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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

[9548] - CONFLITO DE CONCEITOS...



JOGOS OLIMPICOS RIO 2016
TORNEIO FEMININO DE VOLEIBOL DE PRAIA
EGIPTO - USA

MAIS DO QUE UM DUELO DESPORTIVO ESTA FOTO ILUSTRA UM INDISFARÇÁVEL
CHOQUE DE CULTURAS!
É OBRIGAÇÃO DAS PARTES RESPEITAR AS DIFERENÇAS COMO UM DIREITO UNIVERSAL
NÃO COMPROMETENDO A SÃ CONVIVÊNCIA
QUE DEVE PRESIDIR AO RELACIONAMENTO
HUMANO DE TODAS AS ETNIAS, DE TODOS OS CREDOS, DE TODAS AS CULTURAS!



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

[8882] - PRETIDÃO DE AMOR...


A "RAÇA" NEGRA

Luís de Camões e a escrava Bárbara

Em 1893 um fino burilador de prosa portuguesa, não menos dedicado na frase que profundo na erudição deu à estampa, Imprensa Nacional de Lisboa, em artística edição, uma linda monografia, acerca das célebres redondilhas de Luís de Camões – “Endechas a Barbara escrava “ – com traduções em muitas línguas e dialectos.
A esse “ramalhete poliglótico”, deu, o ilustre publicista, o título de “ Pretidão de Amor”.
Toda a erudição, todas as rendilhadas belezas que dão, a esse delicioso trabalho, valor incontestável, não conseguem desvanecer, no espirito dos leitores que conhecem a raça negra, algumas pequeninas inexatidões inspiradas nos preconceitos que ainda hoje tão mal predispõem os brancos, mesmo os mais inteligentes e criteriosos, no que respeita à raça negra. E se, de um lado, como atenuantes de semelhantes erros, se nos apresentam, como razão, o facto de desconhecimento da raça negra; de outro, como agravantes de força a desautorizar a crítica dos negrófobos, está essa razão de ignorância, que suficiente devia ser para reduzir a silêncio todos os acusadores gratuitos da raça negra, desde os que delicadamente se arrepiam de crer que Camões tivesse amado uma preta, até outros apologistas não menos conscientes que ridículos, que apregoam a monstruosidade de bárbaros princípios “malthusianos” que convém aplicar à raça negra.
Neste apreciável trabalho – “ Pretidão de Amor” – o autor, estabelecendo a duvida de que Camões tivesse amado uma negra, produz, ainda assim, lealmente, testemunhos que abonam a veracidade do facto histórico, e que, honrosamente se evidenciam justos para com a raça negra, incontestavelmente melhor dotada, no actual estado de incultura moral, de qualidades e virtudes, que os brancos, em igual período de desenvolvimento espiritual. Ainda hoje, entre os próprios selvagens do centro de África, ainda no estado primitivo, não é possível assistir-se a actos de malvadez e selvajaria, que sequer possam ser comparados aos que, ainda na idade média, constituíam festas religiosas, preparadas e executadas com os mais repugnantes requintes de barbaridade pelos próprios que se diziam apóstolos de religiões baseadas na bondade e no amor.
Recortaremos, no estreito espaço deste artigo, alguns destes testemunhos: E com eles provaremos que a presença do preto na grande festa nacional em que o povo português comemora a data da ressurreição, é um direito que os prejuízos não podem sequer contestar quanto mais revogar. É um facto histórico, o direito que a raça negra da nacionalidade portuguesa tem de comparticipar das glórias pátrias, e de seguir, ombro a ombro, nos cortejos cívicos, ao lado dos portugueses de pele branca. E direito inatacável, selado com os beijos que os lábios divinos de Camões teriam imprimido nos lábios dulcíssimos de Bárbara cuja presença, serena amansava as tormentas na alma do grande épico.
A maior glória nacional amou uma preta. E desse amor, como fruto imorredouro, ficou esse poema que é a mais bela flor do lirismo português, a versão em crioulo da ilha Brava, feito por quem estas linhas subscreve, e inserida na “Pretidão do Amor”.
Essas famosas redondilhas apareceram na primeira edição das “Righ(…) de Camoens 1595) com o seguinte titulo:

Endechas, A boa cativa
com que andam de amores na India, chamada Barbara.

