sábado, 8 de agosto de 2015

[8358] - A VOZ DA RAZÃO...

A CIDADANIA E O SOCIAL NAS IGREJAS

Embora não crente, tenho-me encontrado, bastas vezes, em harmonia e dialogante com os representantes da fé religiosa na vertente social. Bem sei que as religiões não são reivindicações de conhecimento, mas modos de viver com aquilo que não pode ser conhecido. São, também, fundamentalmente antimodernas, razão por que o Ocidente só conheceu a modernidade após a separação das Igrejas do Estado, isto é, depois da separação do Poder Espiritual do Temporal, como resultado da Revolução Francesa. Todos os povos que deram uma passada no sentido do progresso conseguiram-no por terem revisto a sua história, repensado as suas tradições e realizado uma ruptura com um passado que não respondia às exigências da época.
Dito isso, entende-se a razão por que os muçulmanos estagnaram no tempo (não beneficiaram nem da Renascença nem da Revolução Francesa), enfileirando-se no rol das pessoas que possuem a religião sem a razão, como nos confessa o poeta e filósofo Adonis (do seu nome, Ali Ahmed Saïd Esber). Uma fé cega, sem dúvidas, como a da maioria dos muçulmanos e de alguns católicos não pode deixar de ser fundamentalismo. Interessante, embora contestável na abordagem de Popper, a afirmação do pensador Adonis de a tolerância ser filha do racismo, dado que o ser humano exige a igualdade e não a tolerância.
Espinosa, como Hobbes (autor do Leviatan), filósofo que cito com certa frequência por comungar da maioria das suas ideias, nascido na Holanda, filho de judeu português que fugiu para esse país da Inquisição, sabia que a religião pode ser destrutiva e afirmava que a liberdade de a praticar deve conduzir à paz. Para o filósofo, as religiões não são verdadeiras, mas antes mitos (mito vem do grego e significa história) que preservam, em forma simbólica ou metafórica, verdades que, de outro modo, poderiam perder-se, e o grosso da espécie humana nunca conseguirá passar sem elas.
Hoje, a Igreja sabe ser parceira do diálogo civil, sabe que é chamada a caminhar ao lado dos outros e que precisa do olhar e da voz dos outros para poder ser artesão de um mundo mais humano, e os humanos mais respeitadores da mãe natura.
Falando de diálogo civil, vem-me à mente a afirmação do bispo emérito das Forças Armadas e Segurança Portuguesa, D. Januário Torgal Ferreira, na conferência “Cidadania em Saúde”: “A cidadania significa que eu sou cidadão, isto é, eu sou um elemento incluído e nunca excluído da própria cidade”. Mais adiante, indo buscar uma definição de cidadania à segunda metade do século XIII, remata que “cidadania vem de cidade, e a cidade é o lugar onde se habita contra a violência e a força, onde se dá a cada pessoa aquilo que lhe pertence e, mais, o chefe da cidade (presidente da câmara) é aquele que protege e defende os pobres. O Presidente da Câmara é isso; se não for isso que mude de casa. Protege os pobres; os filhos mais amados são os pobres, os filhos dilectos da cidade”. Quão longe estamos disso! Os nossos Presidentes das Câmaras, na maioria dizendo-se católicos, não escutam o actual Papa Francisco que diz precisamente isso, preferindo eles apaparicar aqueles que os ajudam a aumentar a barriga, os ricos.
Entre nós, o poder, seja qual for – mesmo de um simples funcionário, desde que esteja atrás de um guichet ou de um balcão -, é uma vantagem e uma embriaguez. Mais do que servirmos os outros entretemo-nos – os mais flatulentos e ignorantes – com a nossa importância. Temos profissionais nos vários departamentos oficiais que, face a questões concretas, sem se darem ao trabalho de utilizar a cabeça e a experiência, vão a correr ouvir o partido em vez de escutar o choro e a revolta das pessoas.
O bispo D. Januário, cuja figura física me faz recordar o nosso filósofo do povo Djunga Fotógrafo, conhecido pelas suas posições não conservadoras no contexto da Igreja Católica, é acusado de se meter em política, um pouco à moda do que fazia o Padre Fidalgo, no jornal Terra Nova, em defesa da liberdade de expressão em oposição ao pensamento único oficial. Remata as suas considerações do seguinte jeito: “Pessoas de joelho só diante de Deus, se forem crentes, diante das pessoas é sempre de pé”. Eu acrescentaria, como cidadão e civilista, nunca pedir por favor, e muito menos mendigar, aquilo a que temos direito, exigi-lo com força e perseverança. E isso deve ser assim porque uma estrutura comunitária exige seres responsáveis, conscientes, honestos, empenhados na procura do bem, donos de uma boa capacidade de crítica, dispostos a reconhecer e a reconhecer-se no novo direito humano de objecção e desobediência proposto por Einstein, raras vezes mencionado, embora muito importante, o direito, ou o dever, que o cidadão possui de não cooperar em actividades consideradas erróneas ou nocivas. Se os cidadãos procedessem desse modo, seguramente que os governantes seriam obrigados a atender aos direitos e à defesa dos reais interesses do povo.

Parede, Agosto de 2015                                              Arsénio Fermino de Pina
                                                                          (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

2 comentários:

  1. Uma reflexão de um interesse muito actual, Arsénio, com uma exposição clara e agradável de seguir. Conheço pessoalmente D. Januário e conversei com ele algumas vezes. Pessoa inteligente e com uma visão esclarecida e desassombrada sobre o homem e o mundo, é para mim das vozes da Igreja que mais prazer tenho em ouvir,

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  2. Com efeito D. Januário tem sido a voz crítica da Igreja às políticas austeritárias e ao sofrimento dos pobres. Em CV o Frei Fidalgo como bem assinala Arsenio deu exemplo. A Igreja deve ter um papel a jogar não somente nas questões de fé mas também ajudando os cidadãos nas suas dificuldades do dia-a-dia, pois nem só de paõ vive o homem é o que ela diz e bem, mas é precis pão e cachupa na caldeira

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