quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

[8713] - SUSTENTABILIZAR A DIVIDA PÚBLICA - (2) ...

DO BRASIL VEM A RESPOSTA PARA CARLOS BURGO...


O problema de Cabo Verde não é a falta de chuva, mas escassez de dinheiro.
Não é possível fazer capitalismo sem capital.
No mundo existem várias e vastas áreas sem uma atividade econômica desenvolvida, e a pobreza é predominante em toda a História da Humanidade, sendo a riqueza privilégio de minorias, como ocorre atualmente no nosso planeta, no qual a maior parte das 7 bilhões de almas vive em condições que nem parece que estão no século XXI.
Uma das causas determinantes da pobreza e da riqueza é o fluxo financeiro internacional.
Os países que se encontram fora da rota dos fluxos financeiros internacionais, como Cabo Verde, padecem na pobreza apesar das suas grandes potencialidades, e aqueles que observam Cabo Verde isoladamente não conseguem entender ou explicar porque esse País não consegue, ao menos, o mesmo desempenho econômico dos seus pares da Macaronésia.
O compararmos Cabo Verde com as Canárias e Madeira, e mesmo os Açores, salta aos olhos que há algo de errado. 
A mesma comparação nos mostra que arquipélagos oceânicos que recebem ricas verbas orçamentárias de tesouros centrais poderosos, como o Hawaii, o Tahiti, ou mesmo o arquipélago de Fernando de Noronha, no Brasil, possuem uma infraestrutura e serviços muito além dos seus próprios recursos, e não precisam manter forças armadas, banco central, comunicações, saúde, relações exteriores e todas as caríssimas despesas que são um flagelo para os pequenos países.
No Hawaii o seu poderoso turismo é importante, mas secundário para a economia havaiana, que possui na administração pública a sua principal atividade econômica. Os Estados Unidos mantém na Hawaii bases militares, universidade e escolas, observatórios astronômicos, hospitais e tantas outras riquezas que o turismo, que de acordo com a Hawaíi Tourism Authority 8,3 milhões de turistas visitaram o arquipélago em 2014, gastando 14,7 mil milhões de dólares (http://www.hawaiitourismauthority.org/default/assets/File/research/monthly-visitors/December%202014%20Visitor%20Stats%20Press%20Release%20(final).pdf).
Creio que a opção soberana que Cabo Verde escolheu, ao contrário dos seus pares de Açores e Madeira, agora manda a sua fatura com o insustentável nível de endividamento cabo-verdiano, como se pode verificar nas maiores relações de dívida pública e do PIB no mundo, como se lê:

DÍVIDA PÚBLICA % PIB - LISTA DE PAÍSES

Japão- 230.% 
Grécia- 177% 
Líbano- 134%
Jamaica- 132.7% 
Itália - 132.3% 
Portugal- 130.2% 
Cabo Verde- 114.2% 
Irlanda- 109.7%
Chipre- 107.5% 
Bélgica- 106.5% 
Estados Unidos- 102.98%

Essa bancarrota do tesouro cabo-verdiano (sendo o escudo de Cabo Verde atrelado ao euro por meio de acordo monetário entre Cabo Verde a União Europeia, por intermédio de Portugal) torna-se ainda mais grave com a crise do euro, inserida na maior crise financeira da História desde a Revolução Industrial, maior até do que a crise de 1929.
O problema de Cabo Verde como pequena nação independente é ainda maior do que a sua viabilidade econômica, mantidas as atuais circunstâncias (ceteris paribus), pois as coisas não estão constantes.