Transcrevemo-la da “Pretidão do Amor”:

Aquela cativa 
Que me tem cativo,
Porque mais vivo
 Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores, 
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.

Rosto singular,
Olhos sossegados, 
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
Que quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura, 
Que a neve lhe jura
Que trocava a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E, pois nela vivo,
É força que viva.
…………………………………………………………………………………..……..
Segue a versão em crioulo da Ilha Brava ( Eugénio Tavares)

Quel bonita scraba,
Qui tenê’n catibo,
Pamó’ ‘n dál nha bida.
Câ crê p’na stâ bibo.
Tê oji qu’in odjâ rosa
Num mot bidjabo
Qui mé na nha ôdjo

Nim ramo na campo, 
Nim stréla nâ céu.
‘N tâ atchá tam frumóz
Cumâ nha cretcheu,
Rosto só di sé’l;
Ôdjo madornado
Preto stancadinho, 
Má sem ser di matâ.

Um luar cu bida
Stâ né’l morado
Pâ ser sinharinha
Di quem qui ê marrado.
Cabilinho preto.
‘N dâ renti bóz
Tâ perdê entendêr
Má lôro e frumóz.

Pintura di amôr, 
Tan dóci figura
Qui nébi djurá’l
Qui êl trocâ cor.
Mansura contente, 
Má seria lá qui…
Tâ parcê bem stranho
Má brabo êl câ é.

Ariado di saído
Qui tâ mansâ mar:
Lindura né’l arcansâ
Tudo nha pezár.
Ês ê quel cativa
Qui tenê’n catibo, 
‘N pô n’ stâ bibê n’él
Na al lidâ ‘n stâ bibo.
……………
Nota : “Endecha” – Classificado pela Voz de Cabo Verde – É uma composição poética sobre qualquer assunto melancólico, do século XVI…. No presente caso de Camões é uma canção triste, de tom lamentoso e sentimental. Esse estilo de foi transportado para a música, como variedade de canção fúnebre portuguesa do século XVI . V. Koening
 Voz de Cabo Verde – 1912          (Continua).

(Pesquisa de Artur Mendes)





quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

[8784] - SEQUESTRO DO PAI NATAL...


