segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

[7762] - DO FOLCLORE DE CABO VERDE...


                                   Do “Folclore Caboverdeano”, de Pedro Monteiro Cardoso

Entre mãos o Folclore Caboverdeano, de Pedro Cardoso, numa edição de 1983 da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris, que me foi enviado pelo amigo e conterrâneo Luiz Silva, por lhe ter falado no nosso poeta foguense. A primeira edição desta obra tem a data de 1933, em vida do autor.
Conheci a poesia do sagaz e acutilante polemista de leitura de alguns dos seus poemas, de referências ao seu jornal, O Manduco, de outro foguense, já falecido, o amigo Danilo Avelino Henriques, por volta da década de cinquenta/sessenta, e através do meu pai no livro O Processo de Hermano de Pina, subsídios para a história da fome em Cabo Verde - que me encarreguei de publicar ao encontrá-lo nas suas papeladas após a morte – onde cita o amigo que definia o administrador colonial da Ilha do Fogo, Dr. Gouveia e Melo, mais conhecido na ilha sob o nome de miliciano, de grande Tartufo.
Apraz-me realçar o valor desta obra de Pedro Cardoso, mormente para a nova geração de patrícios que a desconhece, e mesmo para os menos jovens, pois eu próprio, embora sabendo da sua existência, ainda não a tinha lido. Refiro-me, particularmente à edição da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris, pelo interesse da bem documentada introdução do Luiz Silva e do prefácio do escritor português Alfredo Margarido, peças fundamentais para a compreensão da época e contexto em que o poeta, polemista e professor primário foguense viveu. A introdução e prefácio dão-nos um manancial de informações históricas sobre a emigração cabo-verdiana para os EUA, a África (desconhecia que, já em 1866, se enviaram para a Ilha do Príncipe 1.000 cabo-verdianos, tendo a grande maioria morrido de paludismo e doença do sono) e Europa, sobre a evolução do ensino em Cabo Verde desde a Monarquia, passando pela 1ª República e pelo chamado Estado Novo, a história da introdução da tipografia em Cabo Verde (1842) e noutras colónias, a acção dos chamados nativistas (nacionalistas de boa têmpera e cepa), a criação de sindicatos e de organizações associativas (o primeiro sindicato agrícola criado em S. Nicolau em 1917), etc.
Luiz Silva não me enviou o texto de Pedro Cardoso, por só dispor de um único exemplar e recear perdê-lo. Lembrei-me, então, do bom amigo Daniel Nunes, badio de Santa Catarina, com a sua monumental biblioteca de livros versando assuntos africanos, quarenta e tal mil volumes, alguns de data recuadíssima, além de máscaras, estatuetas de vários tipos, peças arqueológicas únicas e pinturas que transformaram a sua residência, construída sob gestão directa, num autêntico museu. Foi aí que fui encontrar o Folclore Caboverdeano de Pedro Cardoso, e ainda beneficiei de um breve briefing do Daniel sobre o seu relacionamento com Alfredo Margarido e das peripécias da sua vida até se radicar em Paris. O jornal Público de 28 de Dezembro incluiu uma longa entrevista de duas páginas com Daniel Nunes e a SIC prometeu transmitir um programa sobre a mesma biblioteca.
Estas breves linhas pretendem tão-somente chamar a atenção para a necessidade urgente de reedição desta obra com a introdução e prefácio da edição da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris. O texto de Pedro Cardoso é interpretado e valorizado pela citada introdução e prefácio, pela simples razão de Luiz Silva ter sido emigrante que se converteu em sociólogo e conhecer, por isso, profundamente os problemas da emigração e da sua terá natal, um lutador perseverante, de longa data, em defesa dos direitos dos emigrantes, infelizmente muito mal escutado pelo poder; Alfredo Margarido, escritor português, conhecedor da história, literatura e sociedade cabo-verdianas, cuja integridade intelectual, cultura, competência e motivações políticas o forçaram a abandonar Portugal e a radicar-se em Paris. Amigo íntimo do Luiz Silva, que o guiou na sua qualificação universitária, conheci-o em S. Vicente, aquando de uma homenagem ao Mestre Aurélio Gonçalves, João Cleofas Martins e Sérgio Frusoni, por altura de um dos seus aniversários, pela Academia de Estudos de Ciências Comparadas (AECCOM), fundada pelo professor João Manuel Varela, com colaboração minha e até participação na revista Anais da Academia.
Deixo à curiosidade de eventuais leitores a obra de Pedro Cardoso, a primeira, que se conhece abordando a etnografia de Cabo Verde. Professor primário formado no famoso Seminário-liceu de S. Nicolau, com uma formação sólida em Português, Latim e noutras matérias que lhe permitiu intervir activa e corajosamente em defesa do seu país e povo, talvez o primeiro poeta de língua portuguesa a citar Karl Marx num dos seus poemas. Um exemplo para a geração actual um tanto amolecida e amedrontada pelas sinuosidades da governação nacional. Viveu no tempo em que se lia e se escrevia, ciente de que a escrita é sempre para os outros e uma manifestação de intervenção cívica, ao contrário da actualidade em que o ideal é a televisão, as redes sociais, o SMS. Hoje habita-se o território do lugar-comum e alimenta-se, acriticamente para não cansar a cabeça, de doses fartas de telenovelas medíocres e das “reflexões“ de comentadores políticos, económicos, futebolísticos e de outros produtores do pensamento único. A figura que domina a cena social, como bem diz o poeta e escritor José Fanha, é a do analfabeto secundário, que aprendeu a ler e a escrever mas diz, com frequência, não dispor de tempo para ler por ter coisas mais importantes para fazer.
A variedade de temas versados no Folclore de Pedro Cardoso – história de Cabo Verde, variantes do crioulo, noções elementares de gramática, glossário, etc, na 1ª Parte; cancioneiro, crioulo de Santiago, batuque, cimbó, finaçon, etc. na 2ª Parte; Apêndice com letras de mornas; In-memorium: António Cortez, Eugénio Tavares, etc. – encanta qualquer leitor e até intriga pelo manancial de conhecimentos do autor numa época tão recuada e em meio acanhado.
Bom seria que a nossa embaixada em Paris, redimindo-se de pecados antigos e menos antigos por omissão, proporcionasse um patrocínio significativo para a reedição desta obra.

