domingo, 31 de maio de 2015

[8207] - CRÓNICAS DA SAUDADE...

NOTA PRÉVIA...

Entre Novembro de 2011 e Janeiro de 2012, o Blogue "Praia-de-Bote", do amigo Joaquim Djack, teve a amabilidade de dar guarida a algumas despretenciosas crónicas,  pescadas do fundo das minhas memórias de cabo-verdiano do Mindelo e que me deram muito prazer em escrever e também muita alegria pela boa receptividade. Como já lá vão três anos, achei por bem recuperá-las, agora na casa paterna e, decerto, para olhos que, na altura, não andaríam na órbita do Arrozcatum...Desejo que os novos - e os velhos - leitores as apreciem!



Eu fora a S. Tiago tratar da papelada para depois seguir para Angola, como funcionário administrativo, com guia de marcha, guia de vencimentos, protocolo de adiantamentos em numerário, requisição de passagem para Lisboa, etc. etc., um monte de papelada que me lembrei de acomodar numa daquelas pastinhas de capitão de palhabote, imitações de pele com um fecho de correr em três dos seus quatro lados e que dava ao portador um aspecto de pessoa ocupada e quase importante, carregando uma pasta negra repleta sabe-se lá de que segredos.

Corria o ano de 1956, estaríamos aí em Outubro ou Novembro e o dia tinha amanhecido carrancudo, lá na Chã de Areia, em casa de Ti Nanda, tia da minha, na  altura,  noiva,  e que era casada com Polú,  professor da Escola Técnica, mas um mestre em carpintaria, marcenaria, mecânica, engenharia naval e civil, electricidade, metalurgia, um homem para quem as ciências práticas não tinham segredos… Ficaram célebres os seus cachimbos extraordinários, especialmente os de raiz de roseira, as suas cadeiras de baloiço e muito mobiliário de mogno com acabamentos lacados, arte milenar que ele interpretava como ninguém. Este homem foi o mais completo repositório de conhecimentos que até hoje conheci e que até construíra o bote em que eu, nesse dia fatídico, haveria de naufragar…

Ao princípio da tarde, e debaixo de um céu plúmbeo de quase meter medo, lá fui para o cais do porto para apanhar um “gasolina” que me haveria de levar a bordo de um dos navios da Sociedade Geral de viagem para Lisboa via Porto Grande, fundeado a meio da baía. Foi na altura em que todos ouviram o lúgubre lamento do alarme da Capitania do Porto avisando a cessação de trânsito das embarcações mais pequenas por via da calema… Lá se ia a minha hipótese de chegar a bordo do navio que me levaria a S. Vicente e Lisboa. A calema é uma situação, creio, característica das águas tropicais, em que de formam  ondas por vezes de grande porte, entre curtos períodos de acalmia quase podre… Não me parece que se saiba quando e porque se formam e também julgo que ninguém saberá quando vai a calema amainar, o que quer dizer que eu estava metido numa camisa de onze varas, pois nem com uma gratificação extra se conseguia uma oferta de transporte. Foi quando o Tio Polú se lembrou do botezinho que tinha construído, meses antes, no seu estaleiro privativo de Chã de Areia. O bote era minúsculo e éramos eu, o moço dos remos, a minha mala da roupa e a minha preciosa pastinha de mão, repleta de documentos e bastante dinheiro para a época… As ondas da calema, dizem, acontecem de sete em sete mais pequeninas, quase imperceptíveis e foi num desses hiatos de acalmia que nos lançamos à água fria do porto, com o navio à vista mas parecendo tão distante…Tão distante, efectivamente, que nunca chegámos a alcança-lo. Creio que, se não foi à primeira foi à segunda ondona que o barquinho ficou repleto de água mas, graças a Deus manteve-se à tona e nós muito sentadinhos comigo segurando a alça da minha mala e a pastinha apertada debaixo do braço, com toda a pressão possível. Estaríamos a entrar em pânico, quando ouvimos uma voz gritar o conhecido “homem ao mar!”… Levantámos os olhos e lá estavam três ou quatro marinheiros à ré de um navio de casco escuro e altíssimo, para cujas cercanias a onda nos tinha arrastado! Um deles segurava uma bóia, que nos foi lançada segura a um cabo, enquanto nos recomendavam que não tentássemos levantar-nos pois sentados estaríamos mais seguros. Tudo se passou com tal rapidez que nem deu tempo para pensar em ter medo e poucos segundos depois estávamos a ser içados para bordo, a minha mala e a minha pastinha bem seguras, molhados até aos ossos mas felizes como passarinhos acabados de serem libertados da gaiola...