      Noite fria em Tomar, sob céu límpido e estrelado. Saio para ir abastecer o automóvel a uma bomba de gasolina. Suspensas sobre as ruas, figuras de múltiplas combinações bordam a noite com seus perfis luminosos. No ar flutuam as modulações de cânticos difundidos por altifalantes invisíveis. É o Natal à porta, anunciado em toda a sua fantasia coruscante. O movimento nas ruas é a estas horas já quase diminuto, depois do corrupio frenético durante a tarde toda. Foi um vaivém ininterrupto sobre os passeios, lojas com mais clientes do que o habitual, pessoas apressadas transportando sacos e embrulhos. Nesta altura, o poder de compra faz tréguas com a carestia, e o Natal é uma fábula com que o comum das pessoas se pactua, não fazendo caso das denúncias do consumismo desenfreado. Há quem entenda que o verdadeiro sentimento natalício é anestesiado pela banalização de gestos e palavras que nos dias de hoje se automatizam a uma escala sem precedentes com os novos recursos das tecnologias de comunicação: mails, sms, cartões de boas festas formatados pelos sistemas informáticos, etc.
      Com estes pensamentos, paro frente a um sinal vermelho do semáforo, e alguém se aproxima a vender-me o almanaque Borda-d’água. Mas o sinal verde abre e arranco, no rosto do vendedor ambulante ficando a estampada a frustração. É possível que me tenha visto como um cliente certo, que as regras de trânsito lhe roubaram no último instante. Sinto remorso, ainda penso em fazer inversão, mas a manobra é impensável. O meu impulso natalício foi tolhido pelas exigências do código de estrada.
      Chego à bomba de gasolina e encontro um velho companheiro das minhas já longínquas andanças por terras de Angola. Convida-me a tomar um café. Sentados já à mesa, vêm logo as lembranças de África, de dois natais passados num lugar recôndito em pleno mato, em situações hoje inimagináveis pelas gerações actuais. A páginas tantas, o meu amigo queixa-se do consumismo que assola as pessoas por esta data e aponta-me, como exemplo, o saco repleto de prendas.  
      ─ Já sei que daqui a dois dias os meus netos já nem sequer vão olhar para isto, e serão mais uns brinquedos a juntar aos dos anos anteriores, mas que fazer? ─ disse ele.
      ─ Pois é, o que fazer? ─ corroborei a sua interrogação ─ se não surfarmos a onda destoamos dos outros, ficamos mal vistos, não é?
       ─ Claro, mas é nesta altura que sinto nostalgia dos natais da minha infância, na aldeia da Beira Baixa…
       Sem querer interromper a torrente dos seus pensamentos, deixo-o prosseguir: 
       ─ … Olhe, naquele tempo era tudo muito diferente, muito simples, hoje até dói ver tanta “estragação” em coisas de que não precisamos e servem mais para justificar a ocasião natalícia. Lembro-me bem desses tempos, eu miúdo ainda, numa época que era de dificuldades... ─ Uma breve pausa, e aguardo que ele continue.
      ─ … Na minha aldeia, a véspera de Natal era, em certos aspectos, um dia como outro qualquer, sem comezainas e luxos. Durante a tarde, o meu pai reunia uns bons cepos de pinheiro e arrumava-os ao pé da lareira. Explicava-me que nessa noite o fogo não se podia extinguir, porque o Menino Jesus iria acomodar-se junto à lareira. À hora do jantar, o braseiro já estava bem vivo, o que era um consolo naquelas noites invernosas. A seguir, íamos à Missa do Galo e regressávamos a casa na companhia dos meus avós e outros familiares. O meu pai reunia sempre a família mais próxima. A minha mãe punha então a mesa para a nossa ceia, pobre mas algo diferente dos outros dias. O meu avô abria uma garrafa de aguardente de medronho do seu próprio fabrico. Então, a reunião de família se animava com uma conversação viva e alegre em que toda a gente participava, contando-se histórias de outros tempos. O meu avô recordava sempre a memória de outros natais, a presença dos seus pais, a grande satisfação que os invadia na véspera natalícia. Chegava o momento que eu mais aguardava. Era quando o meu pai me dizia que ia nascer o Menino Jesus naquela noite e que ele viria numa estrela para me trazer de propósito uma prendinha. Então, aconselhava-me a deixar o meu único par de sapatos ao pé da lareira, porque dentro deles eu iria encontrar uma surpresa. ─ E o que acontecia depois? − indago, interessado em ouvir o resto de uma conversa de todo inesperada.
      − Ah, vai ver. As horas iam avançando, e o fogo da lareira não parava de ser alimentado para se manter ao rubro. O seu forte crepitar denunciava a presença de uma noite especial. Lá para o fim, os temas de conversa iam rareando, o sono a aproximar-se, e o olhar de todos pregado no brasido da lareira. Dir-se-ia que repentinamente ficavam pensativos, talvez a recordar familiares ausentes ou já falecidos. Mas naqueles olhares silenciosos lia-se a gratidão pela comunhão espiritual daquela noite. Era como se o Menino Jesus fizesse o milagre de reforçar o afecto que nos unia a todos. Eu ia para a cama, não sem deixar de espreitar para o céu, na esperança de descobrir a tal estrelinha que me ia trazer o Menino Jesus. O meu sono era sobressaltado com a alegre expectativa da manhã seguinte. Mal acordava, corria para a lareira e dentro do sapato estava uma moeda de 1 escudo. Para mim isso tinha um significado desmedido. Ainda hoje recordo a singeleza daquela prenda. Mas aquela moeda, pouco dinheiro, significava mais do que o seu valor real. Era a prova real de que tinha havido uma noite diferente na nossa casa. Enfim... naqueles tempos era assim mesmo.
     Então, intervim: ─ Se calhar a solução é sequestrar o Pai Natal, suspendê-lo num limbo qualquer, fora do alcance do marketing comercial, ele que é o seu símbolo mais mediático, inventado pelos americanos. É a única maneira de fugir ao consumismo desenfreado que nos desfoca o olhar sobre o essencial da vida; de fazer vista grossa e ouvidos moucos a essa agressiva publicidade que incita as pessoas a gastar até ao último centavo, e quando não o têm é a crédito.     
      ─ E acha que resulta?
      ─ Não, não resulta, o que eu disse é uma metáfora, é uma brincadeira com as palavras. Porque, de facto, é difícil contrariar a dinâmica social e dos tempos, que é sempre complexa e imprevisível. Até porque, repare, o crescimento da economia depende também do consumo interno, mesmo que o seu efeito seja sazonal, como no Natal e nos meses das férias. Enfim, as coisas não são tão lineares como às vezes supomos, a economia não é como governar uma casa, tem as suas regras, as suas variáveis. Mas é pena que o espírito natalício entre na contabilidade das coisas perecíveis.      
      O meu amigo suspirou e disse: ─ Ah, quanto daria para regressar aos natais da minha aldeia!… seria a única forma de fugir ao atropelo dos sentidos…
      ─ Diz bem, a solução é regressar às nossas antigas aldeias, ─ interrompi-o ─ e mesmo quem não tenha uma pode criá-la dentro de si. Assim seria possível fugir aos clichés, à banalização dos gestos, à mistificação dos sentimentos. Sim, regressar à autenticidade cristã da noite natalícia é possível numa aldeia real ou imaginária. Longe do mundo artificial e supérfluo, perto das coisas puras e essenciais. Aquelas que perduram na memória.
      E foi com estas palavras finais que me despedi do meu amigo, com votos recíprocos de Boas Festas.
                                   
