domingo, 14 de fevereiro de 2016

[8911] - O AVIÃO SEM PILOTO...

Flora Gomes
Um avião chamado Guiné-Bissau com um piloto que ficou cego e surdo, acusa Flora Gomes!

O cineasta guineense Flora Gomes ilustra com uma cena trágica a crise política no país, que completa hoje dois meses sem Governo.
O realizador imagina toda a população a viajar num avião, que representa o país, em que se pensava estar “um bom piloto. Só que de um momento para o outro, o piloto ficou cego e surdo” e ninguém sabe para onde vai.
Flora Gomes é um dos artistas guineenses ouvidos pela Lusa que se diz “revoltado” com as decisões do Presidente da República, José Mário Vaz, o “piloto” que a 12 de agosto demitiu o Governo contra a opinião generalizada das entidades nacionais e estrangeiras.
Depois de o país ter conquistado no início do ano a confiança internacional, traduzida em mil milhões de euros de intenções de investimento, caiu numa crise política “que ninguém esperava. Muito menos nós, que andamos aqui todos os dias”, referiu.
O cineasta não quer revelar o que acontece ao avião que já começou a imaginar.
“É um trabalho em que ainda estou a refletir” para saber “como vou tratar disso, daqui a uns anos”, referiu.
Se resultar num filme, vai retratar o que Flora diz ser “um momento de desespero e de revolta”, sobretudo para a juventude que já merecia poder “sonhar” como “toda a juventude do mundo”, em vez de ter a vida limitada ao “capricho de um super-homem que acha que é todo-poderoso. Neste país acho que já não há lugar para isso”.
Bissau voltou a ter falhas no abastecimento de água e eletricidade e os projetos de investimento, vitais num país onde falta tudo, aguardam por um entendimento político que tarda em surgir.
“A malta da nossa geração achava que situações de crise, paralisia ou golpe de Estado, nem que seja palaciano, já estariam ultrapassadas neste país. E que estaríamos todos virados para a luta pelo desenvolvimento”, refere Spencer Embaló, um dos membros do Movimento Ação Cidadã (MAC).
Este grupo de jovens tem organizado ações culturais, entre as quais o HomenageArte, destinado a mostrar o trabalho de guineenses que sirvam de exemplo para as novas gerações.
Flora Gomes foi o primeiro homenageado e o MAC conseguiu o feito de organizar um evento cultural no quartel da Amura, sede dos líderes militares, local temido para muitos guineenses e impenetrável até ao último ano.
“Neste momento, as bases da democracia e da liberdade estão absolutamente tremidas. Não sabemos muito bem se iremos descarrilar por completo ou reerguer-nos”, refere Spencer.
O que se passa agora na Guiné-Bissau “não é normal, mas vai mostrar a máscara” de alguns políticos, acrescenta Jacinto Mango, poeta e ator, que a 24 de setembro, Dia da Independência, percorreu ruas de Bissau disfarçado de Amílcar Cabral, um dos fundadores da nacionalidade guineense.
“Já convidei os políticos, tanto através do teatro como da poesia, para olharem para o rosto do povo e saber se ele está contente ou não. É isso que os políticos devem começar a fazer”, porque não faz sentido “ter um bom discurso e ver o povo chorar”, sublinha.
O jornalista e poeta Tony Tcheka lançou na última semana, em Bissau, o seu último livro, “Desesperança no Chão de Medo e Dor”, que retrata sentimentos e ambientes de um outro momento de instabilidade, o golpe de Estado de 2012.
No contexto atual, Tcheka teme o desespero que pode levar “pessoas menos recomendáveis a fazerem as suas loucuras”.
“Mais um ato de loucura que conduza a qualquer ação de violência pode ser o fim da Guiné-Bissau, porque estamos a ficar debilitados moralmente, psicologicamente, materialmente e fisicamente”, alerta.
Todos estes guineenses ouvidos pela Lusa têm projetos em suspenso devido à crise política.
“Se o Movimento Ação Cidadã chegar à conclusão que a democracia está em perigo, é difícil conseguir ter discernimento, pensar em atividades culturais, embora merecidas, como o HomenageArte”, explica Spencer Embaló.
Flora Gomes, por seu lado, já deveria ter em andamento “um novo trabalho cinematográfico”, mas faltam interlocutores: “não sei com quem falar, não há ministros. Está tudo parado, estou à espera”.
Jacinto Mango questiona: quem é que ainda vai querer apoiar atividades no país?
“Uma coisa que tenho de sobra é criatividade. E inspiração. Mas não posso concretizar essa inspiração num país em que há sempre turbulência. Quem é que me vai ajudar”, questiona.
“Havia tanta coisa prevista depois da mesa redonda de Bruxelas (encontro de doadores realizado em março) que foi quase como uma lufada de ar fresco q chegou até nós. Os nossos parceiros e amigos acreditaram em nós”, lembra Tony Tcheka, mas afinal a Guiné-Bissau voltou a cair na instabilidade.

4 comentários:

  1. Excelente artigo escrito em 24.04.74

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  2. Afinal, um país adiado há...quarenta anos! Minha gente é tempo de mais! Felizmente os homens de cultura não deixam morrer a esperança. Bom artigo!

    Abraços

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  3. Mas Bolas quando é que os guineenses de boa vontade tomam aqule país na mão e acabam com o caos. Ou será que a Africa continental nºão tem solução?

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  4. Tenho muitas dúvidas que haja entendimento. E tenho pena de ter dúvidas.

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