia sem parar.
Estranho é a mente de um ser humano, é igual a um rio que corre, de um momento a outro, pensamento vem, pensamento vai, é basta abrirmos a torneira do subconsciente, eles jorram sem parar.
Caramba! Bem remoto aquele Mindelo dos tempos em que bengala dava tiros e, de tanta fartura, diziam a pessoa, que, amarrava-se cachorros com linguiça?… ahahha, este humor de gente de São Vicente, estes cosmopolitas por excelência, Reis do Carnaval, das festas e piqueniques, bairros de proletariados explorados, tísico pelo pó de carvão, bairro do Lombo com as suas putas, seus músicos de viola e bico, bancho e tamborim, suas coladeiras sarcásticas, muitas vezes maltratando nos versos as mulheres… em fim!... Não é o Mindelo de hoje com um Carnaval completamente abrasileirado, com plumas e sambas em vez das coladeiras e bailes no cinema Eden Park com as mulheres vestidas de zorro, iam muitas vezes aquecer a sua libido, roçando em homens em bailes lascivo, e os patetas pagando-lhes pastas de chocolate e bebidas, pensando que já estava no papo, elas no final do baile, alegando ir mijar, fugiam para as suas casas e os gajos todos de colhões inchados … Outros tempos! Outros Tempos!...
Mas, não vou desviar-me, da minha aventura na Ribeira de Julião, tamanho foi o susto. Ribeira de Julião da minha infância, na minha percepção de garoto, ficava bem longe, hoje, com um táxi, chego lá em dez minutos. Naquele tempo, para lá chegar, tinha que passar pela Chã de Cemitério, sem casas, repleto de tarafes e charuteiras, arbustos que a noite, nos dias de vento, vergando, pareciam a almas de outro mundo chamando as pessoas, e há muitas histórias de bêbados e não só, que desataram a correr com medo das árvores. Hoje, há luz por todos os lados, almas penadas, canilinhas, e capotonas, desapareceram da ilha. ..
Após Chã de cemitério, tinha que passar pelo medonho cemitério dos ingleses, depois mais a frente pelo cemitério dos nativos e portugueses, mais a frente era só mato e hortas onde entrava e, sem viva alma a ver, caminhava sozinho, com centenas de pardais cantando nas árvores. Com uma fisga, feito com tiras de pneus de borracha e um pedaço de couro amarrado numa forquilha, caçava os pobres animais, coisas de jovem, naquele tempo não tínhamos a consciência que, matar os alegres pássaros era ruim… outros tempos, outras coisas.
Nesse dia, sem autorização do meu pai que andava a fornecer barcos e da minha mãe, em tarefas domésticas, saio de casa com a minha fisga debaixo da camisa, sorrateiramente vou desviando das pessoas, toda a gente me conhece todos sabem quem são os meus pais. Evito as pessoas, atravesso a Salina, num sol abrasador passo pela Chã de Cemitério, faço o sinal da cruz ao passar pelos cemitérios, sinto um suor quente caindo da minha testa, na estrada de terra vou apanhando pedrinhas que meto no bolso, servem de bala para atirar aos pardais. No matagal cerrado não penso encontrar pessoas, o silêncio é apenas quebrado pelo ruído dos pássaros e as vezes, pelo apito bem longe de um barco na baía do Porto Grande. Tirando a fisga do bolso tento caçar alguns pardais, mas a minha pontaria neste dia é desastrosa, eu que sempre tive boa pontaria. Com o sol a derreter-me, caminho dentro da grande horta dos Pereiras, de repente vejo um poço onde os pássaros nuns buracos fazem seus ninhos. Resolvo descer para apanhar ovos no abrigo das criaturas. Como diz o velho ditado Indiano, “ Diabo e crianças” nunca se sabe, o que irão fazer”. Agarrando nas pedras do poço, vou descendo com cuidado, meto os pés em buracos e pedras salientes, o poço é profundo, se cair lá em baixo, morro. Suando desço até meio caminho, encontro um ninho, segurando com uma mão uma pedra, meto a mão no ninho, tento puxar os ovos que lá estão, a coisa está difícil, puxo bruscamente, minha mão saindo do buraco, sinto que caio de costas, sei que vou morrer estatelado no fundo do poço, são fracções de segundos, parece que alguém empurra-me nas costas, regresso a onde estava, consigo agarrar nas parede do poço, com o coração a latejar desenfreadamente subo, logo, no meio de árvores e espinhos que ferem-me a pele, saio da horta, vou para a casa, em quando o diabo esfrega um olho. Não conto nada do sucedido, pois, vai o meu pai saber, era sova garantido, daquelas que um, toda a sua vida, jamais esquece.
Pensando ser senhor do meu segredo, na boquinha da noite, uma velhota vem bater a nossa porta, minha mãe abre o portão, a senhora sem cumprimentar, dispara: Vim aqui minha senhora… Por favor, não deixem o menino ir a Ribeira de Julião sozinho, ele quase que morria esta manhã num poço, na horta da família Pereira...
Minha mãe pergunta-me se é verdade, nego, a velha vai-se sem despedir, nunca mais vi a velhota, até hoje pergunto: Se não havia ninguém naquele lugar, ninguém viu-me a descer par o poço, tenho a certeza que ao cair de costas, alguém empurrou-me, consegui agarrar nas pedras e subir?… Mistério!!!!! Mistério!!!!!!

3 comentários:

  1. É uma estória deveras "sabim", daquelas que lemos e relemos com gosto porque nos revemos nas mesmas tropelias e irreverências. Eu também, aos 11 anos, por duas vezes escapei quase por milagre do que poderia ter sido morte certa, ambos os episódios relacionados com o risco de afogamento, num caso, também um poço, noutro, o mar.
    Nesta narrativa do Tchalé, fica por esclarecer o mistério da mão que o "empurrou", restabelecendo-lhe o equilíbrio subitamente perdido. Ele há coisas!
    Só não percebo uma coisa sobre a memória do Tchalé a respeito da cidade da sua infância. Sou mais velho que ele, segundo penso, e na minha meninice havia muito que os candeeiros de que fala tinham passado à história. A energia eléctrica já alumiava os poucos candeeiros públicos e as casas de quem podia pagar o seu custo. E também a"morada" já era muito mais do que ele descreve. A não ser que o Tchalé, como artista e homem de imaginação criativa, tenha feito uso de um avatar, cruzando e unificando tempos diferentes sob um único olhar, o da sua pessoa. Mas isso importa bem menos que o encanto desta estória.

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  2. Gostei do texto. Felicito o autor.
    Uma descrição e narração interessantes de um tempo sãovicentino.
    O passado nostálgico e belo na memória versus presente que algo estragou nalguma inocência e alegria naturais que emanavam do Carnaval.
    O final completamente inesperado enriqueceu o seu conteúdo com o toque esotérico e bem ao gosto dos mistérios que outrora participavam das falas e da vida da gente mindelense.

    Abraços
    Ondina

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  3. Tchalé foi rbuscar esta história num cantinho recôndito da sua memória onde episódios da sua infãncia percorrem o pano de fundo: soncent da sua/nossa infãncia

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