segunda-feira, 27 de abril de 2015

[8074] - POEIRA DOS TEMPOS...

MIGUEL DA CONCEIÇÃO MOTA CARMO
O Homem, o Militar e o Administrador

Capítulo VI

Carreira Militar de Mota Carmo após deixar Cabo Verde

Tendo cessado as suas funções de administrador civil em S. Vicente, Mota Carmo desembarca em Lisboa em 23 de Março de 1950, deixando de estar sob a dependência do Ministério das Colónias. Depois de cumprir a licença a que tinha direito, e que se acumulara por nunca ter usufruído de nenhuma enquanto esteve em Cabo Verde, e regressando ao Ministério da Guerra, apresenta-se no Quartel-general do Governo Militar de Lisboa, onde fica a aguardar colocação. Em 21 de Maio de 1950, é colocado, como subdirector, no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, assim designada uma unidade militar situada nos arredores Lisboa e que tinha como missão a instrução de tiro de carreira de todas as armas e de todas as unidades da região de Lisboa, seja as do Exército, da Marinha ou da Força Aérea.

Um aspecto actual das instalações militares do antigo Campo de Tiro da Serra da Carregueira; seria mais tarde transformado numa unidade militar com outro nome.

Em 1 de Outubro desse mesmo ano, apresenta-se no Instituto de Altos Estudos Militares, a fim de frequentar o curso de promoção a oficial superior (classe hierárquica que começa em major e termina em coronel).
Em Março de 1951, regressa à sua unidade, Campo de Tiro da Serra da Carregueira, e é promovido a major em Dezembro de 1951.
Em Fevereiro de 1952, o major Mota Carmo apresenta-se no Ministério dos Negócios Estrangeiros a fim de se encarregar dos Serviços Nacionais de Segurança da Cimeira Pacto do Atlântico (NATO), função que o empenhou durante 17 dias. Com efeito, o Conselho de Ministros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) se reuniu em Lisboa, ainda nem sete anos tinham decorrido desde o fim da II Guerra Mundial na Europa. A divisão territorial da Alemanha era já uma realidade, uma vez que, desde 1949, o território daquele país se tinha dividido dando origem à República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática Alemã (RDA). Esta situação traduzia o acentuar da tensão política e militar entre as potências vencedoras, nomeadamente entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos, pelo que essa Cimeira se revestiu de uma magna importância para o Ocidente. Confiar a missão de organização da segurança desse evento ao Mota Carmo traduz sem dúvida o conceito em que ele era tido pela hierarquia do Exército.
Sobre este episódio, e por coincidência, há uns meses perguntei, no âmbito das minhas pesquisas, a um velho coronel, de 89 anos, meu amigo e meu antigo comandante de regimento, se ele conheceu ou ouviu falar do oficial Mota Carmo. Respondeu afirmativamente e adiantou que o conheceu por ter estado sob o seu comando durante essa missão de segurança do Pacto do Atlântico. Esse meu amigo coronel era à data tenente e com o seu pelotão participou juntamente com outras forças no dispositivo que foi montado para a referida segurança, sob às ordens directas do Mota Carmo. Então, perguntei-lhe com que impressão ficou do Mota Carmo, que era major na altura, se era um oficial excessivamente duro, exigente ou rigoroso. Respondeu-me que não, apenas um oficial que procurou cumprir aquela missão com zelo e sentido de responsabilidade. Mas o que me surpreendeu é ter-me revelado, rindo-se com gosto, que o Mota Carmo era então conhecido em Lisboa pela proibição das saias curtas que intentou em S. Vicente e pela morna criada a esse respeito. Vê-se assim que o assunto das saias curtas ultrapassou as fronteiras e por certo o acompanhou até à morte.
Até passar à reserva em 1960, Mota Carmo continua ininterruptamente colocado no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, nas funções de subdirector, mesmo quando promovido mais tarde, em 1957, a tenente-coronel. No decurso desse tempo, tem, em acumulação, outras funções, como seja Inspector de Segurança da Carreira de Tiro de Alcochete. Esta era uma carreira de tiro destinada à Força Aérea, onde os aviões realizavam exercícios de bombardeamento e de ataque ao solo, como é próprio da sua missão. Mas Mota Carmo foi durante quase todo esse tempo, e igualmente em acumulação, Coordenador da Segurança e Defesa dos Estabelecimentos Militares do Governo Militar de Lisboa. Isto compreende-se porque os estabelecimentos militares, que eram em elevado número naquele tempo, não são unidades militares e, por conseguinte, pela sua natureza administrativa, implicam que haja um entidade superior a superintender na observância daqueles requisitos.
Entretanto, e durante o período da sua permanência na citada unidade da sua colocação, frequentou na Escola Prática de Infantaria estágios para manutenção das suas aptidões como oficial da Arma de Infantaria. Era normal naquele tempo, assim como hoje. Refira-se, em particular, que em 1957, já tenente-coronel, participa no Campo Militar de Santa Margarida em manobras militares da Divisão Nuno Álvares, no âmbito das missões da NATO que competiam a essa Divisão. Para esse efeito, Mota Carmo apresenta-se e fica colocado no Regimento de Infantaria 15, em Tomar, que era, assim como outros regimentos, fornecedor de efectivos para a referida Divisão Nuno Álvares. É no Regimento de Infantaria 15 que Mota Carmo integra uma unidade para participação naquelas manobras militares, que naquele tempo tinham uma elevada importância no contexto do Exército e da NATO. Não sei se Mota Carmo foi comandante de um dos batalhões constituídos para esse efeito, o que pode efectivamente ter acontecido, já que o posto que ele então tinha, tenente-coronel, era o que competia à função de comandante de batalhão (um efectivo da ordem de 800 homens). Mas também Mota Carmo pode ter sido o 2º comandante do regimento constituído para essas manobras. Enfim, o oficial regressou, ainda que temporariamente, ao Regimento de Infantaria 15, de onde partira em 1941 para Cabo Verde no comando de uma companhia de atiradores. E regressou também à terra que o viu nascer e que, convenhamos, é uma bela e antiga cidade