Tomar, Dezembro de 2015
Adriano Miranda Lima

domingo, 12 de abril de 2015

[7993] - O FUTURO JÁ COMEÇOU!...


MERCEDES BENZ F015 LUXURY...

Já mexe, este protótipo do primeiro carro que não necessita de condutor...mas que pode ser conduzido, se assim se desejar...
Trata-se de um espectacular triunfo da tecnologia, cuja engenharia electrónica teve a colaboração importante de técnicos portugueses, o que não deixa de ser motivo de orgulho para a ciência nacional...


O painel de instrumentos, totalmente electrónico e o lugar do condutor, já que o carro tanto poder auto conduzir-se como ser conduzido...


Este veículo é um autentico salão de luxo itinerante, com assentos giratórios e acessos de concepção revolucionária... Tal como o combustível que utiliza - o hidrogénio!

ESTÁ AÍ, O FUTURO!!!


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

[7773] - A M I Z A D E S ...


Esta noite, a insónia, que raramente me visita, lembrou-se de mim e fez-me companhia durante largas e intermináveis horas de vigília...
Não é do meu feitio enervar-me com o inevitável e, oitenta anos passados, já aprendi que a melhor forma de enfrentar a insónia é, pura e simplesmente, aguardar que se vá...Entretanto, convém aproveitar o tempo e, desta feita, dei comigo a divagar sob o conceito de amizade.
Primeiro, achei que as chamadas "falsas amizades" são uma utopia pois, se são falsas, não são amizades e, se são amizades, não podem ser falsas...Talvez fingidas mas, mesmo assim, tenho as minhas dúvidas...
Depois, interroguei-me sobre se a amizade é um sentimento - ou estado de alma - que exija presença, contacto, visualização, abraços e outras efusões do género, duas bebidas e um "tchim-tchim",  partilha de emoções, cumplicidade completa e totalmente isenta de egoísmos, fruto do intercâmbio dos mais íntimos segredos e, claro, do mútuo respeito, livre e inconscientemente aceite...
Cheguei à conclusão, já com algum peso nas pálpebras, que é possível cultivar amizades à distância, com o conhecimento apenas superficial do aspecto físico do outro - ou da outra - mas com a assimilação interessada do conteúdo dos escritos que se intercambiam e reflectem o pensamento e o espírito dos intervenientes, sem clivagens ou amarras preconceituosas e onde as almas bem formadas se encontram e se geminam nos ideais que partilham e respeitam as diferenças que, afinal, fazem de cada um de nós peças únicas na babel cósmica a que chamamos Humanidade...
É, assim, que eu tenho o privilégio de, graças a este veículo, ter encontrado amigos que jamais vi mas, que, ainda assim, fazem parte de um acervo mental inestimável que preservo como tesouro precioso, único, insubstituível!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

