quarta-feira, 4 de maio de 2016

[9187] - RECORDANDO O TOTÓ ST'AUBYN...



Tocou-me imenso o falecimento do amigo de infância, em Cabo Verde, juventude e idade adulta, em Coimbra, António da Silva St Aubyn, que, entre amigos, era o Totó. A última vez que estive com ele foi na Conferência Internacional Comemorativa da Independência de Cabo Verde, na Gulbenkian, em que ambos falámos das nossas recordações como militantes pela independência.
Ambos naturais da Patchelândia, sendo as nossas famílias muito chegadas, a mãe, minha madrinha de baptismo, o irmão Adriano, partilhando o meu leite materno por a mãe ter secado o leite devido a uma contrariedade, são factos que atestam a amizade e cumplicidade das nossas famílias. O pai foi um grande comerciante de S. Nicolau, abastecendo-se da Alemanha, mas veio a falir devido à 2ª guerra Mundial que lhe cortou a fonte de abastecimento das suas mercadorias.
Recorro-me a algo do que escrevi sobre a malta estudantil em Coimbra no meu primeiro livro, ULI-ME LI!, no capítulo Estórias Coimbrãs, para refrescar a memória e relatar peripécias vividas nessa época em que intervém o Totó.
Foi o ele que me foi esperar na Estação Velha de Coimbra, quando decidi mudar de universidade, e levou para a sua república, o 21, inicialmente situada na parte alta da cidade, que se mudou para a rua ao lado da Sereia devido às obras de construção de novos edifícios para as diferentes faculdades. Nesta república coabitavam cabo-verdianos, açorianos e metropolitanos na maior harmonia, em perfeita fraternidade “luso-cafreal”, com disse alguém.
A fraternidade e solidariedade entre a malta de Cabo Verde nesses tempos em Coimbra eram extraordinárias. Vivíamos como irmãos de sangue e caldeou-se uma amizade imensa entre nós, que ainda se mantém, apesar de estarmos, quase todos, espalhados por esse mundo fora. Quando nos encontramos, é sempre uma festa, e alguns até se correspondem, o que já vai sendo raro nos tempos que correm. Éramos unidos tanto nas alegrias como nos sofrimentos e desaires, íamo-nos amparando mutuamente, fora do nosso nicho ecológico arquipelágico, tomando as responsabilidades a sério, entremeadas de paródias e gozos mais ou menos inocentes. Um chumbo era sentido como algo colectivo e os sucessos festejados. O nosso clube era, mais vezes, o Café Fontes, na Praça da República, do lendário Fontes.
Morei, no meu primeiro ano de Coimbra, numa casa na parte alta da cidade, situada atrás do CADC (Centro Académico de Democracia Católica), um ninho de estudantes católicos e de situacionistas, casa pertencendo a Maria Xabrega. Com oito a dez quartos ocupados por estudantes, era uma construção antiquíssima a que se adaptou uma casa de banho para todo o maralhal. O Totó é que ma arranjou e lá encontrei o Quiras (Jorge Querido) [no texto de ULI-ME LI! só utilizei alcunhas, mas neste irei identificar os amigos] e o FIdjon Fufu (Júlio César Feijóo Pereira). Foi este que me pôs a par da praxe e modas coimbrãs, por ser caloiro estrangeiro (vindo de outra universidade), não sujeito aos rigores da praxe estudantil, ele caloiro puro e o Quiras puto ou semi puto, portanto tendo já ultrapassado a condição de caloiro. O Totó já era veterano. Eu e o Fidjon comíamos na Maria Xabrega, bem como o Vário, que morava noutras bandas, o Quiras, na Cantina Universitária, chamada Filantrópica, mais conhecida entre a malta sob o nome de Morte Lenta. O Quiras estava magríssimo e, na cabeça, só se viam as orelhas afastadas; não obstante essa magreza era desaforado e “fortioso”, prometendo pancada a meio mundo, quando sob o efeito de copos.