                                                Nesta rua de Tomar, chamada rua dos Arcos, nasceu o Mota Carmo

Mais tarde, em 19 de Agosto de 1958, Mota Carmo é nomeado para uma comissão especial de serviço na Índia Portuguesa de então, tendo regressado em 28 de Novembro do mesmo ano. Não há dados no seu registo que revelem a natureza da missão que foi desempenhar à Índia, mas deduzo que tenha tido algo a ver com questões de inspecção de segurança militar. É que uma das facetas particulares da formação militar de Mota Carmo era sem dúvida a sua aptidão para missões de segurança militar.
É promovido a coronel em 1958 e passa a comandar a unidade onde se encontrava colocado em permanência desde que deixou Cabo Verde, ou seja, o Campo de Tiro da Serra da Carregueira. Mas não será por muito tempo porque passa à reserva em 18 de Julho de 1960. É-lhe então atribuída a pensão de reserva anual de 84.000$00.
Depois de transitar para a reserva, o coronel passa a exercer um cargo de natureza civil na antiga Standard Eléctrica Portuguesa, empresa multinacional que se dedicava ao fabrico de material de comunicação.
Passa à situação de reforma 10 anos mais tarde, em 18 de Julho de 1970, conforme as leis então vigentes.
Miguel da Conceição Mota Carmo, coronel reformado do Exército Português, morre em 11 de Agosto de 1974. Desconheço a causa da sua morte, numa idade, 74 anos,  que não se pode considerar muito avançada.

Adriano Miranda Lima 

- Continua -

2 comentários:

  1. Mais um excelente texto para juntar a outros 49 que serão publicados quando o plumitivo deixar de ser demasiado modesto e publicar o que de bom vai produzindo.

    Braça aconselhadora,
    Djack

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  2. Agradeço a tua simpática apreciação, Djack, mas o rótulo de plumitivo é pesado demais para mim e escrever livro é coisa que não me passa pela cabeça. O meu único propósito é ajudar a animar os dois blogues de dois amigos e valorosos cidadãos, o que já não é pouco.
    Já agora, aproveito para corrigir no texto uma pequena gralha. Nove linhas acima da fotografia da rua onde nasceu o Mota Carmo está: ... integra uma unidade para participação daquelas manobras militares, quando devia ser "naquelas manobras" e não "daquelas manobras".

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