quarta-feira, 4 de março de 2015

[7853] - M E M Ó R I A S ...

Cristóvão Falcão de Sousa terá nascido em Portalegre entre 1515 e 1518 de uma família nobre. Seu pai era cavaleiro, tendo servido como capitão na Mina. Foi educado a partir dos nove anos no Paço, onde aprendeu as belas-artes. Por ter casado com uma menor em segredo, foi condenado e preso no castelo de Lisboa. Saído da prisão cinco anos depois, procurou a sua amada em Lorvão, começando entretanto a escrever o poema Crisfal, onde canta a arrebatadora paixão que o tomara. Em 1542, o rei D. João III, para evitar mais escândalos, enviou-o a Roma como seu agente particular. Regressado ao reino, é despachado em 1545 como capitão da fortaleza de Arguim, na África. Regressou a Portugal em 1547, tendo sido novamente preso devido à agressão a um fidalgo. Em 1551 obtém uma carta de perdão. Terá casado em 1553 com Isabel Caldeira, não se conhecendo mais nada sobre o que depois lhe sucedeu.

A écloga Crisfal (criptónimo de Cristóvão Falcão?) foi publicada de 1543 a 1546 numa folha volante. Em 1554, é publicada em volume por Ferrara. Em 1559 teve uma edição em Colónia baseada na de Ferrara. A. Epifânio da Silva Dias organizou a edição de 1893 e o brasileiro Sousa da Silveira a de 1933.

Até 1908 era opinião unânime de que a obra fora escrita por Cristóvão Falcão. Nesse mesmo ano, Delfim Guimarães publicou o livro Bernardim Ribeiro, o Poeta Crisfal e no ano seguinte Teófilo Braga e a Lenda do Crisfal, em que tentou demonstrar que o autor do écloga era Bernardim Ribeiro e não Cristóvão Falcão. No entanto, estudos mais recentes reafirmam a autoria de Cristóvão Falcão. (Projecto Vercial)

Desde os tempos áureos do Liceu Gil Eanes - já nem sei em que ano lectivo - que perdi o rasto a este assunto que, na altura, me empolgou, não sei se pela beleza do poema se pela sua extensão - mais de 1.000 versos - naquele português castiço de quinhentos quando as caravelas andavam por aí a "escrever" os Lusíadas, Cristóvão queimava as pestanas a escrever "Crisfal" uma epopeia romântica, quase ingénua...

1

Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n'água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.

2

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam
que o dia que não se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

E, por aí fora!...

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