sexta-feira, 6 de março de 2015

[7861] - DE NOVO O (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO...


Editorial do "Jornal de Angola" sobre o Acordo Ortográfico

 Património em risco


"Os ministros da CPLP estiveram reunidos em Lisboa, na nova sede da
organização, e em cima da mesa esteve de novo a questão do Acordo
Ortográfico que Angola e Moçambique ainda não ratificaram. Peritos dos
Estados membros vão continuar a discussão do tema na próxima reunião
de Luanda.

A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste
ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses,
macaenses, moçambicanos, timorenses, goeses ou brasileiros. E nenhum
país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes
ou uma indústria editorial mais pujante.

Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua
Portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de
Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as
diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil
comércio das palavras assim o exige.

Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais
respeitáveis que sejam, ou às "leis do mercado". Os afectos não são
transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos.

Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa
confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.

Pedro Paixão Franco, José de Fontes Pereira, Silvério Ferreira e
outros intelectuais angolenses da última metade do Século XIX também
juraram amor eterno à Língua Portuguesa e trataram-na em conformidade
com esse sentimento nos seus textos. Os intelectuais que se seguiram,
sobretudo os que lançaram
o grito "Vamos Descobrir Angola", deram-lhe uma roupagem belíssima, um
ritmo singular, uma dimensão única.

Eles promoveram a cultura angolana como ninguém. E o veículo utilizado
foi o português. Queremos continuar esse percurso e desejamos que os
outros falantes da Língua Portuguesa respeitem as nossas
especificidades.
Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos
as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as
palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais. Sabemos
que somos falantes de uma língua que tem o Latim como matriz. Mas
mesmo na origem
existiu a via erudita e a via popular.
Do "português tabeliónico" aos nossos dias, milhões de seres humanos
moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas.

Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que
se tratam as preciosidades.

Queremos a Língua Portuguesa que brota da gramática e da sua matriz latina.
Os jornalistas da Imprensa conhecem melhor do que ninguém esta
realidade, quem fala, não pensa na gramática nem quer saber de regras
ou de matrizes.
Quem fala quer ser compreendido. Por isso, quando fazemos uma
entrevista, por razões éticas mas também técnicas, somos obrigados a
fazer a conversão, o câmbio, da linguagem coloquial para a linguagem
jornalística escrita. É certo que muitos se esquecem deste aspecto,
mas fazem mal. Numa entrevista
até é preciso levar aos destinatários particularidades da linguagem
gestual do entrevistado.

Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não
tivesse acentos ou consoantes mudas.

O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a
mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas
se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que
herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver
facilidades e muito menos negócios.
E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português.

Neste aspecto, como em tudo na vida, os que sabem mais têm o dever
sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos.

 Nunca descer ao seu nível. Porque é batota!

Na verdade nunca estarão a esse nível e vão sempre aproveitar-se
social e economicamente por saberem mais. O Prémio Nobel da
Literatura, Dário Fo, tem um texto fabuloso sobre este tema e que
representou com a sua trupe em fábricas, escolas, ruas e praças. O que
ele defende é muito simples:

o patrão é patrão porque sabe mais palavras do que o operário!

Os falantes da Língua Portuguesa que sabem menos, têm de ser ajudados
a saber mais. E quando souberem o suficiente vão escrever
correctamente em português.
Falar é outra coisa. O português falado em Angola tem características
específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única
e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os
falantes.

Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou
em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas
diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é
"contaminada" pela linguagem
coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma
grafia, não é aceitável que, através de um qualquer acordo, ela seja
simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português
seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar
a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras."

Quando escrevo, os meus mails são redigidos em profundo desacordo e
intencional desrespeito pelo novo Acordo Ortográfico!

(Sugestão de Adriano M. Lima)

3 comentários:

  1. Para mim nem acordo ortográfico é. Uma autêntica confusão isso sim. Não aplico nem nunca aplicarei este acordo

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  2. É surpreendente ver nos angolanos uma atitude mais lúcida e mais responsável sobre este assunto.

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  3. ////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
    LUSOFONIA: (DES)ACORDO ORTOGRÁFICO
    Editorial do "Jornal de Angola" sobre o Acordo Ortográfico
    """Património em risco""""
    /////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
    Andámos distraídos com a questão da 'Oficialização' do 'Crioulo' e do ALUPEK, mas o ArrozCatum publicou há dias um muito interessante artigo, que é um Editorial do "Jornal de Angola" sobre o ACORDO ORTOGRÁFICO ou o DESACORDO ORTOGRÁFICO (dependente da perspectiva reaccionária ou revolucionária), de facto (ou melhor, 'de fato' se usar o novo acordo), um verdadeiro ALUPEK à escala global, ou seja da LUSOFONIA. Como sabem Angola tem sido muito crítica em relação a esta Reforma da Língua Portuguesa, língua que é considerada um Património Angolano, e o editorial reflecte esta posição com o título acutilante:
    ""Património em risco"""
    'Bonne Chance' Angola nesta luta pois aqui estamos noutra luta. temos um 'problema de trazer para casa ' o ALUPEK, a confusão da Oficialização do 'Crioulo', ou seja, na prática a adopção da versão de Santiago, vulgo Badio', como língua oficial, para além da ameaça da erradicação pura e simples da língua portuguesa de Cabo Verde, um projecto muito caro aos fundamentalistas

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