quarta-feira, 8 de abril de 2015

[7979] - O DESABAFO DA EX-PRIMEIRA DAMA...

M. Odete Pinheiro
Amor à Terra
08 Abril 2015 (A Semana)

Foi-se o amor à terra! Quase 40 anos após a independência, ficou somente o amor ao EU! Longe vai o idealismo daqueles primeiros tempos, quando tantos voltaram costas a bons empregos no exterior, interromperam cursos superiores, penhoraram o futuro pessoal para correrem para Cabo Verde com o fito de contribuir para levantar e afirmar o Cabo Verde independente.

Médicos ganhavam 13 000, e outros profissionais mediam-se pela mesma bitola. Queriam um país com algum equilíbrio, sem que o rico pudesse rir-se do pobre. Esse era o tempo das utopias, que, diga-se a verdade, mais cedo ou mais tarde tinham de ser deixadas de lado, pois não funcionaram em lugar algum. Mas pelo menos sonhava-se um Cabo Verde diferente!

Agora, fomos para o outro extremo, um extremo vergonhoso. Há anos que se ouve falar de salários exorbitantes pagos a gestores de empresas públicas ou comparticipadas pelo Estado, em que feitas as contas alguns ganham por dia mais do que grande parte da população ganha… por mês! Verdadeiras aberrações num país pobre em recursos tangíveis e que vive da cooperação internacional, das remessas dos seus imigrantes e do pouco que consegue ir produzindo! E o Governo, a despeito da afirmação de que ninguém poderia ganhar mais do que o Presidente da República… nada tem feito para corrigir tal anomalia e foi deixando correr o marfim.

E eis que, seguindo um raciocínio completamente enviesado, de que o salário dos detentores de cargos políticos não é dignificante (em comparação com as tais aberrações), os líderes parlamentares dos dois maiores partidos (e levaram o outro a reboque, para desgraça sua!) chegaram a um acordo com o fim de solucionar o seu problema através de “benefícios” auto atribuídos, que “nada tinham a ver com aumento salarial”, assim disseram e repetiram os tais líderes, a pés juntos e com o ar mais honesto deste mundo.

Bem, honesto para os incautos, pois isto de benefício sobre benefício não ter nada a ver com aumento salarial, só para os artolas! Que o que importa é a quantidade que entra para o bolso no fim do mês, independentemente do nome que se lhe dê! Vai tudo para o mesmo lugar: a conta bancária. E na loja ninguém pergunta se é salário ou subsídio de comunicação, de representação, de visitas aos círculos, de renda de casa, de reintegração, etc, etc. É dinheiro… que sobra a muitos e tanta falta faz a tantos neste país!

E, espantem-se os céus e a terra! Aqueles que quase nunca se entendem, que mesmo nas coisas mais importantes quase andam à bofetada, que se bloqueiam deliberadamente só para contrariar o outro ou fazê-lo sair-se mal, que se tratam mutuamente com toda a arrogância e desrespeito (e ao povo também!), uniram-se para meter a mão no que é de todos os cabo-verdianos, fruto dos impostos arrancados cada vez com mais sanha às empresas e aos particulares (embora digam que não), para se assegurar regalias que mais não são do que um insulto a todos os funcionários deste país que, embora muito mal pagos, garantem o seu funcionamento.

Médicos, depois de estudarem anos e anos (o curso mais comprido de todos), de passarem outros anos até terem uma especialidade, começam, ouvi dizer, com 70 000. O cirurgião é chamado às 4 da madrugada para salvar alguém que se esvai em sangue. Noutra sala, está a obstetra a salvar uma mãe que não consegue dar à luz sem uma cesariana. Outros, além do trabalho regular, de poucos em poucos dias em urgências, de plantão no hospital, longe da família, longe do conforto, presos pelo dever. 70 000 e mais uns pozinhos!

Professores – essa nobre missão de aturar os filhos dos outros e de lhes procurar desbravar a mente, sem a qual seriam todos ignorantes e sem futuro – à espera de dias melhores, de avanço na carreira, de compensação por não terem redução de horário, parados no tempo, suspirando por uma vida melhor. Com uma licenciatura ou com um bacharelato, alguns ganham um terço ou pouco mais de um terço do que os deputados ganhavam ainda antes de se atribuírem os aumentos estrondosos que agora vão ter. E o Governo diz: “O país paga o que pode pagar…” Sim, mas a quem? Há filhos de um Deus maior e filhos de um deus menor, muito menor mesmo, diminuto!

Polícias, anos e anos sem progressão nas carreiras! Guardas prisionais. Profissões de alto risco. À espera…

E que dizer dos enfermeiros, dos estivadores e de tantos outros obrigados a sair de casa todos os dias para servir o país e ganhar, com muito sacrifício, o seu pão? Centrais sindicais reivindicam… o poder de compra vai diminuindo… a inflação só baixa para o INE… nas lojas e nos mercados, a comida para a mesa é sempre a subir. “O país paga o que pode pagar”… responde o Governo.

Cozinheiras nas escolas… levam 6 000 para casa. Uma esmola? Meu Deus, como é possível sobreviver com isso, especialmente se têm filhos e não há pai à vista, como tantas vezes acontece. E mesmo que houvesse? Os contínuos da Escola Industrial e Comercial do Mindelo há meses que não viram a cor ao dinheiro (isto é, da miséria do salário). Como sobrevivem? E o Estado desenfia-se: são pagos pelo dinheiro das propinas, e o dinheiro não tem entrado! Como se não fossem dignos de um vínculo de outro tipo, como se as Escolas pudessem funcionar sem contínuos!

