quinta-feira, 23 de abril de 2015

[8053] - POEIRA DOS TEMPOS

MIGUEL DA CONCEIÇÃO MOTA CARMO
O Homem, o Militar e o Administrador

CAPÍTULO II

A acção do Administrador Mota Carmo

É durante as suas funções de administrador que Mota Carmo, com o posto de capitão, deixou o seu nome escrito nas pedras da calçada do Mindelo, para o bem e para o mal, consoante a opinião que cada um faça acerca do seu desempenho. Há uma subjectividade sempre inerente a qualquer juízo sobre quem exerce funções públicas. Depende da perspectiva e do estrato social a que se pertence, e isto é tanto mais relevável num tempo em que não havia liberdades cívicas e o poder era dum modo geral exercido de forma autoritária. Os de estrato social mais alto, isto é, os privilegiados, por certo que tenderiam a aceitar ou a pactuar mais com uma autoridade firme, porque garante dos seus interesses de classe. Os deserdados da fortuna, isto é, os pobres, naturalmente que a sua desdita os propiciaria mais para a transgressão, quer pela prática de furtos ou roubos, quer por atitudes socialmente reprováveis, como a embriaguez no meio público e a ocorrência de desacatos e brigas entre gente do povo, comuns na nossa terra. Por conseguinte, o povo anónimo poderia ser o mais queixoso do eventual poder autoritário do capitão administrador, que em muitos casos acredito consistia num misto de disciplina militar e de gestão de actos públicos. Sempre ouvi contar que o Mota Carmo tomou medidas severas para pôr termo às vendas de rua e instaurar hábitos de pendor europeu na cidade, tendo-o conseguido com algum sucesso, pelo menos nas áreas mais urbanas, a chamada “morada”. Ora, quem se sentiria mais prejudicado com a imposição de medidas administrativas deste género, particularmente exigentes? O povo anónimo ou as classes mais privilegiadas? Não é fácil a resposta, porque teremos ocasião de concluir que a acção de Mota Carmo encontrou maior resistência entre as classes sociais privilegiadas que entre o povo anónimo, no tocante a certos aspectos da sua actividade.  
Uma medida que ele tomou e alimentou o anedotário local foi a proibição do uso de saia curta às mulheres, querendo com isso impor uma suposta moralização dos costumes, conforme a mentalidade conservadora de raiz católica, mas que normalmente não consegue iludir a mais pura hipocrisia. É que muitas vezes são os próprios defensores da moral pública os seus primeiros transgressores. Pode ser constrangedor dizê-lo perante os seus descendentes, mas o facto de o Mota Carmo ter gerado filhos em S. Vicente que não registou funciona em seu desabono e desmente a sinceridade dos seus propósitos de instigador de moral pública. Sobre esta questão das saias curtas, resta saber se a medida seria particularmente mais gravosa para as “menininhas novas” do para as mulheres de um modo geral. É que, por ironia, consta que essa medida causou viva indignação entre as próprias senhoras da alta sociedade e uma delas reagiu de tal modo veemente que pode ter contribuído para o enfraquecimento do prestígio que o Administrador teria até certa altura alcançado com o sucesso de algumas das suas realizações. E especula-se também que tal facto apressou a sua substituição no cargo. Mas sobre esta última possibilidade é difícil fazer um juízo rigoroso, já que ele exerceu o cargo durante 6 anos, tempo mais que suficiente para justificar a sua substituição à luz das normas administrativas em vigor no Exército. Com efeito, Mota Carmo era um oficial do Exército e existem tempos limites estabelecidos para o exercício de funções fora da instituição militar. E seis anos constituíram tempo bem longo.

