terça-feira, 10 de novembro de 2015

[8633] - O FOLHETIM DE EUGÉNIO TAVARES - 01...


A Virgem e os Meninos Mortos de Fome...

EPISÓDIO I
Wolf

Franque sacudiu a cinza do cachimbo, passou a mão pela boca revestida de cerdas arruivadas, e começou:
-- Naquela manhã, uma grande calma – uma dessas calmarias de derreter, horizontes faiscantes, o céu a escorrer fogo, semelhante à abóboda de um forno – entorpecera o mar do arquipélago.
“ Abordo havia um silêncio pesado, mortificante, só a espaços interrompido pelo ranger dos aparelhos ou pelo trapejar das velas caídas, numa frouxidão, ao longo da alta mastreação.
“ Eu estava ao leme; e, mesmo sob aquele fogo canicular, a tressuar, sentia entrar-me no peito, percorrer-me a espinha um frio como agulhas de gelo a penetrar-me a carne, os ossos. 
“ Em cima da escotilha, trancafiado a uma cruz de Santo André feita com remos, o filho de Sarda oferecia às mordeduras do sol a sua larga fronte bronzeada, de linhas enérgicas, numa expressão de serenidade indomável.
“Tinha os olhos cerrados; estava imóvel: -- dir-se-ia um touro abatido, julgar-se-ia um cadáver, se não fosse o arfar do peito que a camisa aberta deixava ver nos tons sanguíneos da pele escoriada, lacerada na luta terrível …
“Lá longe, a bombordo, acarvoando-se num desenho firme sobre as cintilações metálicas do mar, os perfis irregulares das ilhas; semelhando a folha larga e curta de uma adaga, o vulcão, ao longe, trespassava os longos estratos estendidos como braços sobre o horizonte. Em roda, fulgindo no aço das águas mortas, o sol – um sol em chama líquida, derramando-se em cachoeiras de fogo, incendiando-se tudo, derretendo tudo – subia, num deslumbramento, como o carro de Elias de que nos falava o padre Romualdo, que Deus perdoe…
“ O navio, mal se balouçando, tinha com intercadências, gemidos dulcíssimos, queixas choradas de mansinho, no silêncio do grande mar em calma; sonolências vagas duma extrema fadiga, movendo-se com vagares, lentidões, rangidos.
Envelheci dez anos nos oito meses daquele cruzeiro.
++++++++
Franque calara-se; elevara o busto esboçando-se na claridade plúmbea da tarde, projetando-se sobre o fundo acinzentado do mar. Bateu, de novo, o cachimbo na amurada; depois debruçou-se e estendeu a vista pelas águas revoltas…
Suavemente inclinado, as velas cheias, com frémitos, o palhabote voava.
Franque continuou:
-- Quando soaram horas lá em baixo, na camara, tangeu a sineta, houve um movimento silencioso de marinheiros revezando-se, e eu fui rendido ao leme.
“ O capitão subira. Era aquele mesmo urso branco que tu, Branál, conheceste em Point Barrow; e que, uma vez, na vinda para baixo, a seis dias de Behring, fez amarrar e açoutar o cozinheiro irlandês que lhe aquecera ovos podres, até rasgar-lhe a carne em tiras, até quebrar-lhe o cavername das costas. Mau homem, aquele diabo!
“Lá teve a paga: morreu morte de cão. Estas coisas, são más dívidas: pagam-se sempre com um juro de matar.
“ Estava, então, o capitão Wolf, em meia-idade de homem. Grandes de homem. Grandes barbas grisalhas; sobrancelhas espessas, hirtas, formando um riçado sobre os pequenos olhos encovados e sombrios, que lhe davam semelhanças de Padre Eterno – daqueles que agente via em criança nos livros da Igreja…
“ Vestia, como sempre, calças e blusa de cutim azul; e sobre o grande nariz de pele vermelha, apoiava-se-lhe a pala sebenta de um velho boné de bezerro.
“ Dois marinheiros surgiram à porta da câmara, conduzindo, numa grande cadeira de vime, que rangia a cada solavanco, a filha do capitão, aquela pobre rapariga tão linda e tão infeliz, cujos cabelos eram mais louros que penachos do milho branco, e cujos os olhos eram sempre doces e consoladores como os olhos de nossas mães.
“ Colocaram-na no alto da escada que dá para a coberta. Wolf debruçou-se sobre o espaldar do vime.
“ Refez-se o mesmo terrível silêncio. Passaram-se, como longas horas, alguns minutos. 
“ Um momento, os olhos do marinheiro crucificado descerraram-se deslumbrados na luz crua do sol, e se fixaram na filha do capitão. Sentiu a americana a incidência dolorosa do olhar agonizante; deixou cair a cabeça sobre o peito; estremeceu; dos seus olhos azuis, semicerrados, viu eu descerem lágrimas. Nesse momento o crioulo soltou um grande gemido abafado; crisparam-se-lhe as mãos; inteirou-se, torceu-se violentamente; os remos curvaram-se; o cabo fino que o enrolava rangeu na madeira; dos pulsos, dos tornozelos, dos joelhos, do pescoço espirrou sangue. Depois recaiu na imobilidade; a cabeça caiu para traz; dos olhos fechados escorriam lágrimas; o peito, uma chaga, arfou violentamente.
 “ Wolf, pálido, fez um sinal à tripulação; abriu-se o largo portaló de cortar baleias; e o filho de Sarda, amarrado à sua cruz, foi atirado ao mar. Debruçou-se o capitão na amurada e olhou.

Voz de Cabo Verde, 21.12.1912                                                             Continua...

(E-mail de Artur Mendes)
    




Sem comentários:

Enviar um comentário