A AMEAÇA MIGRATÓRIA CONTRA CABO VERDE 

Para comodidade dos leitores, segue abaixo a reprodução do texto dos nossos comentários citado pelo Articulista, com sublinhados os parágrafos referentes à ameaça migratória:
“Primeiramente desejo deixar bem claro que concordo com a importância do turismo para Cabo Verde, pois é relevante até para os Estados Unidos e para a os principais países europeus e do mundo, e Cabo Verde de facto possui todos os requisitos de beleza e encantamento para ser tão bem sucedido como os mais famosos arquipélagos oceânicos do mundo, como o Hawaii, Tahiti, Seychelles, os caribenhos, enfim, nada fica a dever em potencial aos melhores destinos, principalmente para os turistas europeus.
Todavia, é necessário ponderar que o cenário actual desse ano de 2015 não é perene, e a qualquer momento a crise mundial pode afetar dramaticamente o País pondo tudo a perder, até o turismo, por óbvio.
O século XXI está sendo cruel com diversos estados que estão a ser destroçados em sequência, com características simulares: Líbia, Iraque, Yemen, Síria e Afeganistão sofrem o caos completo pela luta das superpotências pelas antigas terras desde o oriente até África que já foram dominadas totalmente outrora pelos impérios da Pérsia, de Alexandre Magno, de Roma e Otomano. Egito, Tunísia, Argélia, Arábia Saudita, Líbano, Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Emirados árabes Unidos, Omã, Qatar, irã e outros vivem o agravamento das suas ameaças.
A descolonização que se deu no século XX, na qual Cabo Verde nasce como país soberano em 1975, criou muitos estados independentes que agora voltam a entrar em colapso.
Os países descolonizados que se situam nas regiões de conflito histórico dos grandes impérios já possuem um padrão de ameaça de desintegração.
Cabo Verde se situa entre os numerosos pequenos países sem capacidade própria de resistir a uma invasão e se defender militarmente que proliferaram no século XX, principalmente após a II Guerra Mundial com a supremacia dos Estados Unidos e da União Soviética, quando foram desmantelados os resquícios dos outrora poderosos impérios europeus.
Essa crise econômica mundial, por si só, parece ser bastante para arrasar com a grande maioria dos pequenos países independentes em especial os mais pobres, como os pequenos países arquipélagos oceânicos, como é o caso de Cabo Verde.
O editorial do Expresso das Ilhas desse mesmo dia e hoje, 2 de outubro de 2015, alerta:
"Essa possível evolução da economia não é uma boa notícia para Cabo Verde. Não torna os parceiros mais generosos na dispensa da ajuda internacional, seja por que vias for. Afecta negativamente a procura para bens e serviços cabo-verdianos e tende a diminuir o fluxo de capitais que eventualmente o país poderia atrair."
Por enquanto ainda não há uma sequência de quebras como no caso dos países do antigo Império Otomano, mas em breve países inviáveis economicamente deixarão simplesmente de existir como independentes, por decisão estratégica própria, unindo-se a outros países, ou por desintegração política em razão da bancarrota e do peso de sua dívida insustentável, crises migratórias, tudo se unindo para causar o fim do estado organizado.
Outra grave ameaça para o futuro de Cabo Verde é a crise migratória para o País proveniente principalmente da Nigéria.
Ao longo desse século XXI a população dos actuais caboverdeanos se manterá estável entre 600.000 e 1 milhão de habitantes, enquanto a população da Nigéria em 2030 deverá chegar a 310 milhões de pessoas, em 2050 alcançará aproximadamente 450 milhões de pessoas, e no final desse século deve atingir a fantástica cifra de mais de 900 milhões de almas.
Os demais países da África Subsahariana também crescerão dessa forma impressionante, e Moçambique, por exemplo, deve chegar em 2050 com 50 milhões de habitantes.”
Com essa realidade populacional, Cabo Verde, em 2050, já deverá possuir mais habitantes nigerianos do que os descendentes da sua actual população.
Os emigrantes africanos que devem aportar em Cabo Verde deverão ser movidos pelas perseguições políticas, religiosas e das guerras, trazendo consigo o flagelo dos refugiados.
Pesem bem, chegou o momento de pensar Cabo Verde com consequencialismo, para não virar simples espectador do futuro.”

Da mais alta estima

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2015

César Palmieri Martins Barbosa

4 comentários:

  1. A análise do César Palmieri é realista e vale sobretudo por vir de alguém totalmente independente em relação às nossas causas domésticas e que tem demonstrado, nas suas intervenções, ser pessoa de sólida cultura e conhecedora do mundo. O que ele diz tem a particularidade de convergir com algumas das nossas teses. Desde logo, a grande dificuldade que Cabo Verde terá em manter-se como país soberano, e, mais grave ainda, a probabilidade de vir a desaparecer num futuro provavelmente não muito distante, submergido pela avalanche emigratória oriunda de países da África Ocidental. Não creio que estas possibilidades, principalmente a última, possam ser desvalorizadas por quem se debruce sobre os problemas com um olhar lúcido e realista.

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  2. Segundo o observador/comentador brasileiro César Palmieri Martins Barbosa

    1-O problema de Cabo Verde não é a falta de chuva, mas escassez de dinheiro.

    RE-Bom em primeiro lugar isto arrasa uma visão voluntarista que pretende que a construção de barragens ou uma barragem cheia de água seria a panaceia, que resolveria os problemas de Cabo Verde. Isto seria verdade há 100 anos, mas numa economia de hoje estas pretensões roçam o folclore político ou amanipulação para enganar desatentos.

