sábado, 3 de dezembro de 2016

[9975] - AS CRÓNICAS DE ARSÉNIO DE PINA...


 

 O efeito de estufa/aquecimento global

A notícia do Acordo de Paris sobre o aquecimento global assinado pelos maiores poluidores mundiais, China e EUA, e a Reunião de Marraquexe, em Marrocos, em curso, para a execução desse Acordo, dão-me alguma esperança que o bom senso vá prevalecer para limitar os danos e evitar a catástrofe previsível que já vai dando sinais da sua gravidade. É óbvio que para se proceder assim, é preciso ter no coração e cérebro, uma boa dose de senso moral e convicção, virtudes bem raras nos políticos, parecendo alguns ser antes sociopatas. Aproveito a ocasião para recapitular algo que já escrevi, acrescentando algumas novidades relativamente ao efeito de estufa e suas consequências imediatas, o aquecimento global e as consequências desta.
O actor de cinema Leonardo Di Caprio, um patrocinador da luta contra a poluição e o aquecimento global, vem mostrando, através de um filme, as consequências do efeito de estufa, através de entrevistas de cientistas, líderes políticos e das vítimas desse desmando, tentando dar força às resoluções da última Reunião de Paris, a qual, finalmente parece ter levado a tomar medidas pertinentes, os principais líderes políticos mundiais, cujos países são os maiores responsáveis pela poluição atmosférica e do meio ambiente, que já levou à destruição da biodiversidade em mutos países, com a subversão de muito ecossistemas onde animais e plantas viviam. Como já não se pode negar os efeitos nefastos da poluição do meio ambiente pelo uso imoderado de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás), que são fontes de energias não renováveis, os países mais poluidores aceitaram pôr em marcha a substituição deste tipo de energias por outras, as renováveis (solar, eólica, das ondas do mar, e, no futuro, com o avanço da tecnologia, à base de hidrogénio).
Ultimamente, tem havido grandes progressos na produção de baterias. Elas armazenam energia elétcrica, o que vem estimulando a construção de automóveis eléctricos que, no futuro, irão substituir os movidos a gasolina e gasoil. Venderam-se, em 2016, cerca de 500.000 automóveis eléctricos, e graças aos progressos tecnológicos aplicados às baterias, esse número subirá para 50 milhões em 2025, portanto, daqui a nove, dez anos. Ter em conta que os automóveis e outros meios de transporte utilizam 55% do petróleo consumido no mundo. As empresas que mais investem nessa tecnologia (baterias) são a Tesla, Nissan e BMW.
Os plásticos, que vieram revolucionar imenso a nossa maneira de viver e de economizar, dada a variedade de formas a que se prestam, vêm, infelizmente, sendo um dos grandes poluidores do meio ambiente, dada a sua durabilidade e resistência. Grande percentagem do lixo doméstico e industrial é composto por plástico, criando problemas para a sua destruição ou reciclagem, utilizando-se, na maioria dos casos, o fogo, que faz libertar grande quantidade de gases tóxicos. O mar está intensamente poluído com plástico boiante, prejudicando peixes, aves e tartarugas que o ingerem, matando-os. Havendo plástico biodegradável, deveria proibir-se terminantemente a produção de plástico não degradável com a sua substituição pelo biodegradável, mesmo com aumento de preço, dado os benefícios para a Natureza.
A substituição do carvão e petróleo pelo gás – estratégia europeia em salvação das petrolíferas, quando deveria defender a saúde dos povos e do ecossistema – não resolve o problema, pelo contrário, agrava-o, dado que o metano que se liberta na extracção do gás, no seu transporte e uso, têm setenta vezes mais poder de estufa do que o dióxido de carbono ou anidrido carbónico, isso devido ao facto de o gás combustível ser composto principalmente por metano, segundo nos informa o engenheiro do ambiente e investigação João Camargo. Outro grande produtor de metano é a criação de gado para produção de carne, havendo estudos que demonstram libertarem tanto ou mais metano do que os carros (30% da poluição atmosférica). Grande quantidade de metano está retida por baixo do gelo dos glaciares e o aumento da temperatura global vem diminuindo a espessura do gelo e provocando a sua destruição com libertação de enorme quantidade de metano. Nas últimas décadas tem havido uma subida de temperatura da ordem de 1 a 1,5 graus C., e prevê-se aumento dessa temperatura da atmosfera, devido aos danos já provocados com consequente continuação do degelo e maior subida do nível da água do mar. Esta subida afecta vários países (Bangladeche e ilhas do Pacífico, que já estão com graves problemas e, com o tempo, os seus habitantes terão de emigrar), cidades costeiras e praias. Um aquecimento global acima de 2 graus C. será potencialmente catastrófico para o planeta por pôr em causa o equilíbrio global. O Acordo de Paris tem por objectivo não ultrapassar 1,5 graus C. de aquecimento global.
Dois terços do anidrido carbono são retidos pelo mar, mas o aumento desta taxa de absorção provoca acidez da água e leva à libertação de metano retido no fundo do mar sob forma neutralizada.
O aumento da temperatura acarreta evaporação da água do mar e maior massa de vapor de água quente na atmosfera, temperaturas mais elevadas da água, com alterações nas correntes marítimas que têm reflexos nos países por onde circu*Pediatralam essas correntes marítimas. Disso resultam temporais, tufões, ciclones, chuvas copiosas acompanhadas de temporais que arrasam tudo pela sua passagem. A nível de outras regiões, afectam terras e florestas, provocando secas e incêndios com destruição de florestas e animais. A Corrente quente do Golfo do México, por exemplo, que se dirige para o Norte e beneficia o Reino Unido e outros países da região, poderá deixar de circular devido à entrada de água doce fria do degelo dos glaciares do polo Norte, criando uma nova era glaciar no Norte da Europa.
O Programa das Nações Unidas para o Ambiente declarou, depois do Acordo de Paris, que os estragos já feitos pelos países e as indústrias criadas levarão a que, ainda em 2030, sejam libertadas para a atmosfera 12 a 14 mil milhões de toneladas de anidrido carbónico acima do limite máximo, limite para que não haja alterações climáticas perigosas. Se não começarmos já a assumir acções às do Acordo de Paris, iremos chorar uma tragédia humana que poderia ter sido evitada, avisou o director da Agência da ONU, Erik Solheim. 97 países, daqueles 197 que assinaram o Acordo, já o ratificaram. Juntos são responsáveis por 66% das emissões de gases com efeito de estufa.
Termino congratulando-me por não estarmos mal, em Cabo Verde, no capítulo da substituição das energias fósseis não renováveis pelas renováveis, embora pudéssemos estar mais avançados, se os diferentes governos tivessem escutado as vozes de alguns técnicos nacionais conhecedores do assunto, sem estarem a olhar para a sua militância política – a pecha maior do nosso Estado, de privilegiar a militância em substituição da competência -, de entre os quais cito dois que conheço melhor, António Pedro Silva e Januário Nascimento. Se usasse chapéu, o que nos tempos actuais ninguém já usa, tirá-lo-ia em homenagem às suas lutas.
Praza ao Bom Deus de todas as religiões que o Presidente Trump não venha a destruir as esperanças que nasceram com o Acordo de Paris, por ser dos que não acreditam no efeito de estufa.

Parede, Novembro de 2016 
Arsénio Fermino de Pina
Pediatra e sócio honorário da Adeco

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