quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

[7804] - ERA UMA VEZ, ANGOLA...(49)


Retomando o fio à meada, recordemos que era noite fechada e, acompanhado do Chefe Cardoso de Mattos, lá estava eu a encetar uma viagem de cerca de 1.074 km, entre Cazombo (Moxico) e Malange...
O percurso incluía escalas em Vila Teixeira de Sousa,  Luso, Kuito, Andulo, Mussende, Xá-Mutaba e...chegada a Malange...
Segundo as estimativas do Mário Matos, uma viagem normal entre V.T.Sousa e Malange (mais ou menos 830 km) era coisa para cerca de 10 horas de caminho, já que o percurso entre V.T.Sousa e o Kuito seria feito pelo Caminho de Ferro de Benguela o que, para as estradas da época, até era capaz de ser algo optimista...Aliás, veio a provar-se que, afinal, era...irrealista!
O percurso entre Cazombo e V.T.Sousa decorreu sem incidentes dignos de referência a não ser que, como habitualmente, o repelente de insectos se mostrou perfeitamente inócuo no combate às arremetidas dos mosquitos que nos acompanharam durante longas 6 horas (para fazer 25o km...)! Eram quase 7 horas da manhã quando estacionámos frente ao Hotel Términus, sedentos, suados e estafados de tantos solavancos a bordo de um dos Jeeps recuperados  dos confrontos entre os Aliados de Montgomery e o Afrika-Korps de Romel, no norte de África, durante a II Grande Guerra...
Lavado de fresco,  "matabichado" e de roupa lavada, eram cerca das 11 quando, ao som dos apitos roufenhos do combóio lancei um ultimo aceno ao Mattos e ao cabo de cipaios Caputula e foi com aquele aperto no estômago que eu bem conhecia que me sentei e recostei no assento de napa, olhando sem ver o casario que ia desfilando pela janela do comboio, como cena de um filme já visto mas de final incerto...Daí a cerca de 400 quilómetros - mais ou menos 5 horas de viagem (!) - estaria no Kuito e algo me segredava que seria aí que as coisas se íam complicar...
Embalado pelos gingar da carruagem acabei por adormecer, num sono inquieto de que acordei sacudido pela brusca travagem da locomotiva...Estiquei o pescoço através da janela a tempo de me maravilhar com o espectáculo de uma manada de elefantes atravessando a linha, pachorrentamente, ignorando por completo a máquina e as dez carruagens do comboio ora imobilizado pelo majestático desfile! Estas imagens são daquelas que, depois, nos acompanharão para o resto das nossas vidas...(Continua)

6 comentários:

  1. Um maravilhoso espectáculo! pode-se imaginar... Felizmente que o texto continua. O que terá acontecido a seguir?
    O que tem vindo a contar-nos e a descrever é mesmo de um tempo e de um contexto que ainda bem que foram resguardados pela memória

    Abraços
    Ondina

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  2. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  3. Ler isto é como sentir a África bem pertinho de nós, com a sua natureza viva e sensual a entrar-nos por todos os poros. Eu diria que graças a Deus tive um bocado disto na minha vida, não fora alguma má lembrança a toldar o pano de fundo da memória. O Zito tem na verdade um especial talento para falar de África. Talvez porque fala em primeiro lugar o coração.

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  4. E não é que este fundo musical de violão é bem adequado para estas evocações?

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  5. Meus amigos, aprecio de forma especial, estes bocadinhos pois constato que há quem não fique indiferente a uma história de amor, como muitas outras...Não sei quantas pátrias nos é permitido honrar, aínda que a niveis emocionais de diversas índoles...Nem sei se esta permanente atracção por tantos lugares e tantas gentes fará de mim um desses "cidadãos do mundo" que tanto invejo! Mas, entre o meu berço, Angola e Cabo Verde (S.Vicente, sobretudo...) o meu coração não balança, apenas ama como, acho eu, se deve amar: sem esperar nada em troca...É um estado de sedução plena, vivida, sentida, assimilada com uma sede insaciável, permanente, de náufrago a resgatar das suas escassas máguas...Obrigado, por me acompanharem nesta viagem que eu repetiria uma e outra vez, eternamente, até à consumação dos séculos...
    Braça
    Zito

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