Lisboa, Janeiro de 2015                                                                  Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                                (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

3 comentários:

  1. Oxalá ouçam a tua sugestão, Arsénio, e reeditem a obra de Pedro Cardoso. Nunca a li mas muito gostaria de a ler, sobretudo depois de sentir o entusiasmo com que a analisas.
    Realmente, os tempos actuais, como bem dizes, são de um triste e censurável retrocesso em hábitos de leitura. Longe vão os tempos em que os actuais meios de comunicação não disputavam a primazia do nosso tempo. Eu próprio sinto esse efeito, embora se reconheça que a net nos proporciona um acesso sem precedentes à consulta de dados, poupando-nos imenso tempo de procura nas bibliotecas. Mas o panorama mais triste é o dessa indigência de que falas, esse predomínio de gente quase analfabeta que pontifica no jornalismo televisivo e nos comentários do óbvio. Estou numa altura em que sinto que poucos colunistas justificam que perca o meu tempo a ler o que escrevem. Tirando os antigos, os mais velhos, o que vemos é um simples exercício de falsas aparências disfarçadas, e nem sempre disfarçáveis, com recursos alheios tomados de empréstimo. O pior é a sensação de que ninguém arrisca ser ele próprio, ter uma opinião livre e independente, como se houvesse receio de perder o estipêndio ou a oportunidade do tacho oferecido pelos que momentaneamente estão na mó de cima.

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  2. Mais um texto do grande Mestre agora com esta extraordinária análise e revisão da obra de Pedro Cardoso. Saravá

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  3. Assíduo leitor deste blog onde me encontro "em casa" bem como no "Praia de Bote", procuro dar a minha opinião sempre que possível, muitas vezes evitando ser o primeiro para que não seja chamado de "fominha". Todavia confesso que não me sinto à vontade em criticas literárias; quando me delicio fico pasmado e foi o caso desta obra.
    Pode não ser correcto de passar sem "flà mantenha" (acabo de apanhar do Luiz...) mas ousar falar de Mestres apresentado por bodonas não é comigo. Sinto-me mais à vontade noutros géneros. Cada um se desenrasca como pode.
    Relativamente ao poeta foguense tenho a dizer que o descobri há anos, depois do exílio, graças à gentileza do amigo Luiz Silva, editot. Amante de poesia, passei momentos deliciosos, tendo, regularmente, revisto até que... perdi a obra que se encontra algures, mal classificado.
    Pedem uma segunda edição do livro. Se isso suceder comprarei dois ou três volumes para brindar amigos franceses, luso falantes, que desconhecem a maior parte da nossa literatura.

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