Vesti um pijama do capitão do cargueiro português que nos havia “pescado” e o meu companheiro uma farda de trabalho de um tripulante, enquanto a nossa roupa secava e, como a noite já tinha caído e as emoções abrem o apetite, não nos fizemos rogados quando o capitão nos convidou para jantar. Foram momentos de descontracção que vieram a calhar depois daquele estranho naufrágio mas, terminada a refeição e seca a nossa roupa, regressei à terra e constatei que o problema, afinal, subsistia e até se agudizava pois, momentos antes, tinha assistido à saída do navio a bordo do qual eu era suposto estar, a caminho de S. Vicente… e no mar, havia calema!

Foi quando o capitão me levou perto da amurada e apontando para um grupo de tripulantes do navio me disse:
-"Meu amigo, estes são os oito melhores remadores que tenho a bordo. Se você os convencer a levá-lo e ao seu companheiro, a terra, eu autorizo a utilização de um dos escaleres salva-vidas do navio!"  E ilustrava a palavra “convencer”, esfregando, significativamente, o polegar no indicador da mão direita… Claro que não levei muito tempo a negociar e ofereci 500 escudos, de caras; o patrão fez notar que eram oito, eu percebi a lógica aritmética e meia hora mais tarde, lá fomos, cavalgando as ondas da calema, eu, o meu remador – que não tinha dito mais do duas palavras desde que saíramos de Chã de Areia – a minha mala da roupa e a preciosa pastinha negra onde, pasme-se, não entrara uma única gota de água!
Havia sobrevivido ao meu primeiro naufrágio e, como contarei um dia, acabei por chegar a Angola!

Zito Azevedo
Queluz, 21 de Novembro de 2011

4 comentários:

  1. Saudades da sua terra Soncent não natal, mas de adopção (chegou a estas ilhas afortunadas ou desafortunadas garotinho e saiu homem maduro a contragosto e manu-militari).
    É o sentimento deste luso-caboverdiano mais cabo-verdiano e mindelense do que os verdadeiros, que as vicissitudes da história e da vida afastaram para sempre da sua querida terra. Zito era um locutor de uma voz encantadora que encantava milhares de almas mindelenses cabo-verdianas nas serões através dos saudoso Rádio Clube e Rádio Barlavento e que poderia ter dado tanto energia e talento a Cabo Verde.
    Zito é a Prova Viva das arbitratriedades perpetradas em Cabo Verde há 40 anos por um grupinho que de repente se apossou de tudo e despojou cidadãos indefesos e sem culpa formada.

    ResponderEliminar
  2. Lindo e sonoro "Soncent". Hoje se tivesse um bistrô lhe daria este nome, com a licença de ôces!
    Agradeço ao amigo zito por nos ofertar esta oportunidade de leitura e aos seus amigos pelos oportunos ocmentários

    ResponderEliminar
  3. Voltei a ler com imenso gosto esta saborosa crónica do Zito.

    ResponderEliminar
  4. Esta prosa já classificada e bem de "saborosa" trouxe-me à memória o fenómeno da Calema , de que hoje já não se ouve falar.
    O actual porto da cidade da Praia, construído noutro sítio, se calhar mais amparado e com outra segurança natural e técnica, desactivou o antigo cais, o local das calemas de que Zito recordou aqui.

    Interessante é que a propósito desta leitura, e em conversa com um amigo, recordámos as nossas viagens inter - ilhas nos barquinhos de outrora, alguns deles, autênticas cascas de noz, como se dizia então. Sobretudo de meninos, e de adolescentes do Fogo e das outras ilhas que demandavam os liceus em Mindelo e na Praia, porque oriundos de ilhas que os não possuíam. Apesar de curtas, as distâncias entre as ilhas, autênticas aventuras marítimas se viviam então.

    Abraços
    Ondina

    ResponderEliminar