domingo, 17 de abril de 2016

[9135] - UM JESUITA PARA MESTRE PARENTE...


O ano lectivo de 1952-1953 transcorreu comigo a fazer que estudava no Liceu Alexandre Herculano, na Avenida Camilo, do Porto, cidade natal de meus avós paternos e de meu pai... É que minha mãe teimava que eu  devia vir ser um oficial da marinha e, para tal, teria que fazer o então 3º ciclo do Liceu em Ciências o que, para falar a verdade, não era, como hoje se diz, a minha praia...Mau grado o 6º ano ter, apenas, 5 disciplinas, o que nos deixava as tardes livres, a Álgebra, a Química, a Biologia e quejandas matérias do conhecimento científico não me atraíam, definitivamente, o que veio a redundar no mais completo fracasso, pois acabei por passar a Filosofia e a Organização Política, apenas... Mas, apesar de tudo, houve coisas bem positivas nessa minha aventura tripeira como, por exemplo, o meu colega Ramiro Castanheira e o Mestre Parente, um velho acordeonista cego cuja arte fazia as delícias dos transeuntes da Rua de Passos Manuel, não longe do belíssimo Coliseu do Porto...Mas, vamos por partes...
O Ramiro, era aluno assistente a apenas algumas cadeiras, vá-se lá saber porquê, o que lhe deixava as 2ªs feiras livres. Ora, sendo ele de Santo Tirso, era na terra que passava os fins-de-semana, voltando ao Porto ao principio das tardes de 2ª feira. Aí por volta das três, lá estava eu, na Estação de S.Bento à espera dele. Mal chegado, entregava-me o habitual saco de papel com meia-dúzia de "jesuítas", uma especialidade da doçaria de Santo Tirso, enquanto ele carregava a pequena mala de que se fazia sempre acompanhar. 
Da Estação, subíamos a Rua de Sá da Bandeira e, depois, voltando à direita, continuávamos a subir, agora pela Rua de Passos Manuel... Lá bem em cima, quase a chegar à Praça dos Poveiros, ouviam-se os sons melodiosos do acordeão de Mestre Parente que, ao sentir-nos aproximar, parava de tocar, afivelava um rasgado sorriso e saudava, com a sua voz de barítono: "Olá, meninos!"...
Depois dos cumprimentos da praxe, o Ramiro retirava do saco que eu carregava um jesuíta e fazia-o chegar às mãos quase femininas de Mestre Ramiro que, deleitado, o trincava sem avidez, saboreando cada pedaço com os olhos baços levantados para o céu... Era um momento que me arrepiava e me enlevava ao mesmo tempo...
Foi nesse tempo que me fiz fã dos jesuítas que, ainda hoje, como com muito prazer e a memória sempre presente do velho musico que, afinal, vim a saber mais tarde, dava lições de acordeão ao Ramiro, (e não só) duas  vezes por semana... 
Entretanto, regressei ao Mindelo e o Ramiro continuaria no Liceu para o 7º ano... Nunca mais soube nem dele, nem de Mestre Parente  mas jamais esqueci o carinho que o meu colega e amigo nutria pelo velho mestre, uma amizade que, estou certo, se deve ter prolongado no tempo e que eu revisito frequentemente sempre, com renovado prazer!



4 comentários:

  1. Memórias...memórias. Neste caso, para além de ternas, são sinestésicas. Ligam a música ao paladar e falam sobretudo de amizades inesquecíveis. Um tempo belo e generoso, sem dúvida!
    Abraços

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  2. Creio que estes pequenos oásis que o destino coloca no percurso da nossa vivência rotineira nos ajudam a entender melhor o sentido da vida e a moldar muitos aspectos do nosso comportamento perante o nosso semelhante...Obrigado, Ondina, pela companhia e pelo afeto!
    Braça
    Zito

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  3. Não faltando, falta um "c" em afeto...
    Peço desculpa
    Zito

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  4. Comecei a ler e tive logo curiosidade de procurar o nome do autor do texto. Mas já no fim concluí que era o nosso Zito, pois fala no regresso ao Mindelo. E aqui é fiquei baralhado, porque pensava que o nosso amigo tinha feito todo o liceu no Gil Eanes.
    Resta dizer que esta prosa é tão saborosa como deve ser o jesuíta.

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