quinta-feira, 9 de abril de 2015

[7981] - NOVO ACT - O BARRIL DE PÓLVORA!...

Alcindo Amado
O Novo ETCP, o Barril de Pólvora !
08.abril.2015 - A Semana

Esta medida é um autêntico absurdo, por não se enquadrar na nossa realidade conjuntural. Num país que, economicamente, não tem onde cair morto, não se compreende o descaramento e a irresponsabilidade dos Deputados Nacionais em conspirarem contra os reais interesses da Nação. Mais uma grande decepção para os eleitores.

Enquanto milhares de famílias, em todas as Ilhas, dificilmente conseguem levar a panela ao lume, crianças desnutridas a mendigar pelas ruas dos principais centros urbanos, funcionários públicos auferindo salários abaixo do real custo de um nível de vida decente, classes profissionais sensíveis com salários de miséria, caso dos professores, da polícia nacional, dos médicos, da polícia judiciária, etc, o Parlamento Nacional une-se à volta de uma medida legislativa com o simples objectivo de alargar as regalias de uma elite já de per se privilegiada.

Esta medida legislativa pode até ser a gota que fez transbordar o copo, na medida em que temos vindo a observar, com indignação, determinadas manobras de indivíduos à frente de algumas Instituições da República a promover pessoas (seus protegidos) a escalões superiores para lhes proporcionar reformas chorudas, a promover pessoas já reformadas, que é o caso das Forças Armadas que teve a habilidade de promover e aposentar indivíduos que passaram a vida inteira a trabalhar para empresas privadas, de onde também sacaram reforma. Resumidamente, temos pessoas auferindo duas reformas, uma no privado e outra no Estado, para o qual nunca trabalhou. Tudo isto com a conivência do Governo e o silêncio do Sr. Presidente da República, na qualidade de guardião da Constituição.

Por outro lado, num país cujo salário mínimo oficial é de 11.000$00 (uma vergonha nacional) temos elites que gravitam à volta do poder, outros clãs que constituem “poderes na sombra” com salários agregados acima dos 400.000$00/mês, sem contar com outras regalias.

Temos um grande número de idosos que labutaram uma vida inteira, construindo a sociedade que hoje destruímos, completamente marginalizados a viver de uma miserável pensão social de 5.000$00. O Governo alega não ter recursos para lhes atribuir uma pensão decente, mas para a classe política que só faz asneiras o Estado está disposto a gastar mais 200.000.000$00/ano, além de outras mordomias, para engrossar a vaidade desse bando de parasitas que vivem à custa da desgraça do povo, com toda a opulência e até ostentando riquezas.

Neste momento temos pessoas a passar fome no interior das Ilhas de Santo Antão, Santiago e São Nicolau. O mau ano agrícola , o desemprego generalizado e resultante de uma política económica desajustada prometem criar situações catastróficas em quase todo o território nacional.

Nos maiores centros urbanos e áreas periféricas, o cenário é constrangedor. Milhares de jovens, na maioria sem qualquer preparação profissional, sem presente nem futuro, entregues ao deus-dará. Para um observador atento, o olhar desses jovens retrata a desilusão e o desencanto que lhes vai na alma. Desvios de comportamento, tais como a chamada criminalidade de subsistência, drogas e prostituição são as únicas alternativas que se lhes deparam.

Não é por mero acaso que aproximadamente 70% da população prisional do país são jovens com menos de 30 anos de idade. Essa gente pertence à geração pós-independência. Isto quer dizer que o Estado falhou ao não investir correctamente na infância desses jovens. Hoje, o Estado gasta uma fortuna operando as prisões que, infelizmente, não têm uma política de reinserção social adequada.

Um Estado que sobrevive mendigando junto da comunidade internacional, que a meu ver desconhece por completo a forma como este país está sendo governado, dá-se ao luxo de proporcionar aos seus políticos regalias de longe superiores aos das potências doadoras.

Um Estado cujo Governo tem dificuldades em devolver aos contribuintes impostos indevidamente cobrados, alegando falta de recursos financeiros, que até pode ser verdade, disposto a alimentar a vaidade e a arrogância de uma elite que pouco ou nada faz para bem deste povo.

De notar que todos aqueles que apanharam boleia com o novo ETCP, cujos salários estão indexados ao do Presidente da República, estão tranquilos nos seus lugares. Considerando que muitos servidores do Estado estão abrangidos por essa norma, o pacote financeiro que o Estado vai ter que disponibilizar poderá ultrapassar de longe os 200.000.000$00/ano.

