terça-feira, 31 de março de 2015

[7951] - D'RIBA D'ÁGA DE MAR...

NOTA PRÉVIA - Iniciamos hoje, com o primeiro de três capítulos, a publicação de um trabalho de Adriano Miranda Lima que bem poderia chamar-se  História Trágico-Marítima do Povo Cabo-Verdiano...
Aquela necessidade de "querer ficar mas ter de partir", essa vocação para a aventura, esse chamamento permanente do mar na vida dos ilhéus hesperitanos, parece espelhada numa sentença que recentemente li no Blogue da amiga Nouredini, de Salvador da Bahia:

Se algo de bom acontecer,
Faça uma viagem para comemorar!
Se algo de mau acontecer,
Faça uma viagem para esquecer!
Se nada acontecer,
Faça uma viagem para que algo aconteça!

Mas, melhor do que tudo isso, ouçamos Adriano Miranda Lima...

...oooOooo...

...O MAR E A AVENTURA NA MEMÓRIA E NA IDENTIDADE DO POVO CABO-VERDIANO


I CAPÍTULO

S.Vicente de outrora e o seu Porto Grande
 Há dias, quando desfiávamos a memória sobre aquelas coisas puras e essenciais que partilhávamos na nossa infância, criando cumplicidades e amizades inesquecíveis, o meu amigo Luiz Silva fez-me um convite. Escrever alguma coisa sobre os naufrágios que marcaram tragicamente a rota do marinheiro cabo-verdiano nas suas andanças pelo mundo fora. É um encargo que não dispensa um certo trabalho de pesquisa, como é evidente. Convenhamos que longe da terra e privado de registos bibliográficos e/ou de testemunhos orais que ainda sobrevivam dos tempos áureos das viagens marítimas, não me é fácil abordar um tema desta natureza sem, com efeito, mergulhar em fontes concretas para aí colher factos que ajudem a debuxar minimamente os contornos de uma “história trágico-marítima” cabo-verdiana, ainda que não se trate propriamente de uma abordagem historiográfica, tarefa certamente mais indicada para especialista. Assim, resta-me pegar o tema de uma outra maneira, mais de acordo com as minhas actuais possibilidades, conferindo-lhe outra latitude, ou seja, falar desse mar imenso que aprisiona o cabo-verdiano nas suas ilhas como uma camisa-de-forças, mas que, simultaneamente, lhe desperta o instinto marinheiro e lhe escancara as portas para a evasão, rumo a um destino mais promissor, quantas vezes para encontrar a morte. Não podendo elucidar este trabalho com bastantes casos concretos, não deixarei de citar, contudo, um ou outro episódio que seja paradigma do longo e acidentado trajecto do povo cabo-verdiano sobre as águas do mar (d’riba d’aga d’mar).
    Está por contar a “História Trágico-Marítima” cabo-verdiana, uma história que não será movida por intenções apologéticas e muito menos de exaltação patriótica, mas uma história que se costurará na realidade crua de um povo cuja principal riqueza é ter o mar ali à mão de semear para sobre as suas águas procurar o sustento, rasgar destinos, acabando muitas vezes por nelas ter a sua mortalha.