A malta crónica do Café Fontes era o Felício/Armandim (Armando Gomes), Chico e Totó (também com a alcunha de Sic) St Aubyn, Néco (Leonel Barbosa), Pomada (Eduardo Gomes), Álvaro Cohen, Poupée (Osvaldo Lopes da Silva), Sousa e Momão (Barbosa Matos, Vetz (Albertino Fortes) e Agostinho Fortes, Fidjon, Quiras, Rolando Martins, Talona (Alcides Fialho), Pozolana (Aguinaldo Lisboa Ramos), Coleras (Elísio Silva), Chico Nhanhá (Chico Brabosa), Bau (Jorge Morais), Tito Ramos, António Graça, Lombriga (João Soares), Pritim (Olívio Pires), Evelize, Alípio de Toi Pombinha (Alípio Gomes), Youlou (Eduardo B. Vieira), Coruca (António Almeida), Doedjo Froxo (Rogério Leitão), Micro (Rui Machado),Qüina (Cohen), Jon P. (António Cohen), Van Pirú (irmão do Fidjon), Azincourt, Ireneu Gomes, António Joaquim, Nhunha (Jorge Humberto), Cachula (A. Caldeira Marques), Duca (Ildo G. Matos), Cardoso, Dick, Vicente Pinto, H. Pascoal, Pizim d´Ange (José da Paz), Rui Maia, Smith, Zazá (Salazar Ferro), Manuel Camões, Matiota, Tchol (Anselmo Évora), entre outros cujos nomes me escapam agora.
O dono do Café Fontes, um parolo sui generis, que conseguia levar à certa os senhores “doutores” com a sua esperteza saloia, de quem conto, em ULI-ME LI!, algumas peripécias em que participou, nunca conseguiu dizer St Aubyn; para ele o Chico e o Totó eram os Doutores Santola.
Havia todas as tendências, geralmente benignas, entre a malta; os intelectuais puros eram ariscos, mais aderentes aos aborígenes locais cultos (Vário, Cardoso, etc.), e não se contava com eles para as nossas paródias e raras vezes iam ao Fontes. Os carolas da bola predominavam: Nhunha, Rui Maia e Tchol, que eram praticantes e estrelas no firmamento futebolístico, bem como o Matiota. O Totó, Chico, Pomada e Camões, grandes estrategos teóricos, que nos enchiam a cabeça com tácticas e estratégias, antes e depois dos jogos da Académica. O Totó era também um “apaixonado” do cinema, mas para dormir e ressonar tranquilamente, durante as projecções, independentemente da qualidade dos filmes. Duvido muito que alguma vez tenha visto um filme do princípio ao fim. Duas vezes me desencaminhou para o acompanhar; o resto da malta recusava-se, redondamente, a acompanhá-lo por já conhecerem os seus hábitos. Ao segundo convite convenci o Jon P. a ir connosco; metemos o Totó entre nós, e cada um do seu lado aplicava-lhe uma valente cotovelada todas as vezes que começava a cabecear ou a ressonar. Acordava furioso, protestando, para retomar a djonga, e nós recomeçávamos as cotoveladas. Só assim é que deixou de me convidar para o acompanhar ao cinema.
O Tchol – outro amigo perdido há algum tempo, que se radicou em Moçambique - vivia nesse tempo, ainda estudante liceal, portanto, bicho na terminologia estudantil Coimbrã, ao lado de caloiros e veteranos. Futebolista de talento com pouca sorte na Académica, encorpado e atlético num físico de ébano, esguichando energia por todos os poros, tinha, no entanto, as suas susceptibilidades como, de resto, todo o pecador, muito particularmente no capítulo da cor. Não que tivesse complexos, mas não tolerava brincadeiras com ele nesse capítulo.
Estava ele no quarto do Totó a tirar alguma dúvida em matemática, com um valente penteado com popa e um alto no cocuruto, quando entrou o Poupée, o qual, olhando para ele comentou, dentro do gozo da malta: “olhem para a cara desse gajo! Parece um peru com a crista em pé. Esses pretos nunca mais tomam juízo”!…
O Tchol deu um pulo da cadeira como se fosse accionado por mola, pegou no Poupée, que era peso pluma, levantando-o à altura da cabeça e atirou-o contra à parede. Felizmente o Totó esgueirou-se entre ele e a parede, apanhando com o Poupée na sua peitaça esquelética, estatelando-se os dois no chão ficando o Totó sem fôlego. O Tchol saiu furioso, a bufar por todos os lados. Quando o Totó recuperou o fôlego e poude falar, foi dizendo ao Poupée: “olha que o tipo levou isso a sério! O melhor é ires falar com ele …” Eu?! Replicou o Poupée. Safei-me de boa, que ele ainda me matava de encontro à parede. Vou esperar que isso arrefeça.”