Por seu lado, a Oposição (MpD) que sonha chegar ao poder, no caso de as Legislativas de 2016 desviar alguma água para o seu moinho, em vez de denunciar e apresentar alternativas viáveis à solução dos inúmeros problemas que a tormentam este povo, imprudentemente resolveram conspirar com o partido no poder para atrapalhar mais a sustentabilidade económica do País, defendendo “interesses comuns” num manifesto desprezo aos sinais vindos da sociedade civil, e sobretudo, ignorando pura e simplesmente os interesses colectivos da Nação.

É este o partido político que pretende mobilizar a população para as Legislativas de 2016? Duvido muito, porque deste jeito nunca mais vai ser sábado. A mim me parece que o MpD já se conformou na oposição, até porque muitos históricos desse partido têm mais visibilidade e menos responsabilidade na oposição do que no poder. Não parecem estar preocupados visto que, estando em qualquer dos lados, fazem parte do “sistema”.

Por sua vez, a UCID em vez de aproveitar o momento para tentar mostrar alguma diferença, que infelizmente não tem, deixou cair a máscara. Todavia, os eleitores tem a consciência de que a UCID não passa daquilo que realmente é. Farinha do mesmo saco.

Pessoalmente, considero adequado o actual quadro salarial e regalias dos titulares de cargos políticos, dado o fraco desempenho da classe, tendo também em consideração o país que temos, o insustentável índice de desemprego e a própria conjuntura económica, que considero universal, e que não se vai conseguir reverter tão facilmente.

O novo ETCP é o barril de pólvora que faltava para incendiar os ânimos do povo destas Ilhas que diariamente é obrigado a comer o pão que o diabo amassa.

O destino macabro de um povo condenado a uma permanente tortura psicológica e moral, que muito pouco se diferencia da morte lenta imposta pelo retrógrado sistema colonial.

Resumindo e concluindo, o Parlamento Nacional integra, salvo raras excepções, um bando de irresponsáveis, incompetentes e oportunistas que só servem para desvirtuar o órgão máximo de Soberania Nacional, e que já perderam o pouco de respeito que lhes tinha o eleitorado.

Precisamos de uma nova geração de Deputados Nacionais com um perfil moral intocável, competentes, trabalhadores, honestos e sobretudo Patriotas.

O habitual abraço de fraternidade a todos.

Mindelo, 30 de Março de 2015.

alcindoamado@hotmail.com

5 comentários:

  1. O meu comentário em relação a toda esta situação é lacónico: CV está numa situação preocupante: a elite não está ao nível do desafio do país que é maior mais muito maior do que aquilo que querem reduzir. A elite não merece CV, perdeu-se pura e simplesmente. Que fazer é a questão. Uma revolução das mentalidades mesmo silenciosa? Eu já não tenho idade para acreditar nisso.
    Há muito tempo que andamos preocupados com a situação político-social do país e muitos diziam que andávamos desinformados que o país recomendava-se. Agora que caem as máscaras frente a realidade pura e dura deste arquipélago em plena ressaca após 40 anos de pseudo-revolução. Quem semeou este sistema fomos nós todos!!!.

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  2. ARROZCATUM destacou hoje este artigo de O Novo ETCP, o Barril de Pólvora publicado na Semana e
    O meu comentário em relação a toda esta situação é lacónico. Quem semeou este sistema fomos nós todos!!! Eu dei o meu contributo em 1974-80 ao ter dado um cheque em branco para um grupo que hoje é uma elite toda poderosa para fazer e desfazer de CV,uma elite que se constitui num poder difuso, subterrâneo. O que concluo é que não tínhamos maturidade suficiente para dar uma salto maior que as nossas pernas, ou seja tivemos muita pressa e não amadurecemos suficiente para dirigir um país que merecia muito mais.Como movimentam as elites neste país? Quais são os seus interesses comuns?Quem são os grupos dos bastidores que dão as cartas? etc etc!! Estas são questões que me venho colocando inquietamente !!!