Navio Ernestina
O cabo-verdiano, como todo o povo ilhéu, nasce e vive rodeado de mar, maravilhando-se com a sua grandeza, o seu amplexo e os seus mistérios, extasiando-se com os líquidos horizontes espaciais em cuja lonjura os seus olhos se perdem para se reencontrarem em sonhos infindos. Tudo o que o mar representa, desde criança começa a influenciar o seu espírito. O mar é símbolo da fecundidade e vida, e é também uma das grandes metáforas do amor. Mas ele é também o rosto façanhudo do perigo e da morte com as suas águas tempestuosas e letais, altura em que tomamos consciência da insignificância e da transitoriedade do ser. Se a sua paisagem líquida se comporta serena e repousante, o espírito logo sente o inebriante convite para o devaneio, a exaltação romântica e a meditação. Se as suas águas se tornam revoltosas e ameaçadoras, logo se nos representa alegoricamente a força convulsiva das violentas paixões que invadem e naufragam os corações humanos. O próprio vaivém pendular das ondas desperta-nos para a efemeridade da existência, aferindo a marcha inexorável do fluir do tempo que passa e não volta mais, e que nos mergulha em sentimentos como a ansiedade, a nostalgia e a saudade. 
    Esta circunstância geográfica, exercendo forte influência antropológica, explica um reportório popular do povo das ilhas abundante de estórias, lendas e mitos, grande parte inspirados no mar e seus mistérios. Crianças, ouvíamos à boquinha da noite contos sobre naufrágios em que apareciam oportunas toninhas e sereias a salvar os marinheiros do risco de afogamento. Naquelas estórias, quase sempre com um fim feliz, conseguiam os náufragos sobreviver dias e noites boiando em cima de uma tábua ou destroço de navio naufragado, até afortunadamente surgir um navio salvador ou a vista retemperadora da terra. Até a história bíblica de Jonas dentro da barriga da baleia é perfilhada na tradição do conto oral, com adaptação ao contexto da aventura marítima cabo-verdiana. Esta é a expressão do imaginário popular, que se constrói a partir da realidade tal como ela é, com os seus momentos felizes e nefastos, com as suas esperanças e frustrações, a influenciar a alma e a natureza do povo. 
    Da tradição oral transpomo-nos para a literatura e outras formas de expressão estética sobre a temática do mar. Pese o rico repertório popular, a literatura cabo-verdiana sob a forma de romance estranhamente não debruça muito sobre as viagens marítimas e suas incidências, com única e honrosa excepção para Teixeira de Sousa. Este escritor, com o seu romance, “Ó Túrbidas Vagas do mar”, dizia-me em carta particular, antes da publicação do romance, que “o título foi inspirado na canção do mar do poeta cabo-verdiano Eugénio Tavares, mais conhecida por “Mar Eterno”, adiantando que “se trata de um romance destinado a recriar a época heróica da navegação à vela na ligação inter-ilhas e também na travessia do Atlântico a caminho da América. O romance seria entretanto publicado, como é sabido, e é uma narrativa à altura do melhor que saiu da pena do escritor, mais uma vez deliciando-nos com a sua imensa sabedoria sobre a ciência de navegação à vela. O seu conto “Protesto”, muito anterior ao romance, está na mesma linha e relata o naufrágio do palhabote Ema Helena dias depois de zarpar do porto de Providence a caminho de Cabo Verde. Até mesmo no seu romance “Capitão de Mar e Terra”, este escritor aborda a temática do marinheiro cabo-verdiano, desta feita através do desfiar das memórias de um capitão de longo curso já reformado. Com justiça se pode considerar Teixeira de Sousa o escritor cabo-verdiano que mais se debruçou sobre temas náuticos, fazendo-o com um conhecimento técnico tão amplo, detalhado e expressivo que os especialistas na matéria se quedam surpresos quando o lêem, confessando julgar-se mais na presença de um marinheiro profissional que de um escritor e médico. Tive ocasião de ler um belo  artigo  do capitão de mar-e-guerra da Armada Portuguesa, Conceição e Silva, publicado na Revista da Armada, em que o oficial prestava uma muito significativa homenagem póstuma ao escritor. É sabido que Teixeira de Sousa era filho de um capitão das ilhas, de longo curso, condição que sem dúvida o marcou profundamente, injectando-lhe no sangue aquilo que ele me confessou em carta particular ser a sua “incurável talassofilia”. 
    Na poesia, raro é o poeta cabo-verdiano que não explora a temática do mar, das viagens, da emigração e da nostalgia, focando o dilema do homem que quer ficar na ilha amada mas ao mesmo tempo sente a imperiosa necessidade de partir para longe em demanda dos recursos que a terra pobre não lhe garante, com o mar ali perto a ser o pano de fundo inspirador das suas angústias e dos seus anseios. É o caso de Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Pedro Corsino Azevedo, Osvaldo Osório, Daniel Filipe, Teobaldo Virgínio, entre muitos outros. Mas abordando mais directamente a tragédia de vidas ceifadas no mar, temos o poema de Ovídio Martins “In Memorian de Belarmino de Nho Talefe”, nome de um amigo de infância que morreu nos mares da Argentina. No teatro, Artur Vieira é autor de uma peça intitulada “Matilde”, um navio à vela que desapareceu em Agosto de 1943, cheio de passageiros, a caminho dos Estados Unidos, tragado num furacão. A peça tem como protagonista um jovem da ilha da Brava chamado Bajuca, que não consegue embarcar no navio por não ter chegado a tempo ao cais. Sobre essa peça, o escritor Luís Romano escreve que Bajuca tem a revelação de que “o nosso destino é viajar pelo mar da eternidade, alimentado pela água dos nossos olhos… porque viajar é viver” (1). Existem também algumas mornas dos compositores Eugénio Tavares, B. Leza, Manuel de Novas e Armando de Pina, este autor da morna “Mar é Morada de Sodade”, magistralmente interpretada pelo incomparável Bana.

(1) BRANCO, João, “Nação e Teatro – História do Teatro em Cabo Verde”, Gráfica do Mindelo, Instituto da Biblioteca Nacional e do livro, 2004, pág. 370


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3 comentários:

  1. Das duas uma: ou o sujeito não se quer chatear ou o sujeito nos quer chatear.
    Explicação: ou o escriba adriânico não se quer chatear a ter a trabalheira que é a publicação de um livro (que a é, de facto) ou o dito cujo escreve (e bem que se farta) para nos criar água na boca e depois nunca manda cá para fora o book que devia mandar... eu acho que pessoas como este "escreve-escreve" deviam pagar imposto por cada 100 páginas escritas e não publicadas. E mais não digo e fico à espera do primeiro conjunto de folhinhas cosidas e protegidas por uma capa.
    Será que ele me ouviu?

    Braça esperançosa,
    Djack

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  2. O "AcA" nos anuncia histôrias das que nos embalaram quando éramos meninos e nos sentíamos ansiosos quando começam as "estória estória, fortuna do céu. Amén".
    Não venho comentar o belo texto nem o delicioso poema escolhido pela Nouredini. O autor faz-me voltar aos meus seis aninhos no Alto de Companhia onde o Belarmino era meu vizinho de porta e o Ovídio morava a uns 300 métros, Rua do Telegraph acima.
    Belarmino (por nós tratado de Sportivo) era um moço jovial, elegante, ponderado e desejoso de singrar na vida. Como qualquer jovem ilhéu decidiu um dia sair e escolheu a via mais fácil (clandestino) no barco mais adequando (argentino) para o lugar então sonhado (Buenos Aires). Só que não tendo família que por ele responsabilizasse, foi recambiado no primeiro barco da companhia que tomava o sentido inverso. Mas...
    Não conformado com o regresso, esse grande nadador que ele era, lançou-se ao mar, mais precisamente na enseada La Plata pois sentia-se suficientemente forte, física e moralmente, para nadar até a Baía mas escolheu a popa em vez do bombordo ou o estibordo e foi colhido pelo hélice.
    Belarmino fica eternamente lembrado pelo poema do poeta Ovídio Martins

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  3. Mais um grande Texto do Adriano sobre o tema do mar. É um prazer ler o Adriano pela suas dotes estéticas e literárias

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