Um aspecto da cidade do Mindelo no tempo da administração de Mota Carmo

Afora o que pode sugerir alguma faceta menos favorável à sua pessoa, é do domínio geral que a administração de Mota Carmo revestiu aspectos muito positivos e que a ilha e a cidade beneficiaram bastante com o seu desempenho. A demonstrar perfeitamente o seu perfil autoritário e decidido, reflexo da sua condição militar, um tio meu contou-me o seguinte caso. Certa vez, um grupo de marinheiros de um navio de guerra português fundeado no porto assistia a um espectáculo de revista teatral nas instalações do Clube Castilho. Espectáculos desse género eram promovidos por ele para angariar meios financeiros para as obras de assistência a que meteu ombros. Ora, a certa altura, alguns desses marinheiros começaram a portar-se de uma forma tão inconveniente que o Mota Carmo saiu do seu lugar e dirigiu-se-lhes pessoalmente nestes termos: “Sou Mota Carmo, Capitão do Exército e Administrador do Concelho. Vocês estão a portar-se de forma indigna. Retirem-se imediatamente!” Os marinheiros, sem esboçar o mínimo gesto, com o rabo entre as pernas, abandonaram o lugar. Esse mesmo tio também me conta que, em conversa com um grupo de amigos sobre a actual situação da cidade do Mindelo, há quem de vez quando exclame: “Isto está a precisar é de um Mota Carmo!” Não será então despropositado considerar que o seu nome paira ainda no domínio da lenda.
Poucos dados concretos e completos consegui obter sobre a acção de Mota Carmo como administrador, porque nada disso consta, como é óbvio, do seu processo militar. Mas é do conhecimento geral que ele desenvolveu uma intensa actividade virada para a higiene e o saneamento, a ordem pública e a promoção da assistência aos necessitados e amparo dos órfãos, além de inúmeras obras públicas. Mas o que é mais emblemático é ele ter-se empenhado com todas as suas forças e energias, físicas mas também morais, para a construção de uma importante infra-estrutura social no âmbito da Associação de Caridade de Cabo Verde, que ele impulsionou conferindo-lhe uma alta prioridade na agenda da sua actividade. Mota Carmo deu uma entrevista ao jornal “Notícias de Cabo Verde” sobre o assunto, e tive a felicidade de adquirir esse jornal em versão digitalizada, com a ajuda do meu amigo José Fortes Lopes, professor da Universidade de Aveiro. A entrevista, por ser longa, será objecto do próximo capítulo.

Adriano Miranda Lima

(Continua)




                       

3 comentários:

  1. Ora aí está um lenda de Mindelo aqui relembrada. Como disse Adriano M. Lima, o militar, Capitão: " ... Mota Carmo (...) deixou o seu nome escrito nas pedras da calçada de Mindelo, para o bem ou para o mal (...)"
    Em boa hora apareceu alguém A.M_L_ que para além de ser mindelense é bem abalizado para nos informar sobre esta matéria, sobre a qual eu, por exemplo, andava há já um ror de anos curiosa em conhecer alguma coisa mais substantiva, como sói dizer-se, sobre esta intrigante personalidade e quase personagem que foi o Administrador de Concelho, Mota Carmo. Desde de miúda que ouço falar dele por parte de familiares mais velhos e já desaparecidos do mundo dos vivos, minha mãe (mindelense) meus tios, entre outros. E relevavam acerca de Mota Carmo não só os aspectos da sua autoridade marcante, mas também o anedotário mindelense de que ele era protagonista e alguns marcos da obra assistencial, caritativa e social que Mota Carmo realizou em S. Vicente.
    Embora a par disto tudo, faltava-me este texto de Adriano que situou Mota Carmo historicamente no seu tempo e no contexto da urbe que era Mindelo à época. Obrigada.

    Abraços
    Ondina

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  2. Regozijo-me ver publicado aqui (devia ser também em outros lados) este escrito que o meu amigo tinha escrúpulos em publicar.

    Embora criança nessa altura, lembro-me perfeitamente dos factos aqui mencionados do homem que metia respeito, furor e, também brejeirices.
    Foi um grande trabalhador e nunca ninguém pensou sequer que "metia o dedo no mel". Tudo quanto fazia era bem apontado.
    O texto do Adriano tão explicito (autêntico) não carece de outro tipo de comentários. Do moralista, lamento o lado hipócrita do administrador que exagerou em certos comportamentos que mancharam profundamente o seu trabalho. Todavia se houvesse uma sondagem eu votaria "por".
    Grato pela divulgação do trabalho desta figura que, de uma forma e de outra, marcou a ilha do Porto Grande.

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  3. A entrevista de Mota Carmos ao jornal “Notícias de Cabo Verde” sobre os problemas de SV nomeadamente as suas preocupações sociais dá uma nova percepção do homem, na sua dimensão política e humana

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