    Há muito tempo que andamos preocupados com a situação político-social do país e muitos diziam que andávamos desinformados que o país recomendava-se. Agora que caem as máscaras frente a realidade pura e dura deste arquipélago em plena ressaca após 40 anos de pseudo-revolução. O que faz a elite os intelectuais para tentar mudar o panorama do arquipélago quando apontamos para a necessidade de Reformas de uma país confiscado amarrado nas certezas de um grupinho, hoje calejado na chico-esperteza, mas na altura, há 40 anos, eram jovens irresponsável , incompetente e inexperiente, que tomaram de assalto o país. Um grupo que prefere levar esta terra para o precipício, através da mentira e da impostura, em vez de mexer naquilo que vai mal ?!
    Porque a grande resistência desta elite, que está sendo posta em cheque, em relação à Regionalização e a Reforma total do Sistema?
    O regime anunciou para daqui a um pouco mais de uma Semana a tal Conferência da Regionalização, onde vão estar os mesmos dignitários do Sistema degenerado em conclave para decidir nas costas de todos e entre eles aquilo que é bom para CV (a tal cozinhada proposta região-plano ou supramunicipalismo de JMN) sem consultar a sociedade civil que tem pensado e estudado os problemas.
    Alguém sabe em que é que consiste e quem vai estar presente? Não tenho ideia de alguém ter sido convidado tirando Onésimo Silveira!!!
    Como é possível fazer uma tal Conferência numa situação de confusão política total no país. É que andamos a brincar com coisas sérias!!!

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  3. Na última estância resta-nos a insurreição armada contra a máquina do poder...O fosso existente entre os pobres e os todos- poderosos no nosso país tornou-se insustentável...Lembro-me quando a Cia de Fuzileiros foi transferida para a capital em 1997,deparei-me com uma situação deplorável...A água potável era distribuída 2 vezes por semana e tínhamos que encher alguns tanques e cisternas construídas para este fim. Na semana seguinte á nossa transferencia e depois de estarmos alojados no Quartel Jaime Mota, fui chamado pelo Oficial de Dia que informou-me lacónicamente que havia uma fila de algumas dezenas de civis prostrados á frente da entrada do Quartel a pedir água...Imediatamente larguei-me para o Quartel e assisti de facto a esta cena triste de dezenas de crianças na maioria,com garrafas,garrafinhas,garrafões e até copos a mendigarem água...Não hesitei um segundo sequer e falando com o OD dei-lhe instruções para abastecer todos os civis que vinham em busca de água enquando a tívessemos a correr pela canalização...Na manhã seguinte reuni com os Oficiais e Sargentos da Cia e dei-lhes as mesmas intruções para abastecer todos os civis que vinham em busca do precioso liquido...Não informei o Cmdte da Guarda Costeira, e logo fui chamado pelo mesmo que pediu-me um esclarecimento extensivo sobre o facto de civis ás centenas á frente do Quartel todas as vezes que havia abastecimento de água potável...Respondi que como militar e cidadão não podia negar água a pessoas que pareciam famintas e sedentas...Ele respondeu-me que neste caso eu seria alvo de um processo disciplinar e que nôs não tínhamos nada a ver com o facto de que a água não chegava á populaço, que o Oficial da presidência da república, que era logo ao lado do Quartel, já estava a reclamar, ao que retorqui que não me importava nada...O assunto morreu, e os civis continuaram a ser abastecidos até eu sair das FA's algum tempo depois...Farto de tudo e todos os chefões que passaram a perseguir-me, pelas minhas idéias "revolucionárias", de querer levantar a voz sobre a redução das FA's e a profissionalização das mesmas em vez do serviço obrigatório...Fartei-me de sair em missões de fiscalização da ZEE e regressar com as mãos a abanar pois os barcos que abordávamos tinham ordens expressas do então Ministro do Mar para fazerem o que lhes desse na gana...Fartei-me de regressar ,frustrado e cansado pois recebemos ordens no alto mar para abordar tal e tal missão...fartei-me de dormir no chão do quartel com os meus valorosos Fuzileiros, pois não havia, nem colchões, nem mantas nem lençóis,nem cantis nem nada, e se não fosse a cooperação portuguesa na pessoa do Cmdte FZ Brazão, na altura adido militar junto á embaixada portuguesa na Praia, que disponibilizou-se pessoalmente , semanas depois recebïamos 4 contentores de equipamentos vários que foram prontamente confiscados, no porto de desembarque da Praia, a mando do Sr Chefe do estado Maior...Situaçes incriveis..Fartei-me de brigar e de pagar do meu próprio bolso os exercícios que tínhamos planeados anualmente...Cheguei á conclusão que apesar da dedicação, do sacrifício e do sentido do dever inquestionável de toda a malta da Cia de Fuzileiros, tudo não passava de um teatro barato e roto, uma charada completa pois os nossos chefões e governantes não importavam um nadinha com alguma coisa ou ninguém, a não ser o próprio bolso...Saí de Cabo-Verde com o coracão pesado e triste, mas não podia fazer mais nada, e emigrei-me para os EUA aonde alistei-me no Exército Americano e até agora sou quadro...Mas um dia hei de regressar de certeza absoluta!!!

