quinta-feira, 19 de novembro de 2015

[8662] - O ROSTO OCULTO DA BARBÁRIE...

Voltou a acontecer no coração da Europa aquilo que, ao fim e ao cabo, é vulgar e quase rotineiro em outros quadrantes geográficos ─ Médio Oriente, sobretudo. Dizer, como se ouviu, que se tratou de uma retaliação do Daehs por causa da participação francesa na guerra da Síria, pode não passar de uma grosseira simplificação ou de uma conclusão precipitada. Calhou à França como podia e pode calhar aos países com semelhante grau de exposição ao risco de atentados do género, quer pela sua geografia quer por conterem no seu seio comunidades islâmicas fornecedoras de mão-de-obra terrorista. Ou seja, têm emcomum o factor proximidade.
A onda de choque emocional que um atentado desta natureza e dimensão provoca num país ocidental é incomparavelmente superior ao que acontece em outras paragens. É ver os casos mais recentes ocorridos na Turquia, no Líbano e no Kweit, para não falar do palco sangrento quotidiano em que ordinariamente se tornaram a Síria, o Iraque e o Afeganistão, regiões essas onde, de facto, os mesmos trágicos acontecimentos não suscitam idêntico grau de repercussão mediática no Ocidente, nem sequer uma reacção com a mesma exaltação à escala internacional. E no entanto a vida humana é um valor absoluto e sagrado; uma vez vitimada por puro exercício de barbárie devia provocar a mesmíssima comoção e repulsa em todo o planeta, independentemente do grau civilizacional, da raça e da religião.
Foi noticiado que a França reagiu aos ataques terroristas do passado dia 13 com uma severa intervenção aérea contra alvos jihadistas na Síria, provocando avultados danos. Isto implica algumas interpelações, não pelo acontecimento em si mas pelo pressuposto de causalidade. É que cabe perguntar se o problema da ameaça centrada na Síria se resolve com simples reacções casuísticas ou de retaliação. Mais, se foi possível o êxito de semelhante acção, é de perguntar também por que essa e outras mais intervenções enérgicas não se inscrevem num quadro táctico-estratégico devidamente concebido e concertado entre as nações que se dispõem a derrotar o autoproclamado Daehs. Ou será que a cada ataque pontual ocorrido em território europeu se vai continuar a responder com simples acções isoladas e que não cortam a cabeça da serpente?
Tal como sucedeu com o caso Charlie Hebdo, voltamos a ver as mesmas proclamações solenes de Hollande e seus pares europeus e ocidentais de dar luta sem quartel ao terrorismo internacional. Mas foi como se estivéssemos a rever o caso Charlie Hebdo, como se o tempo nada tivesse produzido como ensinamento. Parece que algo está a tolher o ânimo e a capacidade de decisão de quem de direito. E assim se instala a desconfiança de que o problema criado na Síria, assim como em todo o Médio Oriente, tem um “bas-fond” aonde não se pode ir sem que a máscara não caia ou não se venha de lá emporcalhado. Na recente reunião dos G20 na Turquia, o tema do terrorismo acabou por constituir o centro da agenda. Obama e Putim foram vistos em pose grave e compenetrada na abordagem do problema do Daehs. Mas com que certezas se fica quando o diplomata e conselheiro do Kremlin Iuri Ushakov vem dizer que "os objectivos estratégicos em relação ao combate contra o Daehs são, numa questão de princípios, muito similares, mas há diferenças na vertente táctica"? É que a diferença pode estar precisamente na vertente táctica.
Pois é, o grau de comprometimento e culpabilidade das potências ocidentais perante o caos em que se tornou o Médio Oriente é tal que elas não se atrevem a um jogo aberto na tessitura de uma estratégia clara e determinada para liquidar o Daehs e tolher a ameaça à segurança internacional que ele representa. Ora, essa organização não é mais do que o resultado perverso de décadas de envolvimento político dos EUA e da Europa no Médio Oriente. Em princípio, destruir esta monstruosidade é relativamente fácil mediante uma acção militar de forças coligadas que se disponham a ir ao terreno e correr os riscos de uma confrontação em toda a linha e inevitavelmente com custos humanos. Porque se uma acção militar convencional em campo aberto produz resultados para os quais existem tabelas e cálculos de previsibilidade, enfrentar um adversário kamikaze em áreas urbanas (combate de rua e de porta em porta) implica baixas consideráveis e numericamente semelhantes para ambos os contendores. 
Além disso, os EUA têm cicatrizes ainda muito vivas de conflitos anteriores em que se envolveram com duvidosa legitimidade jurídica e moral, o que deve constituir um sério óbice psicológico, cientes do embaraçoso escrutínio que é hoje propiciado pelos media na cobertura dos conflitos armados. Combater o Daehs representa, por outro lado, uma dolorosa confrontação com o rosto inconfundível das suas políticas espúrias, quando se sabe que essa aberração que é o Daehs foi, e é, armada e subsidiada por aliados americanos na região como a Arábia Saudita, o Katar e Israel, e por indústrias de material bélico e organizações económicas ocidentais. Do mesmo modo que a Al Qaeda foi um instrumento dos EUA na luta travada no Afeganistão contra a URSS, o Daehs é hoje o produto inesperado da confrontação de dois eixos de interesse no Médio Oriente: EUA-Arábia Saudita-Katar versus Irão-Síria-Hezbollah. E no meio deste cenário temos uma Europa que, pelo circunstancialismo geográfico, é a vítima mais a jeito da mão prolongada do Daehs, e contudo uma Europa pusilânime e sempre à espera que os EUA façam o trabalho sujo de lhe guardar a casa. Uma Europa que se desarmou, que licenciou a sua vontade de investir na defesa, uma Europa tolhida por medos quase atávicos desde a II Guerra Mundial. Ainda há pouco, o presidente Cavaco Silva afirmou que Portugal apoia numa acção contra o Daehs mas sem pensar no emprego de forças militares. Porém, foi animador ouvir a François Holand que não vai cumprir o tratado orçamental para poder investir convenientemente na defesa. Oxalá alguma ilação tire a União Europeia.
Uma coisa é certa. Se se quiser tirar a máscara ao Daehs, é possível que choque a consciência ocidental constatar que o rosto que se desnuda tem mais que um avatar, fruto de políticas erradas do passado remoto e do mais recente. Mas a partir do momento em que a segurança o exige, o Ocidente tem de assumir todos os riscos, mesmo o de se confrontar com os dejectos da sua consciência. É o preço para a sua segurança.

