terça-feira, 7 de abril de 2015

[7976] - O GRANDE ESTRATEGA...

João Cleófas Martins


João Cleófas Martins era o nome de baptismo de Nhô Djunga, fotógrafo, com residência e estúdio na antiga Rua do Senador Vera-Cruz que, vá-se lá saber porquê, mudou entretanto de nome, que aqui não refiro porque o não conheço...
Corriam os penosos anos da II Grande Guerra na Europa, e era costume as pessoas ouvirem as últimas noticias da BBC de Londres, não raro locutadas pelo saudoso Fernando Peça, aí pela meia-noite... Para passar as longas horas de espera, após o jantar, Nhô Djunga costumava juntar em sua casa uns amigos para animadas partidas de bisca, entre os quais Nhô Timóteo (1) figura célebre no anedotário mindelense, muito dado a emitir opiniões irrefutáveis sobre todas as coisas e com uma tal convicção que chegava a raiar as fronteiras da esquizofrenia...
Naquela noite de Janeiro de 1944, as noticias, um tanto desanimadoras, davam conta de um certo impasse na chamada Ofensiva das Ardenas, onde Hitler depositava esperanças de dizimar os aliados e poder voltar as suas atenções para  leste enfrentando os russos...O silencio dos ouvintes reflectia algum desanimo que, no entanto, Nhô Timóteo se encarregou de tentar combater, arengando uma jogada estratégica que, segundo ele, contrariaria a aparente supremacia germânica e colocaria as forças aliadas em condições de contra-atacar com êxito e dando aos exércitos russos espaço e tempo para avançarem sobre a Alemanha..
Nhô Djunga ouviu com aparente interesse e algum espanto a "brilhante" exposição e quando Nhô Timóeo terminou, em jeito triunfante e convencido de ter "inventado a pólvora", comentou:
- Timóteo, eu acho que isso é uma jogada brilhante...Devias mandar um telegrama ao Churchill, expondo a tua ideia...
- Achas que sim, ó Djunga?! - inquiriu Timóteo;
- Claro que acho, meu caro...Mas manda um telegrama com resposta paga, ouviste?
- Essa agora! Resposta paga para quê, ó Djunga?
- Para ele te poder mandar à merda!
Nhô Timóteo teria mergulhado de bom grado se o chão se tivesse aberto a seus pés naquele momento, enquanto os parceiros da bisca gargalhavam com gosto...


(!) Nome fictício.


11 comentários:

  1. Caro Zito, alguém lhe enfiou um enorme barrete, já que a Rua Senador Vera-Cruz muito recentemente ainda mantinha o nome dele. A não ser que a mudança tenha acontecido há poucos dias ou poucos meses... Uma brevíssima volta pela Internet deu-me uma série de exemplos que parecem mostrar que o nome de Augusto Vera-Cruz se mantém incólume na velha e simpática rua de boa memória.

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    Braça senatorial,
    Djack

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    1. Se o diz. claro que eu acredito mas iria jurar que já teve outro nome, após a Independencia...como, de resto, consta do post Nº 954 (comentários) do PdB...
      Braça remissivo,
      Zito

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    2. Caro Zito, não se trata de dizer ou acreditar, os exemplos que aqui trouxe é que o dizem e muitos mais há na net. Agora de facto isso sim acredito no que o Zito diz, acerca dos tempos próximos posteriores à independência. O nome pode ter temporariamente ter sido substituído por outro. Mas se assim foi, o discernimento venceu e o Senador também.

      Mais uma braça senatorial,
      Djack

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  2. Quanto às notícias BBCeicas, não são do meu tempo mas consta que eram ouvidas em solitário segredo ou com acompanhamento escolhido a dedo, por causa de uns rapazes de gabardina, chapéu e óculos de lentes redondas, ahahaha que no Mindelo usavam farda (os que davam a cara, porque outros havia que não...).

    Braça pidesca,
    Djack

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    1. Creio que haverá um certo exagero nessa visão pidesca...Primeiro, creio que ainda não havia "pevides" pelo menos no Mindelo e não me consta que a BBC fosse ouvida em segredo...Em casa de meus pais - também na rua Senador Vera-Cruz,- havia suecadas após o jantar e antes do noticiário, que incluíam um sargento do exercito e um capelão militar, de janela aberta para a rua por causa do calor...Nunca vi ninguem de gabardina nas imediações...Outra coisa, no entanto, seria a Rádio Argel...
      Braça em liberdade
      Zito

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    2. Claro que sim, que há exagero (e propositado), sobretudo na gabardina, ahahahaha, coisa que nunca ninguém deve ter vestido em Cabo Verde. Mas quem ouvia a BBC por cá (repito, por cá) nem sempre ficava incólume, segundo tenho ouvido dizer. Era audição sempre mais ou menos secreta, nada como ouvir a Emissora Nacional ou o Rádio Clube, por exemplo.

      Braça sem espiões,
      Djack

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  3. Quanto a nhô Djunga, que não conheci, é pelo que tenho lido e ouvido uma personagem ímpar da cidade do Mindelo e que bem merece homenagens como esta que o Arrozcatum lhe fez. Embora singelas, muito importantes.

    Braça Djunguica,
    Djack

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  4. Breves ou longas, as homenagens ao Nhô Djunga são bem merecidas. Homem muito falado por ser filantropo mas nunca lembrado pelo nùmero de profissionais que formou no seu ateliê da Rua Senador Vera Cruz.
    Zito nos lembra do Peça que foi imenso como locutor mas nunca esqueci outro cujas noticias das 20,00 Hs, também da BBC, eram ouvidas num silêncio de catedral na sede do Derby. Era o brasileiro Lé Ramos de Carvalho que recusou ser substituido ou repatriado em plena Guerra o que lhe valeu a admiração dos luso-falantes... e não so !
    Foi na II Guerra Mundial mas nunca devemos esquecer "os que tanto fizeram para tão poucos" (relativamente) tanto para refrescar a nossa memôria como para ensinar os mais jovens.
    Que vivam os bons !

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  5. Confirmo que naquele tempo essa polícia se chamava PVDE, só passando a chamar-se PIDE a partir de 1945. Seja como for, ela não estava instalada ainda em Cabo Verde, mas devia haver uma ligação qualquer com ela.
    Esta história transporta-nos saudosamente para aqueles tempos, em que eu ainda não tinha nascido mas sobre os quais já investiguei alguma coisa. Não se esqueça de que por esse tempo estava instalado em S. Vicente um efectivo militar de cerca de 20 mil homens, o que pode ser consultado no PdB, onde publiquei uma série de textos sobre o assunto.
    Nho Djunga era o máximo!

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  6. Eu lembro-me da PIDE no Mindelo (1962-66) com agentes vestidos com uma farda creme (seria mesmo creme?). Claro que esses eram os que apareciam à luz do dia. Na altura, sabia o nome de alguns, mas já se me varreram. Por vezes, davam ao patrão-mor uma lista de nomes de homens que não podiam sair da ilha...o patrão-mor nunca ligou chapa à lista mas diga-se em abono da verdade que também nunca ninguém lhe perguntou se o fazia.

    Braça com vivenda de pracinha de doutora,
    Djack

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  7. Ainda sobre a presença ou não da PVDE em S. Vicente por essa altura, informação recente recebida refere que havia, sim senhor, PVDE e que estavam instalados no Fortim (antiga cadeia civil e política) juntamente com 8 elementos da Legião Portuguesa. É possível que ainda não se identificassem com aquele figurino típico da gabardine e óculos escuros, mas mesmo que o fosse o clima o desaconselharia. E também a pequenez do meio.

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