Os idosos, esses seres humanos alquebrados que já não podem trabalhar, alguns ainda conseguem 5 000 de compensação não retributiva, mas têm uma batelada de medicamentos indispensáveis para comprar, pois a farmácia do hospital nem sempre tem! Como fazer? O remédio é tomar dia sim, dia não, ou só enquanto durar, até que venham os próximos 5 000! E aqueles que ainda não estão na lista dos beneficiados? Ouvimos responsáveis dizer que os 5 000 não podiam ser aumentados, como prometido, para se poder expandir a lista! Mas esta continua a mesma, por enquanto… Enquanto o país não pode mais! Será? O país, aparentemente, pode e muito, para alguns!

Mas o IUR de 2008, tantos nem vê-lo ainda. E mais anos vão-se acumulando. Desculpas de mau pagador, umas atrás das outras, procuram justificar o injustificável! Acham que somos todos estúpidos??? E as indemnizações ainda por pagar? Lembram-se de uma coisa que se chamava EMPA? E os terrenos expropriados, aqui e acolá, para estradas, aeroportos, etc.? E o INPS, a quem as próprias Finanças muitas vezes tem deixado de transferir a contribuição para o seguro de aposentados? É chegar à farmácia, e está-se bloqueado no sistema… Contactar as Finanças!

Minha gente, tanto que o Estado deve a tantos. E não quer ou não pode pagar. E nós que pensávamos que era pessoa de bem!

Mas a pílula que nos quiseram impingir em plena TV nacional era de que não haveria aumento salarial, e que os deputados mereciam ser dignificados pelo novo Estatuto de Cargos Políticos. Dignificados? Que noção essa de dignificação? Então a dignidade depende do que se ganha, num país onde o salário dos deputados já era mais do que 12 vezes o salário mínimo? Ou não será que a dignidade vem da postura vertical, da linguagem correcta, da honestidade intelectual, do trabalho produzido… tudo tão longe do que vemos no parlamento? E não devem ser os políticos a dar o exemplo de abnegação e a não querer ganhar o que o país não tem?

Estatuto de cargos políticos! Sim, concordamos que o salário do Presidente da República deva ser actualizado, e talvez alguns de dedicação exclusiva justificada. Mas ter os deputados indexados ao salário do Presidente da República, e na percentagem em que estão? Porquê? Sem outros requisitos (nem sequer de um nível mínimo de educação, nem no sentido antigo nem no actual!) para se ser colocado nas listas eleitorais, além do facto de se ser um cacique partidário, agindo na prática como autênticos funcionários dos partidos, muitos nem precisam pensar por si mesmos, bastando seguir a disciplina partidária e levantar o braço ou levantar-se do assento nos momentos indicados… Não sendo obrigados à dedicação exclusiva, quantos (especialmente os que normalmente vivem na capital) não estão com um pé no Parlamento e o outro… nas suas bancas de advocacia… suas empresas de construção… suas consultorias… suas… enfim, seus grandes biscates… Justifica-se estarem indexados? Nem por sombras! Nem sequer deviam ser eles a determinar o seu próprio salário e regalias! Aliás, a profissionalização obrigatória já foi um grande erro. Deve ser a classe profissional com menos produtividade em todo o Cabo Verde!

Um parlamento que por birra partidária passa anos sem encontrar acordo em assuntos fundamentais, que debate a justiça e a segurança exaustivamente, sem tomar medidas para mudar o estado calamitoso em que estamos, que faz interpelações atrás de interpelações sem que nada fique esclarecido (provas não há, é sempre a palavra de uns contra a dos outros, em quem havemos de acreditar?), que cria comissões de inquérito que não levam a conclusão alguma… não merece qualquer bónus, quanto mais um aumento avultado das suas benesses ou salários!

Mas não! Subitamente, aparecem todos unidos, líderes parlamentares de braço dado, afirmando que o novo estatuto era uma questão de “ética”, que a opinião contrária era demagogia e populismo… que não se tratava de aumento salarial… blá, blá, blá… e aprovam nada mais, nada menos, que um aumento salarial astronómico que os beneficiará a todos! Vergonha nacional! É o que se ouve por todo o lado, neste país e na diáspora.

Pena é que não possamos destituir todos os que se levantaram para aprovar tal lei!

(Sugerido por Valdemar Pinheiro)

3 comentários:

  1. Pela sua cidadania e por tudo quanto disse a Dra. Odete Pinheiro, dou nota màxima.
    A ruptura não é devido a algo de novo; não é bem por causa do malfadado e inoportuno Estatuto nem veio com o ar do tempo. Tudo indica que as linhas da fractura são reais e profundas. Dai as razões múltiplas e estruturais da subida do desespero que obrigaram o pacifico Povo a sair à rua para dar um cartão vermelho e mostrar que Reivindicação é um direito, senão um dever, de todo e qualquer cidadão.
    Cabo Verde necessita de um "renouveau" onde não deve haver a pata dos profissionais da politica que procuram o interesse pessoal e dos "especialistas" auto proclamados que querem engordar o ego. Uns e outros desprezando a raia miúda e desdenham a sua opinião.
    Eduardo Oliveira

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  2. Em boa hora surge esta desassombrada opinião de uma patrícia lúcida e independente na sua visão dos acontecimentos. Este problema aqui denunciado ou é rapidamente atalhado ou pode constituir um perigoso rastilho para uma grande agitação social em Cabo Verde.

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  3. CV está numa situação preocupante: a elite não está ao nível do desafio do país que é maior mais muito maior do que aquilo que querem reduzir. A elite não merece CV, perdeu-se pura e simplesmente. Que fazer é a questão. Uma revolução das mentalidades mesmo silenciosa? Eu já não tenho idade para acreditar nisso.

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