Tomar, 17 de Novembro de 2015
Adriano Miranda Lima

3 comentários:

  1. O ROSTO OCULTO DA BARBÁRIE...
    Mais um excelente artigo do amigo Adriano Miranda Lima (militar na reforma do exército português com grau de Coronel), um homem de uma grande experiência, conhecimento sensibilidade e cultura ímpares ( a língua portuguesa trabalha-a como se estivesse a esculpir). Mais um caso de um alto quadro de origem cabo-verdiana na diáspora, que poderia ter dado muito a CV na sua área de 'expertise', mas como nunca foi simpatizante do paigc nem do mpd nem tão pouco é pessoa de prestar vassalagem.... !!!

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  2. Adriano (profissional emérito) escreveu sobre assunto do seu conhecimento e eu assino (assinamos) sem tirar um virgula. Como dizem no falar da nossa bela ilha de Santo Antão "não há porém" (ou seja, nada a dizer).
    Não longe do lugar dos acontecimentos (a apenas uns 230 Kms) e com familiares não muitos distantes dos sítios nevralgicos, acompanho - revoltado - com muita ansiedade, o desenrolar dos hediondos factos.
    Perante tanta barbaridade, não podemos ser egoístas e deixar só a França, que abriu as suas portas para acolher perseguidos pelo terrorismo, com o pesado fardo às costas. Estamos todos envoltos - de uma forma ou de outra - nesta nesta sùbtil peleja que só pode ser resolvida com a cooperação planetària.
    Há que acordar o mais depressa possível.

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  3. Um verdadeiro artigo de opiniao, com peso e medida.Gostei de o ler. Parabens ao autor.

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