[7667] - DO CENTRALISMO DEMOCRÁTICO E DOS ISMOS


Há largos anos que li, em Coimbra, da biblioteca dispersa pelos “repúblicos” por medida de segurança anti-PIDE, da Real República os 1.000-y-Onarius, O Contrato Social, de Jean Jacques Rousseau, tendo-me passado despercebido que o filósofo, que conhecemos do liceu ao estudar os precursores da Revolução Francesa, talvez fosse o primeiro a defender a teoria do Centralismo Democrático, claro que sob outras vestes. Partindo do princípio de que a autoridade do Estado idealizado por ele emana da “vontade geral”, de “todo o povo”, argumenta – de resto como F. Engels, na sua célebre “Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra” -, que mais nenhuma manifestação de liberdade individual deve ser tolerada posteriormente ao acto constitucional fundador.
Rousseau nunca escondeu preferir o campo à cidade, a agricultura ao comércio, a simplicidade e modéstia ao luxo, a estabilidade dos costumes às invenções, a igualdade dos cidadãos numa economia simples, à desigualdade numa complexa, o tradicionalismo ao progresso. Nesse sentido conservador e rural, não foi, ao contrário do que nos ensinaram no liceu, o precursor da democracia liberal, mas o intelectual da esquerda totalitária, esquerda, por vezes, autodeclarada, revolucionária.
Na minha juventude - minha e de alguns amigos que viraram políticos-, estivemos encantados com uma ideia inviável – o comunismo – de ideais nobres, mobilizadores, que, afinal, nunca se praticaram, mas empolgaram quem os conhecia através da bem urdida propaganda política e habilidade de dissimulação ideológica; admirámos homens que julgávamos íntegros e idealistas, em verdade sinistros, e, mais tarde, fechámos os ouvidos, algumas vezes, para não ouvir falar num número infinito de crimes em que não acreditávamos que pudessem ter sido praticados pelos nossos ídolos políticos. E isso aconteceu por termos vivido num regime sem liberdade as mais elementares, opressivo e policial que também navegava na mentira, que conhecíamos e nos impedia de acreditar no que nos contavam, até por não nos ser permitido visitar os países comunistas nem os outros onde existia a vera democracia, liberdade de expressão do pensamento e de informação. Sabíamos, por viver nele, que o capitalismo não proporcionava a igualdade, e julgávamos que o comunismo o fazia, quando, com efeito, o que fazia era repartir a pobreza. As soluções colectivistas da experiência soviética não podem ser repetidas porque, ao igualarem por baixo, mataram a liberdade, e esta morte liquidou a igualdade tentada.
Custou-nos a entender isso, esquivando-nos, durante anos, a acreditar no logro, inventando até desculpas para o comunismo, argumentando que fracassou por não ser o verdadeiro comunismo e por os seus intérpretes serem ruins. Afinal de contas, não havia outro, não há nem parece haver outro. 
Distribuir sem lucro está fora do sistema capitalista e neoliberal. E distribuir com lucro deixa de fora milhões, mesmo biliões de famintos. O mercado, de que tanto se fala nos nossos dias, prefere inutilizar os excedentes a distribuí-los. Os governantes actuais, neoliberais, tudo fazem para não irritar o mercado (receando o seu nervosismo, que significa tão-somente estar ávido de mais lucros). Damo-nos conta, pois, de que a riqueza concentra-se em cada vez menos mãos e o salário distribui-se por cada vez menos trabalhadores, o que significa que a miséria e a fome se distribuem por cada vez mais gente e bocas. A fome, a exclusão social e o desemprego aumentam exponencialmente com o aumento global da chamada riqueza das nações, e não o contrário, como nos garantiram e continuam a querer enganar-nos.
Dessa minha vivência, conhecia de ginjeira o centralismo português que, tendencionalmente entravava as iniciativas das administrações regional e locais, as tentativas de descentralização, tendo por consequência o avolumar do burocratismo. Somente mais tarde, já em Cabo Verde, na pós-independência, é que convivi com o centralismo a que se acrescentou o qualificativo democrático, e a persistência da imagem do poder político e social condensado no Partido único PAIGC/CV, e, mais tarde, no MpD, quando este teve maioria qualificada - tentação para a tirania da maioria -, centralismo com tendência a caminhar a par com uma degradação progressiva dos comportamentos e da mentalidade dos quadros, com tendência geral para se subtraírem ao cumprimento de normas regulamentares e éticas e a conviver, sem rebates de consciência, com a corrupção.
Embora tenhamos passado a viver em multipartidarismo, para alguns militantes e governantes no poder, o antigo partido único é, segundo dizemos em medicina, como um membro fantasma, um braço ou uma perna desaparecido, mas que o amputado continua a sentir como se ainda se encontrasse presente. Fenómenos de natureza ideológica podem estar em actividade em sectores da vida política, administrativa ou social sem que se esteja numa sociedade de partido único. Estamos, em Cabo Verde, nesta situação, o que tem dificultado o diálogo e as mudanças.
Como resolver o imbróglio e a actual crise global? Em primeiro lugar, deixar de salivar os lugares comuns do centralismo democrático e abrir o espírito a influências novas dialogantes. Em seguida, isso no contexto geral da actual crise global, tentar encontrar uma maneira de harmonizar o sistema que sabe produzir com o que sabe distribuir, que se invista na criação da sociedade solidária, da solidariedade, inventada pelo socialismo, em substituição da fraternidade, de origem liberal, da Revolução Francesa e da Comuna de Paris. Não será fácil, mas há que tentar, porque a pobreza e o desespero levarão os povos a revoltarem-se, como aconteceu na Revolução Francesa; havendo revolução, ela não se limitará a um só país, não poupando os que nos vêm explorando, incluindo os oligarcas partidários ensopados em negócios pouco límpidos. 
Voltarei ao assunto com mais vagar. Não escrevi tudo quanto desejava; fá-lo-ei às golfadas para não cansar os que perderam o hábito salutar da leitura.

