quinta-feira, 6 de outubro de 2016

[9757] - AS NOVAS VAGAS...

 Uma pitada da História da Humanidade e das perspectivas futuras

Alvin Toffler, educador, escritor e jornalista americano, autor do best seller “O Choque do Futuro”, e de “A Terceira Vaga”, da Ed. Livros do Brasil, Colecção Vida e Cultura, irá ajudar-nos a entender o dia-a-dia, sem necessidade de recurso a tratados de Filosofia.
Muitas das mudanças de hoje não são independentes umas das outras, nem fortuitas. O desmoronamento, por exemplo, da família nuclear, a crise energética global, a emergência de movimentos separatistas, a proliferação de seitas religiosas, o terrorismo islâmico, etc., embora pareçam acontecimentos não relacionados, estão interligados. São, na realidade, partes de um fenómeno muito maior: a decadência do industrialismo e o nascimento de uma nova civilização, a que o autor chama Terceira Vaga, de que somos os filhos, a época que começou com os computadores, a robótica, a comunicação variada e rápida, as energias renováveis, os grandes progressos científicos e sua influência na nossa vida de relação, existência, domínio de doenças, etc.
Alvin Toffler considera a História como uma sucessão de vagas de mudança. Antes da primeira vaga de mudança, a maioria dos seres humanos vivia em pequenos grupos, frequentemente migratórios, e subsistia à base de recolecção, da caça, da pesca e limitadamente da pastorícia. A certa altura, mais ou menos há dez mil anos, a revolução agrária começou, no chamado Crescente Fértil (no Próximo Oriente, a região actualmente em guerra acesa, Iraque, Líbano Turquia, Palestina e Síria), e avançou lentamente através do mundo disseminando aldeias, povoações, terra cultivada e um novo modelo de vida, que descrevi numa série de artigos baseado nas investigações do historiador americano Jared Diamond, no seu famoso livro Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas.
Ainda essa primeira vaga de mudança não se tinha esgotado no Século XVII quando surgiu a revolução industrial na Europa, que desencadeou a segunda grande vaga de mudança mundial.
Calcula-se que por volta da Revolução Francesa (século XVIII), a Europa ia buscar a energia a 14 milhões de cavalos e 24 milhões de bois, explorando assim fontes renováveis de energia. Até os animais e as pessoas eram “escravos da energia substituível ou renovável”. Em contraste, todas as sociedades da segunda vaga começaram a ir buscar a sua energia ao carvão, gás e petróleo – combustíveis fosseis insubstituíveis -, o que significa que, pela primeira vez, uma civilização estava a consumir o capital da Natureza, em lugar de se limitar a viver dos juros que ela produzia.
Entre 1955 e 1965 começou a terceira vaga, primeiro nos EUA, com o aparecimento dos computadores, os quais vieram revolucionar a nossa maneira de trabalhar e de viver e permitir novas invenções e abordagens da vida numa variedade sem fim de novas tecnologias e descobertas. Todas essas mudanças puseram em cheque as instituições que nos governavam durante séculos tornando-as obsoletas, necessitando de revisão ou substituição. As nossas estruturas políticas e governamentais foram concebidas numa altura em que o Estado-Nação estava ainda a firmar-se; cada governo podia tomar decisões mais ou menos independentes, o que deixou de ser possível hoje, embora mantenhamos o mito da soberania. Esta a razão por que achamos que os líderes actuais são fracos e menos capazes do que os anteriores, como Churchill, De Gaulle, Adenauer, Roosevelt, Kennedy, Margaret Thatcher, os quais, transpostos para a nossa época, pouco poderiam fazer tamanha as diferenças, variedades e inter-relações de problemas, fraqueza da política face à economia e sistema financeiro. O líder de ontem estava livre para exercer autoridade pessoal, sem ser contido pela constituição, pela legislação ou pela opinião pública se assim entendesse, o que não se passa nos nossos dias na maioria dos países.
A expansão da liberdade humana não poderá ser feita pela simples defesa das instituições existentes. Há que inventar outras, como fizeram os pais fundadores há dois séculos. Hoje, nesta nova vaga de progresso, o industrialismo vai ficando para trás nos países altamente desenvolvidos, com transferência ou deslocalização das indústrias muito poluidoras ou desactualizadas para os países do Terceiro Mundo, o que leva a uma desmassificação da sociedade, ao desemprego, instabilidade social e à debilidade dos sindicatos de trabalhadores nos países desenvolvidos, o que explica porque as classes trabalhadora, os sindicatos, os movimentos sociais, etc., estão frágeis, em queda por todo o lado. Em consequência disso, está a ser cada vez mais difícil mobilizar uma maioria ou constituir um governo de coligação, como aconteceu na Itália, Holanda, Grécia e se passa em Espanha. Os consensos são cada vez mais difíceis.
Algumas gerações nasceram para criar, outras para manter uma civilização. As gerações que lançaram a segunda vaga de mudança histórica foram compelidas, por força das circunstâncias, a serem criadoras. Os Montesquieu, Os Mill, os Madison e outros inventaram a maioria das formas políticas que ainda tomamos por certas e correctas. Hoje, enfrentamos a necessidade de criar novas formas da Terceira Vaga, e muitos países estão já a começar a fazê-las. Para que isso avance, devemos desencadear o mais amplo debate público (conferências, programas de televisão, discussões, exercícios de simulação, etc.) acerca da necessidade de subverter as actuais instituições visando a criação de uma nova civilização a que o autor em referência chama de Terceira Vaga.
Claro que a mudança não é fácil por não convir aos que dominam o poder político sujeito à economia e ao sistema financeiro: troçam da democracia directa apodando-a de populismo, resistem à democratização, à descentralização, regionalização e à diversidade, desdenham das preocupações ecológicas e daqueles que não se integram no seu rebanho monolítico. A descentralização não é contra a centralização, não tem um sentido obscuro e não pretende ser um Cavalo-de-Troia. Consiste simplesmente na redistribuição da tomada de decisões para outros sistemas por as actuais sobrecarregarem a centralização a tal ponto que fluxos de informação estão a submergir os decisores políticos centrais.
Não é possível a uma sociedade descentralizar e regionalizar a actividade económica, as comunicações e muitos outros processos cruciais sem, mais cedo ou mais tarde, ser obrigado a descentralizar também a tomada de decisões governamental. Tudo isso exige mais do que mudanças cosméticas em instituições políticas existentes. Implica batalhas maciças sobre o controlo do orçamento, transportes, energia e outros recursos, dado que há milhões de pessoas que se sentem hoje igualmente separadas das instituições dignas do seu respeito, do seu afecto e da sua lealdade. Isto faz-me recordar o desabafo do amigo e economista Manuel Varela Neves no lançamento de um livro meu na Associação dos Antigos Alunos Liceais, em Carnide, de que o mal está nas actuais instituições que necessitam de revisão.

Parede, Setembro de 2016                                                        Arsénio Fermino de Pina
                                                                                                (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

1 comentário:

  1. As minhas efusivas felicitações ao autor, Arsénio de Pina, porque nos últimos tempos pouquíssimas vezes me foi dado ler algo como este soberbo artigo. Um pensamento profundo, que vai à origem e às causas verdadeiras do impasse que o mundo atravessa, incapaz que se mostra de encontrar as respostas acertadas, por dificuldade em ler a História com lucidez e largueza mental. Foi mesma deliciosa esta leitura. Oxalá uma pessoa com a inteligência, a cultura, a visão do mundo e a estatura moral do próximo secretário-geral da ONU ajude a lobrigar as portas de saída de que o mundo precisa.

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