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  4. A situação de degradação social em Cabo Verde foi sendo mascarada enquanto puderam, ou seja, enquanto chegou de fora dinheiro mais ou menos substancial para iludir as aparências. Mas como a torneira já está a jorrar menos e se calhar dia virá em que jorrará menos ainda, pergunto o que vai ser dos meus conterrâneos, que, coitados, não têm culpa das vaidades e disparates de alguns que se presumiram bafejados pela clarividência. Eu sempre tive a noção (por conhecimento objectivo mas também intuitivo) de que as nossas 10 ilhas secas e pobres de recursos não tinham, em circunstância alguma, condições para serem independentes.
    Alguém me dizia há tempos que uma análise séria e objectiva pelo simples viés da geografia das nossas ilhas aconselharia a sua evacuação com transferência da população para onde haja um mínimo de condições naturais para a sua sobrevivência. É evidente que, como bom cabo-verdiano que sou, ouvir isso deixa-me com um aperto no coração. Sim, porque além do determinismo da geografia, há circunstâncias que a História se encarrega de consumar, e a mais importante é o amor à terra onde se nasce e se cria, seja ela pobre, remediada ou rica. Pode-se chamar a isso fatalidade, ou o que se quiser, mas o facto é que a nossa existência é uma síntese de tudo um pouco que lhe dê um mínimo de sentido. Nela cabe a memória dos nossos pais e avós, os nossos sonhos, mesmo que se frustrem, e até as fantasias a que damos largas quando nada mais resta. Não é por acaso que quase todo o cabo-verdiano aspira ir morrer nas suas ilhas ou saber que as suas cinzas possam um dia ser nelas enterradas ou lançadas ao mar. E eu não fujo à regra. E prefiro o mar.
    O grande problema daqueles que quiseram governar autonomamente as nossas ilhas foi convencerem-se de que bastaria receber a ajuda da comunidade internacional e copiar ipsis verbis os códigos de governação administrativa praticados em países evoluídos. Erro crasso. O modelo político-organizativo adoptado para Cabo Verde pode funcionar num território contínuo (continental) mas não em ilhas dispersas. Os códigos de justiça aplicados a democracias maduras e idiossincrasias europeias dificilmente se coadunariam com a nossa realidade social. Por isso é que a Justiça é uma anedota em Cabo Verde. No mais, de tudo isto resulta uma medonha burocracia e um enorme e insustentável corte de burocratas que são o principal entrave ao desenvolvimento do país. Como agora pude ler no comentário de Mr. Hércules Lobo, também um militar como eu, até o modelo de serviço voluntário europeu foram copiar. Mas que absurdo! Se até em Portugal foi um erro crasso eliminar ou reduzir o serviço obrigatário, muito mais o é em Cabo Verde. De resto, o que se lê no seu comentário é todo um testemunho da impreparação de muita da nossa gente para os cargos que ocupa.
    Não gostaria de vir para aqui verter desabafos amargos. Mas como não o fazer se de dia para dia estamos a assistir ao enorme estenderete que foi o Cabo Verde independente? Sim, construíram-se muitas infra-estruturas, avançou-se imenso na escolarização. Claro, com a ajuda internacional. Mas, e o mais importante, a sustentabilidade futura de tudo isso? O cortejo de bocas famintas que cresce continuamente, que é a prova mais dolorosa do falhanço colectivo? E o desemprego que grassa nas ilhas, com a esperança naufragada na íris de jovens que se licenciaram?
    Acontece que algumas pessoas que lá vivem são de opinião que tudo está bem. Pudera, são pessoas que se safaram bem na vida e que são insensíveis ao mal do seu semelhante. Mas elas são uma minoria e o problema é se a maioria acordar.

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  5. Os "melhores filhos" (?) estavam convencidos do que pensavam e para que isso funcionasse impuseram suas teorias de qualquer maneira; força inclusive. Conseguiram oprimir e criar uma onda de medo que ainda subsiste. Manipularam somas e deram falsas esperanças e chegaram mesmo a pensar que a mentira era verdade. E criaram a bolsa de valores...
    O cúmulo !

    Ema Rodrigues

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