Volvidos alguns dias, estava o Poupée e o Tchol, entretidos da vida, a meter-se com o Alípio, alegando ter alguém encontrado o Alípio numa pastelaria da baixa à procura de pirinhas das ilhas. Claro que era aldrabice para se meterem com o Alípio, porque, como ele explicou, fora a mãe a inventora da pirinha das ilhas, em S. Vicente. O Alípio era uma paz de alma e nem impunha a sua condição de veterano a um bicho e puto, obrigando-os a sair à rua de cuecas, um às costas do outro. Era de uma credulidade e bem intencionalidade impressionantes, vítima, por isso, de inúmeras galgas que a malta lhe enfiava e ele tomava a sério. A única pessoa de quem não aceitava gozos era do Totó; a malta nunca soube explicar essa idiossincrasia, pois eram amicíssimos e colegas de curso. Ia aos arames e afinava ainda mais a voz, prometendo até pancada. Muito posteriormente vim a saber que entre o Alípio e o Totó houvera um contencioso, quando estudantes liceais, num jogo de futebol em S. Nicolau, durante as férias, em que o Totó era jogador e o Alípio treinador. O Alípio substituira o Totó por outro jogador, na segunda parte do jogo, quando o clube ganhava, e este veio a perder a partida. Quando se encontravam, o Totó atirava-lhe sempre à cara: “Em equipa que ganha não se mexe!”
Vim a reencontrar o Totó mais tarde, em Paris, aquando da minha viagem de curso em 1965, financiada parcialmente por laboratórios farmacêuticos, de visita a estes, na Alemanha, Itália e Suiça, com passagem, no regresso, de dois dias e uma noite, por nossa conta, em Paris. Como tinha a direcção do Olívio Pires em Paris, escrevi-lhe ao atravessar os Pirineus, dando-lhe conta do meu itinerário. Ao chegar a Paris, lá estava o Olívio na estação de comboios à minha espera. Desenfiei-me dos colegas da viagem e parti com o Olívio, indo ter com o Joaquim Monteiro, que já conhecia, e o Pedro Pires, que conhecia praticamente de nome e fama. Levava alguma informação das nossas actividades em Portugal e trouxe outras, do contacto que tiveram com Argel, onde estavam dirigentes do Paigc. Estive também com o Totó St Aubyn, que trabalhava na sua tese de doutoramento, já casado e com o primeiro filho, de tenra idade, que nos acompanhou num passeio a pé, em Paris, de bate papo. Ele era um dos elementos chave do Paigc em Paris e conjuntamente com Jorge Humberto foram à Holanda e Bélgica contactar os patrícios mobilizando-os para a luta de libertação, facto de que pouco ou nada se fala.
Muito mais tarde viemos a encontrar-nos, embora esporadicamente, em Lisboa, por ocasião de uma ou outra festa ou nos enterros de amigos, dado que a sua profissão de professor catedrático pouco tempo lhe deixava para o convívio com amigos.


Parede, Maio de 2016                                                                         Arsénio Fermino de Pina

2 comentários:

  1. Gostei de o ler. Um texto tocante de recordações de um tempo belo e generoso de companheirismo e de boas cumplicidades. A imagem saudosa do amigo recentemente falecido, aqui colocada também entre o grupo de patrícios estudantes, espelha claramente a dimensão social e afectiva do distinto Professor St.Aubyn.

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  2. Saudosa e rica evocação, Arsénio. Que o António St. Aubyn descanse em paz. Os amigos partem mas continuam vivos se os recordarmos sempre.

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