Parede, Novembro de 2013                                                            Arsénio Fermino de Pina
                                                                                             (Pediatra e sócio honorário da ASdeco)

PS – Outubro de 2014
Este artigo, datado de Novembro de 2013, publicado num dos nossos jornais, corrobora o que escreveu o professor João Carlos Espada em O Público, de 6 de Outubro 2014. Por ser intelectual que cito com certa frequência, vou respigar parte do seu artigo, em apoio do meu.
Julgo que esse caminho de limitação da simples liberdade de consciência, em nome de uma alegada ´verdadeira liberdade´ foi tragicamente simbolizada por Jean-Jacques Rousseau – e pelo seu equívoco conceito de ´vontade geral´ que deve ´obrigar os indivíduos a serem livres´. Foi o equívoco de Rousseau que abriu caminho a um entendimento de democracia como vontade colectiva que pode (quando não deve) ter precedência sobre a liberdade de consciência das pessoas. É isso que explica que as ditaduras comunistas tenham sido autodesignadas por democracias populares. Também Mussolini, num célebre artigo na Enciclopédia Italiana, argumentou que o fascismo era mais democrático do que as oligarquias capitalistas.
Na Inglaterra, por exemplo, a democracia emergiu da gradual expansão do sufrágio em regimes que não eram absolutos e já eram limitados – pela Lei e o Parlamento (ainda que este fosse baseado em sufrágio não universal). A Magna Carta de 1215 é um símbolo destes princípios. Este entendimento de democracia como governo limitado pela lei que presta contas ao Parlamento – dominante hoje – resulta de critério das democracias liberais [isto faz-me recordar o longo e incansável combate jornalístico do amigo Casimiro de Pina] sobre os totalitarismos nacional-socialista e comunista do século XX. Supõe que a esfera política e estatal é ela própria limitada. Para além dela existem múltiplas associações, livres e privadas, da sociedade civil – que não podem nem devem ser comandadas pelo Estado, mesmo democrático.
Este conceito de democracia não garante um bom governo. Apenas garante que os maus governos poderão ser afastados sem violência. Tal como o conceito de liberdade de consciência não garante que as escolhas, dela decorrentes, sejam boas. Apenas garante que as más escolhas não poderão ser impostas a todos. A igualdade e a democracia são, por este motivo, imperfeitas. Mas, como recordou Churchill, a liberdade e a democracia são de longe preferíveis às alternativas.

domingo, 31 de agosto de 2014

[7335] - "FAITS DIVERS"...