    O problema do dinheiro foi sempre o problema crónico de Cabo Verde. Nunca houve dinheiro para se investir de maneira sustentada na economia local e hoje temos um estado autocrático que dispõe a seu belo prazer do dinheiro que devia ser disponibilizado à economia
    No século passado o que matou a economia mindelense e logo cabo-verdiana (após o fim do boom proporcionado pela implantação inglesa, o fim da monarquia portuguesa e a ascenção do estado novo castrador) foi a ausência de dinheiro, ou seja liquidez o que provocou uma autêntica emigração hemorrágica.


    2-Os países que se encontram fora da rota dos fluxos financeiros internacionais, como Cabo Verde, padecem na pobreza apesar das suas grandes potencialidades, e aqueles que observam Cabo Verde isoladamente não conseguem entender ou explicar porque esse País não consegue, ao menos, o mesmo desempenho económico dos seus pares da Macaronésia.

    RE-A culpa é do complexo político-económico instalado em CV, que herda mazelas do tempo do sistema de partido único, que matou com um anti-biótico poderoso a débil economia do arquipélago, preferindo um sistema assistencialista baseado na distribuição de donativos. As pequenas células de economia cabo-verdiana que existiam em S. Vicente foram aniquiladas, desmanteladas pelo modelo colectivista importado de Cuba e Guiné Conacri.


    3-A mesma comparação nos mostra que arquipélagos oceânicos que recebem ricas verbas orçamentárias de tesouros centrais poderosos, como o Hawaii, o Tahiti, ou mesmo o arquipélago de Fernando de Noronha, no Brasil, possuem uma infraestrutura e serviços muito além dos seus próprios recursos, e não precisam manter forças armadas, banco central, comunicações, saúde, relações exteriores e todas as caríssimas despesas que são um flagelo para os pequenos países........
    4-A AMEAÇA MIGRATÓRIA CONTRA CABO VERDE

    RE-Este é o problema/dilema mais grave que defronta CV o isolacionismo Atlãntico já que a solução CEDEAO não é do agrado de todos nem tão pouco uma aproximação demasiada ao ocidente agrada 'os anti-imperialistas', tendo em conta os potenciais perigos latentes e a incipiente economia desta região africana. pelo que se impõe uma redifinição geo-estratégica de CV (saber quem são os nossos aliados no mundo) sem o qual o país torna-se insustentável. Mas este é um assunto complexo e o discurso oficial é esquizofrénico, tenta tapar o Sol com a peneira e envolve as pessoas em ilusões.

    Segundo Adriano MirandaLima
    A análise do César Palmieri é realista e vale sobretudo por vir de alguém totalmente independente em relação às nossas causas domésticas e que tem demonstrado, nas suas intervenções, ser pessoa de sólida cultura e conhecedora do mundo. O que ele diz tem a particularidade de convergir com algumas das nossas teses. Desde logo, a grande dificuldade que Cabo Verde terá em manter-se como país soberano, e, mais grave ainda, a probabilidade de vir a desaparecer num futuro provavelmente não muito distante, submergido pela avalanche emigratória oriunda de países da África Ocidental. Não creio que estas possibilidades, principalmente a última, possam ser desvalorizadas por quem se debruce sobre os problemas com um olhar lúcido e realista.

    Ou sejam existem outras análises e visões diferentes das escolas/correntes reducionistas professadas na Praia.
    Mas estas questões incomodam por serem politicamente incorrectas!!!

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  3. Pois é, José, quem olha para a realidade com olhos de ver é logo rotulado de coisas pouco meigas, como, por exemplo, "protagonismo vaidoso", tal como se me referiu um ilustre causídico e ex-deputado.
    Todos os que encaram a realidade tal como ela se apresenta são olhados com desconfiança, como se fossem uma ameaça às acomodadas convicções sobre a intocabilidade sacrossanta da nossa soberania, esquecendo-se de que ela é uma fraude. Crença ingénua de quem pensa que tudo vale desde que outros abram a bolsa. Mas não, as bolsas de outrem não vão abrir sempre e tempo virá em que vai exigir-se uma certa mudança de paradigma.
    O que mais me intriga é Cabo Verde, entre outros devaneios insuportáveis, acreditar que pode ter forças armadas. Penso que tudo terá de ser um dia reequacionado. E convém que não demore, sob pena de sermos totalmente absorvidos pelos nigerianos, como tão bem denunciou o César Palmieri.

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  4. Caro José Fortes
    Pelo muito que tenho lido sobre a economia CV do século passado, tudo aponta, para além de evidente falta de dinheiro e má governação --- tudo aponta: Para o monopólio das carvoeiras que abasteciam o Porto Grande... forma elas, que traíram Cabo Verde, transferindo para os portos da Canarias e do Senegal o abastecimento do carvão a custo muito mais baixo.... a partir desse escabroso monopólio começou a decadência de CV.... Noutro capitulo , temos a arborização !

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