As televisões têm o hábito de convidar pessoas das mais diversas profissões e interesses para comentar a imprensa diária...
Claro que não sabemos quais os critérios que presidem à escolha desses comentadores de ocasião mas, hoje, apareceu um que me deu que pensar. Tratava-se de alguém ligado à recente re-inauguração do Cinema Ideal, ali para os lados da Praça Camões, e que, a certa altura, calhou referir-se ao jornal Correio da Manhã...Segundo ele, trata-se de um periódico com pergaminhos firmados, credível e imparcial, pelo que estranhava o fundamento da notícia que, em primeira página, dá conta do facto de um antigo dirigente do Sporting ter vendido uma mansão de 7,5 milhões! 
Porque a jornalista de serviço não quis - ou não soube - aprofundar as razões do seu convidado, ficamos por saber se o homem, sendo sportinguista, achava mal expor assim um ex-presidente do seu clube ou, sendo benfiquista (ou portista...) se inciumava com o destaque concedido a um ex-dirigente do clube rival... Ou se achava a notícia tão pouco interessante que estranhava que tivesse guarida na capa de um jornal que ele considera de elite...
As dúvidas, essas, subsistem, porque os jornalistas das nossas televisões nunca tiveram jeito para fazerem coisas de jeito!

terça-feira, 29 de julho de 2014

[7230] - A CHURRASQUEIRA SOLAR...


A tecnologia usada no aparelho, que pode atingir 450º Celsius, é primorosa.
Ele vem equipado com uma bateria à base de nitrato de lítio, o que lhe rende uma autonomia de cerca de 25 horas entre cada recarga.
Isso significa que a energia armazenada num único dia de sol pode ser utilizada durante toda a noite e no dia seguinte também, favorecendo à agradável actividade de se cozinhar ao ar livre nas grandes cidades e atendendo especialmente as necessidades das comunidades situadas nas regiões rurais e longínquas.

Pesquisa de A.Mendes

sexta-feira, 21 de março de 2014

[6700] - O SENTIDO DAS PALAVRAS...



"O PAIGC SOUBE FAZER A GUERRA, O PROBLEMA É QUE NÃO SOUBE FAZER A PAZ!"

Palavras de um livro a apresentar em Maio e de que é co-autor o Embaixador Francisco Henrique da Silva.

Fonte - Bloque Ditadura do Consenso...

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

(5655) - A FORÇA DAS CONVICÇÕES...


Ao que parece, Natália Correia teria escrito uma peça teatral, que fez publicar em livro, em que achincalhava Salazar, ainda vivo na altura...O livro, claro, foi apreendido no dia em que apareceu nas Livrarias...  Silva Pais, o chefe supremo da PIDE~DGS, na sua visita semanal ao Chefe do Governo,  colocou-o a par da apreensão do livro e das intenções da Policia Politica de deter a autora...
Salazar terá pensado uns breves segundos antes de dizer: - Quanto ao livro, está bem...Mas à senhora vão deixá-la em paz.... Sabe? A D.Natália é uma pessoa muito inteligente!...

sábado, 12 de outubro de 2013

(5635) - PELOS "BAS-FONDS" DA BOLA EUROPEIA...


A entrevista que o capitão da selecção nacional principal de futebol ontem concedeu à TV após aquele jogo anedótico contra Israel, colocou-me a pulga no ouvido e, por isso, já a revi algumas vezes para ficar ciente do verdadeiro sentido das palavras de Cristiano Ronaldo...
Com o resultado picaresco ontem à noite conseguido, a nossa selecção terá comprometido, de forma definitiva, a possibilidade de entrar no "play-off" como "cabeça-de-série" o que lhe garantiria o confronto com equipas menos qualificadas e, portanto, mais acessíveis para um eventual apuramento para o Mundial do Brasil.
Assim, o seleccionado português corre o risco de, não sendo cabeça-de-série, ter que vir a defrontar equipas de gabarito superior, entre as quais, a selecção...da França!
Cristiano afirma que acha que é de fugir a sete pés a esta perspectiva pois tal encontro, para além do facto indesmentível de a França ter uma belíssima selecção, despertaria interesses com resultados que o nosso "capitão" se escusou a pormenorizar pois, segundo afirmou, não queria correr o risco de ser castigado...
Será que os receios de Cristiano Ronaldo tem algo a ver com o facto de o "manda-chuva" da UEFA ser francês!?



sábado, 5 de outubro de 2013

(5605) - O MELHOR DO MUNDO...


Eu não gosto de discursos!

As melhores coisas do Mundo

só precisam de três letras…

MÃE – PAI - PAZ

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

(5580) - A ESSÊNCIA DA VIDA...

 
TUDO, NESTE MUNDO-CÃO, SE MUDA
E ALTERA, CONSTANTEMENTE...
SÓ O VERDADEIRAMENTE
IMPORTANTE
RESISTE!!!
 
 
 
 

(5579) - O DRAMA DOS REFUGIADOS...



De visita à ilha de Lampedusa, na Itália, destino de muitos dos refugiados que sobem do Norte de África, por  vezes apinhados em autênticas "cascas de noz", o Papa Francisco aludiu a um conceito cuja profundidade, pelos termos que utilizou, merece uma muito atenta reflexão...Referindo-se aos refugiados e outros desprotegidos da sorte, o Papa culpou aquilo a que chamou de GLOBALIZAÇÃO DA INDIFERENÇA!
O que pensarão disto os G4, G8 e G10 do nosso mundo global?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

(5565) - O ANTES E O DEPOIS NA SANTA SÉ...


O Papa  Francisco não perde a oportunidade para emprestar um cunho muito pessoal ao seu magistério, operando profundas alterações nos hábitos mais ostentórios da Santa Sé...Esta composição fotográfica é disso testemunho, de forma quase radical...Ora, vejamos:
1. - O Para Francisco  renunciou ao magnifico trono dourado de S.Pedro, ocupando uma normal cadeira de braços e espaldar alto;
2. - Prescindiu da vistosa estola  bordada a ouro e da capa vermelha:
3. - Não trocou os seus sapatos negros pelos valiosos sapatos vermelhos;
4. -  Ostenta uma cruz de metal, sem pedras preciosas;
5. -  O seu anel Papal é de prata e não de ouro;
6. -  Usa apenas a batina branca sobre as suas calças de sacerdote;
7. - Mandou retirar o tapete encarnado sobre o qual o trono assenta.
É bem certo: há Papas e há Papas!

sábado, 4 de maio de 2013

DESABAFO...



Nota do Gerente:
Este texto chegou-nos à mão em e-mail do amigo de longa data
M.M. da Silva, com o seguinte recado do autor:
"PARTILHANDO UM RETRATO ATUAL
DA SOCIEDADE PRAIENSE, COM
REFLEXOS NEGATIVOS E
CRIMINOSOS NAS
OUTRAS POBRES
ILHAS..."



sábado, 20 de abril de 2013

TERROR EM BOSTON...


Duas bombas artesanais deflagradas por dois aprendizes de terrorismo colocam um país em transe e aprisionam em suas casas os habitantes de uma das maiores cidades da União...
Morto um e aprisionado o mais jovem, de 19 anos, numa operação que, durante mais de 24 horas manteve reféns muitos milhares de cidadãos americanos, tudo acabou por volta das 19,00 horas de ontem, com um saldo de  perda de vidas humanas e gastos de mais de 300 milhões de dólares...
Tudo isto acontece numa nação paradigma da democracia que, no entanto, defende com unhas e dentes o preceito constitucional que concede a todos os cidadãos o direito à posse de armas de fogo!

domingo, 2 de dezembro de 2012

FUNDAMENTALISMO...


Quando disse a Abdul-Karim Zakariya
que o seu profeta era um pedófilo cuja segunda mulher tinha, apenas 6 anos aquando do matrimónio, ele fulminou-me com o seu olhar penetrante e vociferou: "Isso é uma das maiores blasfémias que os cristãos inventaram para denegrir a figura do Grande Profeta Maomé pois, na realidade, a 
sua segunda esposa tinha 9 anos...!"

domingo, 22 de janeiro de 2012

COIMAS: MAIS 80% DE COBRANÇAS...


Se partirmos do principio que as infracções ao Código da Estrada deram lugar a uma cobrança de multas da ordem dos 47 milhões de Euros, em 2010, tal cobrança subiu, em 2011, 80%, atingindo cerca de € 85.000.000,00...Grande resultado!
Segundo o porta-voz dos cidadãos auto-transportados, esse aumento deve-se à "caça à multa" a que as polícias se dedicam em regime de rivalidade entre os diversos Comandos, como medida para realizar receitas extra  que façam frente a despesas das corporações que o O.G.E. não consegue contemplar...
Mas, as Autoridades e a própria Prevenção Rodoviária, afirmam que tal aumento de cobranças se deve à informatização dos sistema de tratamento de dados que facilita todo o processo burocrático fazendo diminuír, de forma muito sensivel, os prazos que medeiam entre a infracções e o pagamento das coimas respectivas...
Que venha o diabo e escolha!